Economia Política

FMI: queda contínua da economia mundial

''A pandemia reverterá o progresso feito desde a década de 1990 na redução da pobreza global e aumentará a desigualdade''

14/10/2020 15:43

(Reprodução/FinancialTimes)

Créditos da foto: (Reprodução/FinancialTimes)

 
Quando a pandemia de COVID-19 bateu pela primeira vez, houve considerável especulação sobre uma recuperação econômica em forma de V, com a economia mundial voltando rapidamente ao "normal". Essa perspectiva foi destruída há algum tempo, e as últimas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgadas ontem (13) deixam claro que a economia global está irrevogavelmente transformada.

O último World Economic Outlook (WEO) do FMI projeta que a economia global se contrairá 4,4 por cento em 2020, com o crescimento previsto para se recuperar em 5,2 por cento em 2021, antes de se estabilizar para apenas 3,5 por cento no médio prazo.

“Isso implica apenas um avanço limitado de retorno à trajetória da atividade econômica para 2020-2025 projetada antes da pandemia tanto para os mercados avançados e emergentes quanto para as economias em desenvolvimento. A pandemia reverterá o progresso feito desde a década de 1990 na redução da pobreza global e aumentará a desigualdade”, disse o relatório.

As projeções do WEO para 2020 são de uma contração ligeiramente menor na economia mundial do que a prevista em junho. Mas isso é apenas o resultado das iniciativas de todos os governos em maio e junho para reduzir os bloqueios, ao adotarem uma agenda de retorno ao trabalho ao custo de centenas de milhares de vidas.

Como a diretora de pesquisa do FMI, Gita Gopinath, reconheceu em seu prefácio ao WEO, em comparação com a previsão de junho, "as perspectivas pioraram significativamente em alguns mercados emergentes e economias em desenvolvimento, onde as infecções estão aumentando rapidamente", e há "novos aumentos nas infecções de COVID-19 que tinham reduzido as transmissões locais a níveis baixos.”

As previsões do FMI baseiam-se nos pressupostos de que uma vacina será desenvolvida rapidamente e estará amplamente disponível. Não há garantia de nenhum dos dois. O WEO alerta que o risco de resultados de crescimento piores do que o projetado permanece "considerável" e acrescenta que se o vírus ressurgir e o progresso de uma vacina e tratamentos for mais lento do que o esperado e o acesso dos países a eles permanecer desigual, a atividade econômica pode ser menor do que o esperado.

Há também a perspectiva de que a gravidade da recessão possa levar à retirada do apoio emergencial em alguns países e ao aumento do número de falências, o que agravaria a perda de empregos e renda. O sentimento de deterioração financeira pode levar a uma “interrupção repentina de novos empréstimos” para economias vulneráveis, com efeitos colaterais transfronteiriços.

Antes da pandemia começar, a economia global caminhava para uma desaceleração significativa, após um breve aumento no crescimento em 2018 - um processo que agora se intensificou. O FMI observou que o efeito “cicatriz” da pandemia “deve aumentar as forças que reduziram o crescimento da produtividade em muitas economias nos anos que antecederam à pandemia”.

Ou seja, a COVID-19 funcionou como gatilho e, agora, como um acelerador de processos já em andamento.

O impacto devastador sobre a classe trabalhadora global é destacado por números da Organização Internacional do Trabalho, que estima que a redução global da jornada de trabalho foi equivalente à perda de 400 milhões de empregos no segundo trimestre, superando a perda equivalente a 155 milhões no primeiro trimestre.

O relatório do FMI defende a continuidade do apoio do governo, pedindo, até mesmo, o relaxamento temporário das regras fiscais quando for considerado necessário. Mas há indicações claras do sentido para onde a política está caminhando. O texto afirma: “o espaço para necessidades imediatas de gastos poderia ser criado priorizando medidas contrárias à crise e reduzindo subsídios inúteis e mal direcionados.”

O FMI aconselha que os governos “podem precisar considerar” o aumento da progressividade dos impostos para faixas de renda mais altas, bem como a tributação de propriedades e ganhos de capital, junto com mudanças nos regimes fiscais para garantir que as empresas paguem impostos proporcionais à lucratividade. Afirma que os países devem “cooperar na concepção de tributação internacional das empresas para responder aos desafios da economia digital”.

Praticamente não há perspectiva de que isso aconteça. O orçamento australiano baixado na semana passada, por exemplo, forneceu uma ilustração marcante da direção que será seguida. Ele contém cortes de impostos, beneficiando grupos de renda mais alta, combinados com reduções de impostos para grandes empresas, enquanto se movia para cortar programas de alívio ao desemprego. Quanto à cooperação em torno de um novo regime tributário que alcance gigantes digitais como Google e Apple, Trump deixou claro que tais medidas acarretarão retaliação imediata por parte dos EUA.

O FMI pede um investimento muito necessário em saúde pública. Mas isso também cairá em ouvidos surdos.

Dada a piora da situação que as chamadas economias emergentes enfrentam pelo aumento da dívida, o FMI recomenda “o apoio da comunidade internacional por meio do alívio da dívida, doações e financiamento em condições favoráveis”.

Mas, de acordo com a agência internacional de ajuda Oxfam, o próprio FMI não está seguindo suas próprias prescrições. A agência disse que 76 dos 91 empréstimos do fundo desde março envolveram cortes de gastos.

O diretor executivo interino da Oxfam International, Chema Vera, observou que o FMI “soou o alarme sobre um grande aumento na desigualdade após a pandemia”. Mas as medidas que está adotando “podem deixar milhões de pessoas sem acesso a cuidados de saúde ou apoio financeiro enquanto procuram trabalho e podem frustrar qualquer esperança de recuperação sustentável”.

Enquanto centenas de milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam a devastação econômica e social, a oligarquia financeira continua a prosperar. Um relatório divulgado pelo UBS na semana passada disse que os 2.189 bilionários do mundo aumentaram sua riqueza em US$ 2 trilhões nos últimos seis meses, para alcançar um recorde de mais de US$ 10 trilhões, com aqueles que investem em empresas de saúde entre os principais beneficiários.

Essa redistribuição maciça de riqueza está sendo financiada por meio da injeção de trilhões de dólares dos bancos centrais mundiais, liderados pelo Federal Reserve dos Estados Unidos, nos mercados financeiros. E presume-se que isso continue.

“Se os mercados acreditarem que os apoios de política serão mantidos ou aumentados em resposta à deterioração das perspectivas econômicas, as avaliações de ativos de risco atuais podem ser sustentadas por algum tempo”, afirma o FMI em seu Relatório de Estabilidade Financeira Global, também divulgado ontem.

No entanto, avisa que as vulnerabilidades estão aumentando, levando a "preocupações com a estabilidade financeira em alguns países". No setor corporativo não financeiro as vulnerabilidades estão aumentando, à medida que as empresas assumiram mais dívidas para lidar com a escassez de dinheiro, da mesma forma no setor soberano, à medida que os déficits fiscais aumentaram para apoiar a economia.

O relatório acrescenta que, à medida que a crise se desenrola, “as pressões por liquidez corporativa podem transformar-se em insolvências, especialmente se a recuperação demorar mais que o previsto”, sendo as pequenas e médias empresas as mais suscetíveis pelo menor acesso aos mercados de capitais.

Um alerta sobre o aumento de falências também está contido em uma análise publicada pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) na semana passada. O banco afirma que o apoio dos governos e dos bancos centrais limitou o número de falências até agora, mas dado o tamanho do choque, “pode ser apenas uma questão de tempo” antes que elas aumentem, levando a um novo aumento no desemprego.

Apenas alguns meses atrás, o ar estava cheio de conversas sobre uma "recuperação em forma de V", uma "reviravolta" e uma "retomada". Agora a realidade subjacente está explodindo à superfície - um colapso da economia capitalista mundial, desencadeado, mas não causado, pela pandemia.

*Publicado originalmente em 'World Socialist Web Site' | Tradução de César Locatelli

Conteúdo Relacionado