Economia Política

GameStop: o capitalismo de cassino não pode conduzir a recuperação da COVID

É hora de dar o nome adequado à especulação que impulsionou a alta no preço das ações da GameStop: jogo de azar socialmente inútil que faz mais mal do que bem

04/02/2021 13:52

A alta das ações da GameStop está sendo retratada como 'Davi versus Golias', mas a realidade é menos romântica. Foto por Paul Weaver / SIPA USA / PA Images

Créditos da foto: A alta das ações da GameStop está sendo retratada como 'Davi versus Golias', mas a realidade é menos romântica. Foto por Paul Weaver / SIPA USA / PA Images

 

Depois de quase um ano vivendo com COVID-19, os aspectos de saúde pública da doença são, agora, bem compreendidos. Mas o impacto econômico da crise continua a confundir.

Por um lado, a pandemia provocou a recessão mais severa de que se tem memória: a renda nacional entrou em colapso, o desemprego está aumentando e muitas famílias e empresas estão lutando para sobreviver.

Mas, por outro lado, os mercados de ações estão em alta, os preços dos imóveis estão em alta e os ricos parecem cada vez mais ricos. Como se pode conciliar esses fatos?

O frenesi em torno do problemático varejista de videogames nos Estados Unidos, a GameStop, fornece um útil estudo de caso. Depois de anos lutando para acompanhar a concorrência online, muitos analistas esperavam que a COVID-19 fosse o último prego no caixão do varejista com lojas físicas nas ruas. Percenbendo uma vítima vulnerável, os fundos de investimento [hedge funds] se precipitaram e fizeram grandes apostas de que o preço das ações da GameStop cairia (operação conhecida na indústria financeira como 'venda a descoberto').

Em outro universo, a história teria terminado aqui: A GameStop teria continuado a declinar, os fundos teriam lucrado e quase ninguém teria notado.

Mas as coisas não aconteceram assim. Em vez disso, o preço das ações disparou de US$ 20, em 11 de janeiro, para US$ 483 na semana passada, representando uma das maiores altas do mercado de ações dos tempos modernos. A narrativa oficial é que um exército de investidores amadores se organizou no fórum online Reddit para comprar ações da GameStop e fazer o preço subir. Ao fazer isso, eles conseguiram infligir uma dor financeira significativa aos fundos que haviam apostado contra a empresa, ao mesmo tempo em que obtinham um bom lucro.

Os comentaristas foram rápidos em saudar a história da GameStop como um triunfo dos investidores cidadãos comuns sobre os principais especuladores de Wall Street. Alexis Ohanian, o cofundador do Reddit, descreveu o evento como uma "revolução de baixo para cima" que transferiu irreversivelmente o poder para pequenos investidores.

Embora essa narrativa de 'Davi contra Golias', sem dúvida, tenha capturado a imaginação do mundo, a realidade é menos romântica. Agora é amplamente aceito que operadores profissionais, com bom volume de recursos, desempenharam um papel importante na alta dos preços das ações, passando-se por membros comuns do público no fórum Reddit. Alguns foram além e sugeriram que grande parte da volatilidade do preço das ações foi impulsionada pela “guerra mutuamente destrutiva entre os fundos” - fundos de hedge secretamente fazendo grandes apostas uns contra os outros usando o frenesi da mídia do Reddit como uma conveniente cortina de fumaça.

De todo modo, o fato de os maiores acionistas da GameStop serem algumas das maiores firmas de investimento do mundo, como BlackRock e Fidelity, deveria despejar água fria sobre a ideia de que esta era uma batalha entre a grande finança e pequenos destemidos investidores. Seriam esses gigantes de Wall Street - não os usuários do Reddit - aqueles que mais ganhariam com o boom.

Agora é amplamente aceito que operadores profissionais, com bom volume de recursos, desempenharam um papel importante na alta dos preços das ações, passando-se por membros comuns do público no fórum Reddit

Independentemente de quem foram os principais instigadores, é verdade que muitas pessoas comuns aderiram ao movimento na esperança de ganhar um dinheiro rápido. Este fenômeno não é novo: durante o ano passado, houve um aumento nos chamados 'investimentos de varejo' - investimentos de pequena escala feitos por indivíduos comuns em vez de investidores institucionais profissionais. Muitos analistas atribuíram isso ao aumento de aplicativos amigáveis ao usuário, como o Robinhood, que tornou o investimento nos mercados financeiros muito mais barato, fácil e acessível para pessoas com pouca experiência em investimentos.

Mas outra razão para o aumento dos investimentos no varejo é a própria pandemia de COVID-19. A introdução de bloqueios e restrições sociais interrompeu a circulação de dinheiro na economia, criando grupos distintos de vencedores e perdedores. Por um lado, as famílias que conseguiram manter suas rendas durante a pandemia descobriram que acumularam economias significativas a cada mês, pois seus gastos com entretenimento, lazer e viagens diminuíram drasticamente. O outro lado disso é que as empresas que operam nesses setores viram suas receitas entrarem em colapso e os trabalhadores foram demitidos ou colocados em esquemas de licença. O dinheiro que normalmente seria gasto em cafés, bares e restaurantes está se acumulando nas contas bancárias da classe média.

O economista-chefe do Banco da Inglaterra, Andy Haldane, estimou recentemente que as famílias do Reino Unido economizaram, no ano passado, £ 100 bilhões a mais do que o usual. Para colocar isso em um contexto, isso é mais do que o dobro do orçamento anual do Reino Unido para militares e defesa. Uma tendência semelhante foi observada nos EUA e em outros lugares.

Portanto, embora a pandemia tenha imposto severas dificuldades econômicas a alguns, outros enfrentaram um dilema muito diferente: o que fazer com um saldo bancário recém-inflado? A maneira como as pessoas gastam ou investem essas economias terá um impacto material na forma da recuperação econômica. Para alguns, a resposta foi comprar uma casa maior, enquanto para outros foi começar a se aventurar no mercado de ações.

De acordo com a teoria econômica convencional, isso não deve ser um problema. A função básica dos mercados financeiros é tirar dinheiro dos poupadores e emprestá-lo a empresas que irão investi-lo produtivamente. Mas, como ilustra o frenesi da GameStop, os mercados financeiros modernos não têm quase nada a ver com o financiamento de novos investimentos produtivos, e tudo a ver com a especulação sobre o preço dos ativos existentes.

Nas últimas semanas, bilhões de dólares foram 'investidos' em ações da GameStop, mas nem um único centavo desse dinheiro foi para a empresa. Em vez disso, os investidores têm comprado ações já existentes (ou 'opções', que dão ao titular o direito de comprar a ação subjacente a um preço pré-definido em um determinado momento no futuro) de outros investidores na esperança de que eles sejam capazes de vendê-las para outra pessoa por um preço mais alto. Na verdade, eles têm jogado um jogo gigantesco de "dança das cadeiras" - comprando e vendendo uns dos outros a preços cada vez mais altos até que a música pare, momento em que tudo se reverte.

Longe de “democratizar as finanças para todos”, o frenesi da GameStop tem as características marcantes de um esquema Ponzi clássico de 'bombear recursos e cair fora'

No início de 2021, o preço das ações da GameStop era de US$ 17, o que fazia a empresa valer pouco mais de US$ 1 bilhão. No auge do frenesi de operações na semana passada, o preço das ações disparou para US$ 483, o que significa que a empresa foi avaliada em quase US$ 35 bilhões - um aumento de quase 3.000%. No momento em que este artigo foi escrito, o preço das ações tinha caído novamente para US$ 90, deixando a empresa avaliada em cerca de £ 6 bilhões. Ao longo desse período, a própria empresa - suas operações, equipe e ativos - permaneceu a mesma.

Longe de “democratizar as finanças para todos”, o frenesi da GameStop tem as características marcantes de um esquema Ponzi clássico de 'bombear recursos e cair fora'. Alguns dos responsáveis podem muito bem ter lucrado bastante. Mas, em última análise, é um jogo de soma zero: para cada vencedor, há um perdedor igual e oposto.

Em 1936, o renomado economista John Maynard Keynes escreveu que “quando o desenvolvimento do capital de um país se torna um subproduto das atividades de um cassino, é provável que o trabalho seja mal executado”. Keynes estava escrevendo sobre os mercados de ações, como a Bolsa de Valores de Londres, mas o mesmo pode ser dito sobre novas plataformas como a Robinhood. Eles são veículos para especulação, não investimento, e seu propósito final é a redistribuição de riqueza, não a criação de riqueza.

As economias familiares acumuladas durante a pandemia COVID-19 poderiam - se mobilizadas de forma eficaz - desempenhar um papel importante na condução da recuperação econômica. Do combate às alterações climáticas à melhoria das ligações de transportes públicos, não faltam necessidades de investimento.

Mas combinar essas economias com oportunidades de investimento socialmente úteis requer um sistema financeiro que coloque os interesses de longo prazo da sociedade antes dos interesses de curto prazo dos especuladores. Isso não pode ser alcançado da noite para o dia. É hora de dar o nome adequado à especulação que impulsionou o aumento no preço das ações da GameStop: jogo de azar socialmente inútil que faz mais mal do que bem.

*Publicado originalmente em openDemocracy | Traduzido por César Locatelli

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