Economia Política

Idéias para melhorar o trânsito na Grande São Paulo

24/02/2007 00:00

SÃO PAULO – A série de matérias sobre os transportes na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) se encerra com um breve recorte de algumas das idéias centrais apresentadas pelos entrevistados visando à melhora do trânsito e da qualidade de vida na região. Da valorização do transporte coletivo à adoção da chamada “tarifa zero”, as idéias são muitas e diversas. Confira abaixo.

Renato Viegas, coordenador de planejamento e gestão da secretaria de Transportes Metropolitanos do governo do Estado
“Não se pode fazer uma coisa [diminuir o espaço dedicado aos carros] sem ter a outra [um transporte público de qualidade]. Não é o caso de coibir, de restringir. Se tiver uma melhor oferta de transporte coletivo, a escolha vai ser dada pela opção de menor custo. Hoje, o menor custo, em algumas situações, é o transporte particular. Ao melhorar conforto, tempo, custo, vai-se ampliando a demanda do coletivo, a utilização. Na hora que houver essa melhora, vai haver mudanças. Ao mesmo tempo, existe a necessidade de se administrar a demanda caso a caso, região a região, avenida a avenida e assim por diante, que deve ser avaliada de acordo com todos os interesses, beneficiados e prejudicados”.

Frederico Bussinger, secretário municipal de Transportes
“O Metrô jamais resolverá todos os problemas. Concordo que a prioridade é o sistema de alta capacidade, mas, por mais que amplie a rede sobre trilhos, sempre haverá a necessidade de uma rede sobre pneus funcionando bem. A prioridade é o Metrô, mas não a exclusividade. Sempre, quem usa transporte coletivo, precisará usar algum outro modo para chegar a ele: toda grande cidade precisa de um sistema integrado e equilibrado, com tudo funcionando bem. Além disso, a requalificação da CPTM [Companhia de Trens Metropolitanos] é prioridade a meu ver. E exigirá investimentos muito menores que os exigidos pelo Metrô. É um privilégio São Paulo possuir a rede sobre trilhos que tem, mas é preciso requalificá-la. Se toda a CPTM for igual à linha que margeia o rio Pinheiros, será uma maravilha. E mesmo com o Metrô e com a ferrovia, o ônibus seguirá necessário”.

Monique Sélix, do Movimento Passe Livre
“Os transportes alternativos, como as bicicletas, precisam ser considerados, as cidades precisam ser planejadas contemplando isso. São Paulo é um caso à parte, no qual o transporte coletivo precisa ser especialmente valorizado, o que melhoraria muito a situação do trânsito. Com base em propostas do ex-secretário de Transportes da capital na gestão Erundina [1988-1992], Lúcio Gregori, temos discutido o projeto ‘Tarifa Zero’, em que todo o transporte oferecido pela Prefeitura da capital seria gratuito. Temos dialogado constantemente com ele. Durante a gestão do Gregori, o transporte era controlado diretamente pela prefeitura. Estudando melhor o ‘Tarifa Zero’ e adequando-o aos dias de hoje, acreditamos que poderia melhorar muito os transportes no município. O programa se basearia em uma reforma na arrecadação do IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano] da cidade, que se destinaria a gerar mais recursos para melhorar a Educação e o Transporte na capital. A proposta inclusive foi aplicada como experiência, por dois anos, no bairro de Cidade Tiradentes”.

Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) na pós-graduação em Economia
“É preciso se adensar a rede do Metrô. Investir em novos corredores de ônibus. Retirar os caminhões das principais vias da capital... As pessoas sabem o que fazer, mas a dinâmica econômica nao parece permitir. A Emplasa [Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano, do governo estadual] foi esvaziada, o planejamento se foi. Isso é questao pública, não adianta querer que cada um resolva. Por outro lado, a invasão do automóvel gerou problemas no mundo todo, e o petróleo está virando uma commodity cara... O aquecimento global está se configurando como uma questão central e as grandes empresas petrolíferas contratam pesquisadores para atacar e caluniar cientistas que estão avaliando o problema. Na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento, Unctad, realizada recentemente em Lyon [FRA] pegamos ônibus junto a todos os ministros dos países envolvidos. Lá, é uma coisa tida como normal, econômica, rápida, confortável”.

Thiago Benicchio, jornalista, responsável pelo blog apocalipse motorizado
“O carro ainda não foi questionado, com todos seus privilégios de cultura, de políticas públicas, de financiamento. Quem tem não abre mão, e quem não tem quer comprar. Por outro lado, a cidade está cada vez mais parada e as pessoas estão vendo que há algo errado. Temos em São Paulo a ‘Bicicletada’, existem vários passeios e encontros ciclísticos, mas não existe nenhuma associação representativa que encare e defenda a bicicleta como meio de transporte. O deslocamento individual motorizado é insustentável, mas essa situação é anestesiada por celulares, ar-condicionado, CDs etc. Se houver melhores condições e estímulos, as bicicletas vão crescer mais, isso já é uma realidade. A meu ver, contudo, o transporte público bom, eficiente, rápido, barato e democrático, é realmente a matriz de tudo. São poucas as pessoas que vão pegar a bicicleta para fazer todas suas atividades, não se deve impor nem buscar isso. Os deslocamentos mais curtos, contudo, têm na bicicleta uma ótima opção. Já é muito interessante e importante para a cidade se mais pessoas adotarem esse expediente. Bogotá, na Colômbia, é uma cidade de um país pobre e que fez muito pelo transporte público e pelas bicicletas nos últimos tempos. E que onseguiu reverter o processo do carro clamando por mais espaço”.

Marco Aurélio Lagonegro, arquiteto e urbanista, doutor pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo)
“O Metrô tem sido submetido a um uso eleitoreiro crescente, processo que traz riscos para a população. É bastante complicado se fazer a expansão na configuração da cidade hoje, mas o Metrô é realmente um fenômeno quando concluído. Ao se ver que é a solução praticamente unânime, torna-se um problema e objetivo político, alvo de cobiças, contradições e projetos distintos, melhores ou piores. De todo modo, enxergar só pelo Metrô, só pelo corredor, só pelo carro, pela bicicleta, não resolve. Tem que pensar conjugado”.

Laerte Mathias de Oliveira, vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo e engenheiro do Metrô
“Somos favoráveis a expandir o Metrô o quanto mais rápido for possível, mas sem abrir mão da segurança. O Metrô deve fiscalizar passo a passo, e sem a modalidade de construção em turn key [na qual a empresa contratada recebe um valor fixo pela obra e praticamente só responde ao poder público em sua entrega, buscando concluir a obra no menor prazo e custos possíveis]. Por outro lado, a expansão do Metrô é muito cara e sem o governo federal será difícil fechar as contas e projetos. Por ser uma área essencial para o desenvolvimento do País, o Estado é quem deve cuidar do transporte”.

Nabil Bonduki, professor da FAU-USP e diretor da ONG Casa da Cidade, relator do Plano Diretor de São Paulo, elaborado durante a gestão de Marta Suplicy
“A médio prazo, é sim possível alterar a atual situação, e promover uma ocupação urbana no sentido desejado [racional e democratizante]. Mas precisa de medidas concretas. Isso significa, por exemplo, fazer os empreendimentos de habitação nas áreas de urbanização consolidadas. No mapa da cidade, os empregos estão muito mal distribuídos. Em alguns aspectos, tal melhoria na ocupação é interessante para todos os setores, mas hoje se tem uma elitização muito grande da cidade, que pode trazer dificuldades”.

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