Economia Política

Helicóptero da Vale rega liquidez sobre lama e provoca consumismo

 

03/10/2019 14:52

(Tuane Fernandez/Folhapress)

Créditos da foto: (Tuane Fernandez/Folhapress)

 
Para explicar a crítica monetarista à política monetária de dinheiro farto e barato, o economista diz: os salários reais serão mais baixos, expressos em termos da média de preços futuros, quando utilizados. Para isso, usa a narrativa de uma ilha no arquipélago.

É como se tudo acontecesse em uma economia formada por várias ilhas sem telecomunicações entre elas, cada qual com uma firma e um segmento do mercado de trabalho. Todo dia os trabalhadores de uma mesma ilha determinam, através de um leiloeiro, o salário nominal e o nível de emprego. Se um trabalhador deseja saber o nível de salário em uma ilha vizinha, para conhecer seu salário relativo, ele deve desocupar-se e perder algum tempo “remando” até ela para se informar. Observe a quebra de uma premissa neoclássica: as informações não circulam perfeitamente.

Suponha o governo keynesiano desse arquipélago resolver ampliar a demanda agregada, através de uma política monetária expansionista ou “frouxa” e/ou de uma política fiscal “mal financiada”, ou seja, via emissão monetária. É como um helicóptero do Banco Central sobrevoasse o arquipélago, lançando sobre ele “papéis pintados” pela Casa da Moeda. Caso o excesso de papel-moeda caísse sobre todas as ilhas, provocariam aumentos de preços e salários em cada qual.

Porém, os trabalhadores de cada ilha não perceberiam os salários em todo o arquipélago (a economia global) terem se elevado. Com o pressuposto de maior salário nominal, estariam dispostos a ampliar a oferta de emprego, abandonando a preferência pelo lazer, ou seja, “balançar-se em rede sob palmeiras de uma paradisíaca ilha da fantasia”.

Somente um tempo após, quando recebessem os maiores salários nominais e remassem para outras ilhas, nas horas vagas, seja para adquirir os outros bens de sua cesta básica de consumo, seja para se informar sobre os salários relativos face aos das demais ilhas, eles teriam conhecimento do nível geral de preços. Constatariam, então, nem os salários reais esperados terem sido os efetivados nem seus salários estarem relativamente mais elevados – e eles mais ricos em relação aos seus colegas. Desapontados, cessaria a ilusão monetária: eles reduziriam a oferta de emprego e, assim, o nível de produto também cairia. Esta é a narrativa metafórica monetarista.

É inspirada na resposta de Milton Friedman quando lhe perguntaram: “como é a entrada de dinheiro na economia?” Ora, respondeu ele, “o helicóptero do Banco Central o remete do céu”. Aqui-e-agora, a Vale após ter remetido lama sobre Brumadinho, envia seu “helicóptero” à Comunidade. É uma solução de Mercado negociada com o Estado.

Esse estudo de caso dramático traz conhecimentos afins à Economia Comportamental. Segundo Góes (Valor, 30/09/2019), em abril de 2019, a Vale fechou termo de compromisso com a Defensoria Pública de Minas Gerais para fazer o pagamento de indenizações extrajudiciais. Foram firmados ate%u001 agora 514 acordos individuais ou por grupo familiar. Totalizam mais de mil pessoas. Dentro do acordo, foi criado o Programa de Assistência Integral aos Atingidos, formado por várias frentes: compra de moradia, retomada das atividades comercial e agropecuária, e Educação Financeira.

A Educação Financeira e%u001 considerada o destaque do programa pela Vale, pois busca conscientizar as famílias pobres recebedoras de dinheiro em quantia com a qual nunca lidou na vida. O “aconselhamento financeiro” enfatiza importância de se planejar o uso do dinheiro para servir à “normalização” da vida das pessoas após a tragédia familiar. A adesão das famílias ao programa e%u001 voluntária. Quando o acordo e%u001 homologado pelo juiz, a Vale paga o valor de forma integral e, se a família concordar, a empresa presta a consultoria financeira por dois anos.

O apoio financeiro da Vale aos moradores de Brumadinho e região se da%u001 de diversas formas. Uma delas consistiu em doações, feitas logo nas primeiras semanas depois da tragédia provocado pelo rompimento da barragem de dejetos da empresa mineradora. Quem perdeu um familiar recebeu R$ 100 mil, quem teve a casa afetada embolsou R$ 50 mil, e quem teve sua atividade econômica prejudicada teve direito a R$ 15 mil. Outra ação, ainda em andamento, prevê%u002 a ajuda emergencial para mais de cem mil pessoas, válida por 12 meses a contar de janeiro de 2020. Ha%u001 ainda o pagamento de indenizações individuais ou por grupo familiar relacionadas a danos morais, materiais ou por lucro cessante. Essas indenizações podem envolver cifras milionárias.

O boom de consumo registrado em Brumadinho se vincula, sobretudo, a%u000 segunda parte dessa ajuda. Em março de 2019, a mineradora fechou com autoridades Termo de Acordo Preliminar (TAP), incluindo 106 mil beneficiários ao longo da bacia do rio Paraopeba. Ela envolve Brumadinho e outros municípios da região. O acordo prevê%u002 pagamento de um salário mínimo (R$ 998) por mês para todos os adultos: do mendigo ao empresário, do lixeiro a%u000 diretora de escola, todos têm direito. Adolescentes recebem meio salário mínimo e crianças, um quarto. O valor médio por família e%u001 de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil. O montante será%u001 pago ate%u001 dezembro de 2019 e não envolve pessoas diretamente afetadas pela tragédia. Nove meses após, 249 corpos foram encontrados, mas 21 continuam desaparecidos sob a lama.

Esse “laboratório” social também permite visualizar qual seria o efeito de um “salário mínimo universal” com pretensão de fornecer uma renda básica para todos os cidadãos. Um programa de renda mínima universal foi adotado pela Finlândia. Não levou os desempregados atendidos a trabalharem mais para complementarem suas rendas, como era esperado, mas teve impacto positivo no bem-estar dessas pessoas.

Em janeiro de 2019, o programa encerrou o período de dois anos de testes, beneficiando dois mil finlandeses, escolhidos aleatoriamente entre os desempregados do país. Eles se tornaram os primeiros europeus a receber um pagamento mensal regular do Estado, sem o risco de ter o benefício cortado, caso conseguissem emprego. A Finlândia está experimentando alternativas ao sistema de Previdência atualmente usado no país.

Souza (Valor, 30/09/2019) publicou alguns resultados do TAP: “lojas de celulares, de roupas, de sapatos, de móveis, de utensílios domésticos, salões de beleza, supermercados multiplicaram suas vendas. Moradores contam haver muito mais carros circulando e ate%u001 cirurgias de implante de silicone terem virado um hit, pagas com dinheiro da mineradora. Brumadinho se viu, de repente, mergulhada em uma inédita febre de consumo”.

Para o comércio, a injeção de renda extra nas famílias fez de Brumadinho uma ilha da fantasia, devido às compras. “Pessoas antes sem nenhuma condição financeira passaram a comprar muito. Loja recebia antes uma carreta por semana com produtos. No pico das vendas, começarão a vir três carretas por semana. Antes do desastre, o faturamento da unidade da EletroZema da cidade era de cerca de R$ 250 mil, mas, nos primeiros meses após o dinheiro da Vale cair nas contas correntes dos moradores, o faturamento mensal saltou para R$ 1 milhão, segundo funcionários. Hoje caiu, mas ainda esta%u001 superior ao anterior: cerca de R$ 450 mil. A rede EletroZema pertence a%u000 família do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do Partido Novo. A empresa tem forte presença no interior do Estado e uma clientela formada por consumidores de baixa renda”.

Com mais dinheiro circulando em Brumadinho, a receita com impostos da Prefeitura aumentou. O salto se deve também a%u000 chegada de várias empresas contratadas pela Vale para obras de reconstrução na região.

Aumentou também o tamanho da população. Dados compilados pela prefeitura, com base em registros nos postos de saúde, estimam: em dezembro de 2018 havia 39,5 mil moradores, em junho de 2019, tinha aumentado 10% para 43,5 mil.

O dinheiro pago pela Vale na cidade provocou ainda outro efeito: o abandono do trabalho. Diretores da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e funcionários da prefeitura testemunham: vários moradores antes com empregos de baixos salários optaram por viver apenas da ajuda da Vale. Pedreiros, diaristas, pessoal de cozinha, caseiros, jardineiros sumiram do mercado de trabalho. Quem continua passa a cobrar mais pelos serviços.

Essa situação criou uma ilusão de conforto em Brumadinho, mas tem prazo para acabar. Pelo acordo firmado, a Vale deposita em dezembro a última parcela dos pagamentos aos moradores. A mistura da dor do luto com o dinheiro “caído do céu” tem provocado um estado de confusão psicológica e emocional na cidade. “As pessoas ficam rindo da nossa cara, fazem festa, churrasco em cima da nossa dor, ela não acaba”, disse um enlutado. Parentes diretos de mortos e desaparecidos na barragem da Mina do Córrego do Feijão têm direito a indenizações, a cada um, até R$ 700 mil.

A cidade tinha ate%u001 a tragédia sua economia e seus empregos baseados na mineração, sobretudo, da Vale. Agora, nem o comércio, nem a prefeitura, ninguém sabe qual será%u001 seu novo rumo. A Vale parou de operar. Recolhera%u001 os royalties mensais de R$ 3,3 milhões só%u001 ate%u001 2020. E a bolha de consumo tende a desinflar a partir de janeiro.

Educação Financeira com base em Finanças Comportamentais teria alertado para o fenômeno chamado de “miopia”. Os trabalhadores-consumistas não conseguem enxergar o problema criado para seu ainda distante futuro de vida inativa. Na fase de acumulação de recursos, planejada para sua aposentadoria, mesmo trocando-a por fase de consumo, acham ser capazes de ter futuro confortável. No entanto, não sabem sequer responder quanto vão precisar aplicar, periodicamente, para alcançar esse conforto esperado. Como confiam apenas no “Deus dará”, em geral, aplicam abaixo do necessitado.

Os recebimentos concentrados em pagamento único, como bônus anuais, em geral são aplicados, porém, maiores rendimentos mensais tendem só a aumentar o consumo do indivíduo. Por exemplo, se a Vale tivesse pago R$ 12.000,00 a cada um, de uma só vez, provavelmente o dinheiro seria aplicado em reservas financeiras para o futuro incerto. Porém, ao receber R$ 1.000,00 por mês durante um ano, o carente de Educação Financeira aumenta seu consumo mensal. A renda mensal provisória não serve para seu conforto mais perene ou mesmo sua aposentadoria. Quem não a souber planejar, reduzirá drasticamente o padrão de vida.

Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com 



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