Economia Política

FMI: 'Grande Isolamento' deve rivalizar Grande Depressão com queda de 3% no PIB global

''Uma crise como nenhuma outra'', afirma a publicação mais recente do FMI

14/04/2020 15:06

A Harbor Freeway, geralmente congestionada, no centro de Los Angeles, retratada durante o bloqueio. (Mark J Terrill/AP)

Créditos da foto: A Harbor Freeway, geralmente congestionada, no centro de Los Angeles, retratada durante o bloqueio. (Mark J Terrill/AP)

 

O Fundo Monetário Internacional cortou suas previsões de crescimento global em resposta à pandemia de Covid-19 e alertou para uma queda na produção este ano sem paralelo desde a Grande Depressão da década de 1930.

Em suas previsões semestrais, o FMI disse que o "Grande Isolamento" causaria uma queda dramática na atividade que seria muito mais dolorosa do que a recessão que se seguiu ao colapso bancário no final da primeira década dos anos 2000.

O FMI disse que o choque repentino causado pela disseminação do coronavírus significou que a instituição foi forçada a cortar uma estimativa feita há apenas três meses de crescimento global de 3,3% este ano e substituí-la por uma contração esperada de 3%.

Até agora, a desaceleração que se seguiu ao quase colapso do sistema financeiro global no final de 2008 foi a mais grave do pós-guerra, com a atividade global encolhendo 0,1% em 2009

Quedas maiores na produção são, agora, previstas para 2020, concentradas nas economias ricas do oeste, que devem encolher em média 6,1%. Itália e Espanha - as duas economias europeias mais afetadas pela Covid-19 até agora - verão o PIB cair 9,1% e 8%, respectivamente, disse o FMI em seu estudos das perspectivas econômicas mundiais. A queda da produção britânica é estimada em 6,5%.

Das grandes economias emergentes, a taxa de crescimento da China deve cair de 6,1% no ano passado, para 1,2% em 2020 - o menor crescimento em décadas. A Índia está a caminho de crescer 1,9%, caindo dos 4,2% de 2019. [A projeção do FMI para o Brasil é de queda de 5,3%.]

Ajustadas para levar em conta as mudanças na população, as previsões do FMI foram ainda mais sombrias. O produto interno bruto (PIB) per capita - uma medida dos padrões de vida - deverá cair globalmente 4,2% em 2020, 6,5% nos países avançados e 7% no Reino Unido.

Gita Gopinath, conselheira econômica do FMI, disse que o tamanho do impacto na economia global, a incerteza sobre quanto tempo durará o choque e a necessidade de desencorajar a atividade econômica para conter o vírus levaram a uma crise “como nenhuma outra. ”.

Ela acrescentou: “É muito provável que este ano a economia global sofra sua pior recessão desde a Grande Depressão, superando a observada durante a crise financeira global de uma década atrás. ‘O Grande Isolamento’, como se pode chamar, deve reduzir drasticamente o crescimento global".

O FMI prevê uma recuperação parcial em 2021, quando estima que o crescimento se recuperará para 5,6%, mas Gopinath disse que o nível do PIB deve permanecer abaixo da tendência pré-vírus, com incerteza considerável sobre a força da recuperação.

Ela alertou: "Resultados de crescimento muito piores são possíveis e mesmo prováveis".

O World Economic Outlook (Perspectivas Econômicas Mundiais) do FMI está assumindo que as disrupções econômicas estão concentradas principalmente no segundo trimestre de 2020 para quase todos os países, exceto a China (onde o impacto foi mais intenso no primeiro trimestre). O tempo gasto para a retomada significa que a queda acentuada na produção será seguida por uma recuperação apenas gradual.

O FMI disse que suas previsões são altamente incertas e que os riscos são de que o custo econômico da pandemia seja pior do que o atualmente previsto. A previsão de recuperação se baseou na eficácia das medidas de estímulo à prevenção de falências generalizadas de empresas, limitando a perda de empregos e aliviando os problemas financeiros.

O estudo modelou três cenários alternativos: um isolamento em 2020 com duração 50% maior do que o previsto; uma leve recorrência do vírus em 2021; e uma prolongada pandemia e um esforço de contenção mais longo em 2020, bem como uma recorrência em 2021.

No pior cenário, a economia global encolheria em torno de 11%, em vez de 3%.

Gopinath disse: "O cenário econômico será alterado significativamente durante a crise e possivelmente por mais tempo, com maior envolvimento do governo e dos bancos centrais na economia".

No momento em que a Itália e a Espanha começaram a suspender suas restrições de isolamento, Gopinath disse: “Existem muitas razões para otimismo, apesar das terríveis circunstâncias. Nos países com grandes surtos, o número de novos casos diminuiu, após a adoção de fortes práticas de distanciamento social. O ritmo sem precedentes do trabalho em tratamentos e vacinas também promete esperança. As ações rápidas e substanciais de política econômica adotadas em muitos países ajudarão a proteger pessoas e empresas, evitando dores econômicas ainda mais graves e criando as condições para a recuperação. ”

Embora os efeitos da pandemia tenham sido mais graves até agora nos países desenvolvidos, o FMI disse que eles estavam melhor equipados para lidar com isso. Acrescentou que muitas economias emergentes e em desenvolvimento enfrentam uma crise em várias camadas, que inclui choque de saúde, disrupções domésticas, demanda externa em queda, fuga de capital e preços de commodities em colapso.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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