Economia Política

Filme 'O silêncio dos outros' - nosso também?

O mesmo modelo do Pacto do Esquecimento, na Espanha, e da Lei da Anistia promulgada em 1979 no Brasil podem ser incubadoras do sentimento de ódio e criam democracias frágeis, como aqui

28/02/2019 15:15

 

 

Espanhóis contra o esquecimento

Carlos Alberto Mattos

Descontados os esforços do Tortura Nunca Mais e, depois, a atuação tímida, mas simbolicamente importante, da Comissão da Verdade durante o governo Dilma, o Brasil foi um dos poucos países que não se empenharam a sério na reparação dos crimes de suas ditaduras no século XX. A Argentina, o Chile, o Camboja e outros tantos levaram seus genocidas aos tribunais e prisões.

Na Espanha, as vítimas do franquismo até hoje lutam por justiça, como se vê no notável O silêncio dos outros, vencedor do Prêmio Goya de melhor documentário espanhol de 2018.

Com produção de Pedro Almodóvar e sua empresa El Deseo, os diretores Almuneda Carracedo e Robert Bahar (casal detentor de um Emmy pelo doc Made in L.A.) passaram seis anos acompanhando as batalhas de um grupo de sobreviventes dos massacres franquistas em busca de justiça em várias frentes:

- extradição e julgamento de eminentes torturadores,

- localização e identificação de ossadas de mortos enterradas em fossas coletivas,

- investigação sobre milhares de bebês roubados recém-nascidos de pais considerados vermelhos; com fins de eugenia ideológica e

- mudança de nomes de ruas e praças batizadas em louvor a carrascos franquistas.

A missão não é nada fácil. Em 1977, dois anos após a morte de Franco, a Espanha instaurou uma Lei de Anistia semelhante à do Brasil, válida para os dois lados. Foi celebrado um Pacto de Esquecimento que equiparou algozes e vítimas, inviabilizando qualquer iniciativa de reparação.

O filme mostra como a mensagem de ‘’olvido’’ continua a ecoar na opinião pública e nas autoridades vigentes até 2017. Em nome de um olhar para o futuro, coloca-se o passado numa redoma intocável.

Uma manifestação gigante de saudosos do franquismo em 2016, com uma pequena multidão fazendo a saudação fascista, é uma imagem perturbadora que se repete a cada ano, aditivada agora pela onda direitista que varre o mundo.

O juiz Baltazar Garzón, célebre por ter levado Pinochet às grades, fracassou no intento de punir os assassinos e torturadores franquistas em 2010. Foi então que um grupo de ativistas, apelando ao instituto da jurisdição universal, logrou abrir um processo na Argentina com aquele objetivo. O filme segue essa ação judicial até 2017, testemunhando as pressões do governo espanhol para que não chegue a bom termo.

A influência de Patricio Guzmán (Nostalgia da Luz) é evidente na articulação de um cenário histórico com a individualidade de personagens marcantes. O coordenador da Associação de Pres@s del Franquismo, José M. Galante, tem o desprazer de morar numa rua cuja placa exibe o nome de um general franquista e a poucos metros de seu torturador, o inominável Billy, el Niño, até hoje impune.

As idosas Maria Martín e Ascensión Mendieta perseveraram na busca dos ossos de mãe e pai, respectivamente, e são motivo de emoção no filme.

O silêncio dos outros quer destacar as não tão sutis diferenças que existem entre esquecimento, perdão e justiça. O perdão é possível, o esquecimento não. E a necessidade de justiça não é anulada pelo perdão.

Crimes contra a Humanidade não prescrevem, assim como o desaparecimento do cadáver de um ente querido não cessa de doer nos que ficam. É como nos mostrou, aqui no Brasil, Memória para Uso Diário, de Beth Formaggini.

Estima-se que na Espanha ainda haja cerca de 100 mil mortos pelo franquismo em fossas coletivas espalhadas pelo país. O filme de Almuneda Carracedo e Robert Bahar se associa aos talvez poucos que ainda clamam por exumar toda a verdade.

Registre-se que também em 2018 apareceu outro documentário espanhol sobre o tema, La Causa Contra Franco ¿el Núremberg español?, de Lucía Palacios e Dietmar Post.

A nefasta cultura da conciliação

Léa Maria Aarão Reis

Neste momento em que aumenta a pressão, por parte das forças políticas progressistas da Espanha e de boa parte da população do país, para exumar o cadáver de Franco e demolir o ultrajante monumento erguido em homenagem a ele, em Vale de los Caídos, e retirando seus restos de lá - justamente o local onde estão enterrados os cadáveres de milhares de espanhóis assassinados pelo seu regime -, esta é a hora precisa da estreia do documentário O silêncio dos outros (El silencio de otros), no Brasil e na Europa.

Premiado há pouco no Festival de Cinema de Berlim com o Premio da Paz e com o Premio do Público, na Mostra Panorama, o longa-metragem de Almudena Carracedo e Robert Bahar tem como produtores o cineasta Pedro Almodóvar e seu irmão mais novo, Agustin Almodóvar.

O Silêncio dos Outros é o segundo longa-metragem da dupla e foi realizado durante os últimos seis anos. A meticulosidade, o cuidado e o respeito com que os diretores fizeram esse documentário estão presentes em todo o transcurso que traz à luz o doloroso passado vivido durante a ditadura do general Franco (1939/1975) e se prolonga até hoje.

É um filme necessário. Serve como prevenção contra o fascismo e, tão importante quanto, serve também como um alerta contra o esquecimento, resultado da chamada ‘’cultura da conciliação’’ que os brasileiros conhecem tão bem. Dos argumentos falaciosos como ‘’passou muito tempo...’ e ‘’vamos virar a página.’’

É um filme realizado com o objetivo de fazer com que os fatos criminosos da época não se repitam.

O documentário vai de 1936, o golpe militar, com preciosas imagens históricas em preto/branco, inclusive com Franco recebendo e conversando amistosamente com chefes de estado: Eisenhower e Nixon, Kurt Waldenheim, secretário da ONU, núncios apostólicos e até o general de Gaulle.

Passa pela morte do ditador, em 75, e entra na era da investigação dos crimes dos fascistas - 400 mil civis mortos durante o período franquista.

Mostra também a perseverança admirável de um grupo de 149 mulheres e homens, na sua maioria torturados quando jovens, que dedicam suas vidas a localizar covas coletivas onde parentes foram arremessados, ao serem assassinados; muitas delas em terrenos ao longo de modernas auto-estradas que hoje cruzam o país.

Mostra como essas pessoas conseguiram autorização judicial para exumar os restos mortais desses familiares após denunciarem, também na justiça, torturadores ainda vivos, impunes, que moram, como no caso de Billy, o menino, na mesma rua de Madri, distante apenas a poucos quarteirões de um dos seus torturados. ‘’Ele é um intocável,’’ observa o advogado de Direitos Humanos José M. Galante.

Hoje, mil corpos já foram exumados. Cem mil outros aguardam exumação.

O silêncio dos outros mostra em detalhes como o grupo desses homens e mulheres iniciou ações na justiça argentina invocando crimes contra a humanidade, imprescritíveis, cometidos pelos torturadores franquistas. Os sequestros de centenas de crianças arrancadas de suas famílias em nome da eugenia e levadas por agentes do governo para serem reeducadas e por apresentarem ‘’genes vermelhos’.

O documentário segue a juíza argentina Maria Servini a Buenos Aires e a ação na esfera de jurisdição universal. Homóloga do juiz Baltazar Garzón, ela diz: ‘’A lei da anistia espanhola impediu os juízes espanhóis de investigarem. Mas os crimes contra a humanidade têm estatuto de não prescrição. Nenhuma anistia pode ocultá-los ou evitar sua investigação.’’

São registrados no filme o caso Pinochet e a atuação de Garzón; a resistência do ex-Primeiro Ministro José Maria Aznar em reabrir e discutir o assunto; a pressão da Espanha, em 2013, através de sua embaixada em Buenos Aires, para estancar o julgamento.

O filme discute o Pacto do Esquecimento espanhol em tudo muito semelhante à Lei da Anistia brasileira. Mostra a exumação da memória se contrapondo ao esquecimento consentido e os malefícios de uma anistia de todos para todos que traz no seu bojo a cumplicidade com os crimes de agentes de ditaduras e resultam em democracias frágeis – como é o caso do Brasil.

Em uma das entrevistas feitas nas ruas da Madri de hoje, o doc mostra jovens comentando: ‘’Nossos pais não nos contaram o que se passou, e assim não poderemos contar para nossos filhos.’’

Já aqui no Brasil, observa o professor americano brasilianista James Green em recente palestra numa reunião do Ministério Público Federal, em São Paulo, sobre Justiça de Transição: “A maioria da esquerda decidiu virar a página e seguir em frente. ’’

A luta contra o Pacto do Esquecimento, no entanto, serviu como modelo para a Guatemala, Ruanda, Camboja, Argentina, Chile, Peru e Uruguai, que derrubaram suas respectivas leis de anistia.  Na Espanha, a luta continua até hoje. As extradições solicitadas pela juíza argentina Servini ainda se encontram pendentes.

Mas enquanto a justiça não se faz plenamente, ‘’esquecer só gera ódio’’, lembra um dos militantes da Associação de Pres@s del Franquismo.

É o que estamos vendo acontecer atualmente no Brasil. 

Trailer:



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