Economia Política

Mídia trata escândalo da Libor como caso policial

13/08/2012 00:00

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Créditos da foto: Arquivo
São Paulo - Como era de se esperar, a grande mídia brasileira tem se esforçado ao máximo para minimizar o mais recente escândalo envolvendo o sistema financeiro internacional, desta vez o da manipulação da Libor, taxa de juro que é referência das transações globais.

A cobertura de nossa imprensa foi seguida desde abril pela Carta Maior, que produziu um clipping sobre o assunto com base nas páginas econômicas de Folha, Estadão, O Globo e Valor.

Ainda que haja exceções, as protocolares reportagens tratam o caso como mais um episódio policial envolvendo banqueiros. Mas, como apontamos em nossa nova página especial, o caso põe todo o sistema bancário global em xeque.

A Libor, sigla de “London Interbank Offered Rate”, é uma taxa de juro fixada diariamente em Londres a partir de informações sobre transações de grandes bancos. Na prática, servia como referência confiável para pequenos e grandes negócios, inclusive transações entre as próprias instituições financeiras.

A movimentação financeira mundial “regulada” pela Libor e índices dela derivados atingiram 567 trilhões de euros em 2011. Economistas fazem as contas e dizem que uma manipulação de 0,01% nessas taxas implicaria um resultado de 5,67 bilhões de euros para os beneficiários.

Desde 2008, uma análise publicada pelos jornalistas Carrick Mollenkamp e Mark Whitehouse, do The Wall Street Journal, sugeria que grandes instituições informavam que o custo de seus empréstimos era menor do que de fato era.

Assim, seus balanços ficavam mais azuis, o bônus dos executivos mais gordos, e a própria Libor mantinha-se artificialmente baixa, sem refletir a deterioração dos créditos daqueles conglomerados. Quando a crise estourou, foi surpresa para muitos.

Sob investigação de autoridades dos bancos centrais de Estados Unidos e Inglaterra, a primeira instituição a sucumbir foi o britânico Barclays: aceitou pagar uma multa de 360 milhões de euros. Hoje, as investigações atingem diversos grupos, como Bank of America, Citigroup, Crédit Agricole, HSBC, Deutsche Bank e Société Générale.

Enquanto isso, os reguladores britânicos já propõe uma alternativa à Libor nas transações internacionais, cuja metodologia dependeria menos de dados declaratórios das instituições financeiras. Será a solução? Ou é questão de tempo que se descubra uma forma de manipulá-la?

Clipping
Ainda que a manipulação da Libor ponha todo o sistema financeiro global sub judice, nossa mídia pouco se “sensibilizou”. Desde abril, a Carta Maior catalogou 68 reportagens e artigos sobre o assunto publicados pelos quatro principais jornais brasileiros.

Quase a metade deles, 32, saiu no Estadão; Folha e Valor contribuíram com 16 cada; e O Globo, com outros 4. Com seus correspondentes no exterior mobilizados, sobretudo em Londres, o Estadão tem trazido textos sobre todo o processo investigatório. O conjunto da cobertura, porém, pouco questiona o caráter sistêmico do escândalo.

A Folha, com reportagens protocolares marcando sua cobertura, só abandona o tratamento raso com alguns artigos de Clóvis Rossi. Em texto no início de julho, ele destacou um colunista do Financial Times (FT) que comparava as regras (ou a falta delas) do sistema financeiro às de um cassino.

E como controlar esse cassino? O Valor, em artigos reproduzidos de outras publicações, tenta dar respostas à questão. Como com Martin Wolf, colunista do FT, que em “Formas de limpar essa sujeira” pede mais transparência, penas mais pesadas aos banqueiros, menos alavancagem, e separação das atividades de investimento e varejo nos bancos.

Para Wolf, essa estratégia ajudaria a regular um sistema que tende à falcatrua – ele não usa essa palavra, mas diz: “(...) aceitem que haverá mau comportamento, particularmente quando há tanto dinheiro em jogo (...) sejamos realistas: os banqueiros estão nisso por dinheiro e, goste-se ou não, sempre será assim”.

Carta Maior também é realista, e por isso publica um Immanuel Wallerstein que questiona o próprio sistema ao analisar o escândalo da Libor e a existência dos paraísos fiscais: “Então, onde está o escândalo? As duas práticas – manipulação da Libor e transferência de dinheiro para os paraísos fiscais – são absolutamente normais numa economia-mundo capitalista. A finalidade do capitalismo, afinal de contas, é a acumulação de capital – quanto mais, melhor”.

Wallerstein lembra ainda que, em 1992, James Carville, estrategista da campanha do então candidato Bill Clinton à Presidência dos EUA, saiu-se com um dito que ficou famoso: “É a economia, estúpido”. Frente aos novos escândalos, ele diz: “É o sistema, estúpido”. E se é assim, o problema não é de polícia, como pode fazer crer a nossa mídia, mas de política.

* Com Hector Luz e Mailliw Serafim


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