Economia Política

Entrevista com Thomas Piketty: 'O verdadeiro perigo para a Europa é a hipocrisia de Juncker e Merkel'

'A Alemanha finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra. Se não tivesse sido perdoada, teria se desenvolvido tanto?

28/01/2015 00:00

European People's Party

Créditos da foto: European People's Party

"Não entendo por que as chamadas chancelarias europeias estão tão aterrorizadas com a vitória do Syriza na Grécia. Ou melhor, eu entendo, mas é hora de desmontar suas hipocrisias". Thomas Piketty, que leciona na École d'Économie parisiense, "o economista mais conceituado de 2014", tal como definiu o Financial Times, vem à tona com toda a sua garra em um editorial publicado ontem pelo jornal Libération. "Na Europa, faz falta uma revolução democrática", ele escreveu, e repete alto e bom tom ao telefone, no aeroporto de Paris, antes de embarcar para Nova York, a cidade que lançou seu "O capital no século XXI" como livro do ano graças ao respaldo do prêmio Nobel Paul Krugman.


- Professor, Tsipras abriu o caminho, no entanto, defendendo o estandarte da saída do euro?
 
Sim, mas agora suavizou muito as suas posições. Revelou-se, ao contrário, como um líder fortemente europeísta, uma postura que se assentará quando tiver que formar um governo de coalizão. Desde já, o Syriza fará valer suas posições na Europa, mas isso não será um mal. Ao contrário.


- Em resumo, algo acontecerá. Mas estamos certos de que não será algo inovador?
 
Veja, consideremos a situação com realismo. A tensão na Europa chegou a um ponto em que, de uma forma ou de outra, explodirá em 2015. E as alternativas são três: uma nova crise financeira tremenda; a firmação das forças de direita que formam uma coalizão cujas bases estão se formando agora, centradas na Frente Nacional na França, incluindo a Lega Nord e ps 5 Stelle; ou uma sacudida política que venha da esquerda: o Syriza, os espanhóis do Podemos, o Partido Democrático italiano, o que resta dos socialistas, e enfim, os aliados. Você escolhe qual das soluções? Eu escolho a terceira.


- A famosa "revolução democrática", em resumo. Quais deveriam ser as primeiras ações?


Dois pontos. Primeiro, a revisão total da atual política baseada na austeridade que está asfixiando qualquer possibilidade de recuperação na Europa, a começar pelo sul da zona do euro. E essa revisão tem que prever como primeiríssima coisa uma renegociação da dívida pública, uma ampliação dos prazos e, eventualmente, perdões de verdade de algumas partes. É possível, eu asseguro. Já se perguntaram por que os EUA vão de vento em popa, assim como a Europa que está fora do Euro, assim como a Grã-Bretanha? Mas por que a Itália deve destinar 6% do PIB para pagar os juros e apenas 1% à melhoria de suas escolas e universidades? Uma política centrada apenas na redução da dívida é destrutiva para a zona do euro. Segundo ponto: uma centralização nas instituições europeias de políticas de base para o desenvolvimento comum a partir da política fiscal e, no mais, reorientar esta última para onerar mais as maiores rendas pessoais e industriais. Nesses assuntos fundamentais, deve-se votar por maioria, e já não por unanimidade, e vigiar depois para que todos se ajustem. Uma maioria centralizada vale também em outras frentes, à semelhança do que se está começando a fazer com os bancos. Só assim se poderá homogeneizar a economia e desbloquear a fragmentação de 18 políticas monetárias com 18 tipos de juros, 19 desde o início de janeiro com a Lituânia, expostas ao açoite da especulação. Não se dar conta disso é ser míope, e o que é pior, profundamente hipócrita.


- As "hipocrisias europeias" das quais falava no início: a que o senhor se refere, mais concretamente?
 
Vamos pela ordem. O mais hipócrita é Jean-Claude Juncker, o homem a quem se entregou, inconscientemente, à Comissão Europeia depois que ele levou Luxemburgo durante vinte anos a uma sistemática depredação dos benefícios industriais do resto da Europa. Agora pretende se fazer de durão e mudar, tudo com um plano de 300 bilhões que, no entanto, só se financiam 21, e dentro desses 21 a maior parte são fundos europeus já em via de distribuição. Fala de "efeito alavanca" sem sequer se dar conta do que está falando. No segundo lugar, está a Alemanha, que finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra Mundial, baixando num só golpe de 200 para 30% do PIB, o que permitiu financiar a reconstrução e o irresistível crescimento dos anos seguintes. Aonde teria chegado se fosse obrigada a reduzir arduamente sua dívida em 1% ou 2% ao ano, como está obrigando o sul da Europa a fazer? O terceiro lugar nessa embaraçosa classificação de hipocrisias pertence à França, que agora se rebela diante da rigidez alemã, mas que esteve na primeira fila prestando apoio à Alemanha quando esta impôs a política de austeridade, e pareceu igualmente decidida quando o Fiscal Compact de 2012 condenou as economias mais frágeis a reembolsar suas dívidas até o último euro, apesar da devastadora crise de 2010-2011. Assim que se desmascarar e ilhar essas hipocrisias, será possível retomar o desenvolvimento europeu no ano que está prestes a começar. E o Syriza dará menos medo.


Thomas Piketty (1971) é diretor de estudos da EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales) e professor associado da Escola de Economia de Paris, além de autor de recente e fulgurante celebridade pro seu livro O Capital no século XXI (Fundo de Cultura Econômica, 2014).
 
Tradução de Daniella Cambaúva



Conteúdo Relacionado