Economia Política

Martín Guzmán: cinco princípios para a pandemia

Por se tratar de uma crise global, a pandemia do COVID-19 exige uma resposta global coordenada, tanto para conter a propagação da doença, quanto para salvaguardar a economia. O desafio pode ser sem precedentes, mas os governos podem e devem adotar certas diretrizes

29/03/2020 12:33

(Oliver Weiken/picture alliance via Getty Images)

Créditos da foto: (Oliver Weiken/picture alliance via Getty Images)

 
BUENOS AIRES - A pandemia do COVID-19 levou o mundo a uma crise de saúde e econômica de magnitude que poucos poderiam ter previsto, mas que todos devem enfrentar agora - juntos. A menos que todos os países aprofundem a coordenação e a cooperação globais ao máximo possível, a estabilidade social de todo o planeta pode estar em risco.

No plano econômico, muitos economistas e formuladores de políticas parecem ter se convencido de que políticas para aumentar a demanda efetiva serão suficientes para mitigar a crise. Na verdade, o problema é muito mais complicado e não será resolvido com as medidas padrão de estímulo.

Como a redução de interações sociais é crucial para mitigar a disseminação do coronavírus, a maioria das pessoas não pode ir trabalhar (a menos que estejam em setores essenciais). E, como as pessoas não estão trabalhando, elas terão menos (ou nenhuma) renda para gastar. Nessas circunstâncias, o medo de que a atividade econômica continue a despencar é justificado, mas esse resultado é inevitável a curto prazo.

Mas o fato de nossa situação ser sem precedentes, não significa que nos faltem princípios que possam e devam guiar nossas ações à medida que avançamos. Para parar a pandemia e resgatar as economias do mundo, devemos respeitar cinco princípios em particular.

Primeiro, proteger a saúde e a vida humana é e deve continuar sendo a prioridade número um. A saúde é um bem público global. Para salvaguardá-la, devemos reduzir a circulação de pessoas e bens em nossas sociedades.

Como já estamos vendo, esse imperativo em toda a sociedade inevitavelmente reduzirá a atividade econômica. Porém, quanto mais cedo a implementarmos [a redução de circulação de pessoas] por inteiro, mais cedo seremos capazes de restaurar a economia. Nada pode acontecer até que o COVID-19 seja derrotado. Enquanto isso, também devemos ser ousados ao pensar em como garantir o fornecimento de bens e serviços essenciais.

Além disso, devemos ajudar os prestadores de serviços de saúde que estão tentando compensar a escassez extrema de equipamentos, que salvam vidas, para serem usados em pacientes e equipamentos de proteção individual para a equipe médica. Respiradores, máquinas de ventilação, oxigênio e até máscaras faciais simples estão criticamente escassas em muitos lugares. Devemos agir decisivamente para aliviar essas carências, para que não levem a uma perda mais ampla de vidas e de estabilidade social.

O segundo princípio é proteger aqueles que são ou podem se tornar vulneráveis à doença, ao congelamento econômico ou a ambos. Na ausência de intervenções políticas, as mudanças na composição da demanda estão forçando muitas famílias e indivíduos a situações desesperadoras.

De fato, dados mensais divulgados recentemente para os Estados Unidos mostram que o número de americanos que solicitam seguro-desemprego disparou nas últimas duas semanas. Em países com uma grande parcela da população ativa empregada no setor informal e, como tal, não cobertos pelo seguro-desemprego - como é o caso da Argentina -, a necessidade de proteção é ainda maior.

Atender às necessidades dos mais vulneráveis requer uma estratégia tripla. Primeiro, os governos devem prover transferências de renda suficientemente grandes para preservar a renda de todos os lares em dificuldades. Segundo, eles devem estender o seguro-desemprego tradicional para que os trabalhadores demitidos não caiam em estado de penúria antes que a pandemia termine. E, terceiro, os governos devem proteger o emprego existente e subsidiar aqueles em setores que são criticamente afetados pela crise, mas que continuarão valiosos para a economia quando a crise acabar. A Argentina está adotando essas medidas.

O terceiro princípio é preservar o capital organizacional (conhecimento) incorporado nas empresas em funcionamento. Isso não é o mesmo que proteger lucros ou acionistas. A crise exige políticas voltadas especificamente para preservar as capacidades produtivas positivas e o know-how nas empresas, pequenas e grandes.

A observação desse princípio será fundamental para evitar um aprofundamento adicional da desigualdade, garantindo a preservação de sistemas de responsabilização que são centrais para uma economia de mercado e promovendo uma recuperação mais ampla da crise.

Quarto, a pesquisa realizada para enfrentar a crise do COVID-19 deve ser tratada como um bem público global. O trabalho científico em busca de uma vacina e outros tratamentos será crítico para controlar a pandemia e restaurar a atividade econômica. Mas essas terapias devem ser disponibilizadas globalmente a preços acessíveis. A acumulação de conhecimentos valiosos, quando inúmeras vidas estão em jogo, é um crime moral imperdoável como se pode imaginar. Também é contraproducente, uma vez que estamos todos conectados através da economia global.

O princípio final é pensar com ousadia. Para fornecer liquidez em nível global, precisamos usar todo o conjunto de ferramentas de política econômica - e experimentar novas ferramentas que possam ser adicionadas a ele. Por exemplo, os swaps cambiais bilaterais entre bancos centrais nas economias em desenvolvimento e avançadas devem ser estendidos e os Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional devem ser ampliados para enfrentar o desafio em questão - conforme proposto pela diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, no cúpula de líderes do G20 nesta semana.

Uma emergência global requer políticas globais decisivas. A Argentina está preparada para fazer sua parte para ajudar o mundo a atravessar esses tempos difíceis. Todos os países e instituições internacionais devem se unir e agir resolutamente.

Este comentário foi adaptado a partir das observações feitas na reunião extraordinária do G20 de ministros das Finanças em 23 de março.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de César Locatelli



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