Economia Política

Novos relatórios mostram as falsas promessas econômicas de Trump

 

02/02/2020 15:51

Dois novos relatórios sugerem que, embora o impulso dos cortes de impostos do presidente Trump em 2017 esteja diminuindo, o déficit orçamentário resultante permanecerá por décadas (Samuel Corum/Getty Images)

Créditos da foto: Dois novos relatórios sugerem que, embora o impulso dos cortes de impostos do presidente Trump em 2017 esteja diminuindo, o déficit orçamentário resultante permanecerá por décadas (Samuel Corum/Getty Images)

 
Com o julgamento do impeachment, o coronavírus e as assembleias de Iowa nas manchetes, as frias estatísticas econômicas não estão recebendo muita atenção no momento. Mas dois novos relatórios - os últimos números de produto internos brutos do Departamento de Comércio e um novo conjunto de projeções orçamentárias do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) - não devem passar sem comentários. De fato, as questões que levantam devem ser centrais para as eleições de 2020.

O núcleo da plataforma de Donald Trump é que suas políticas produziram o que ele chama de "A Maior Economia da História Americana!" A verdade é muito diferente. Ao promulgar um enorme corte de impostos, no final de 2017, que beneficiou fortemente as empresas e os ricos, Trump e os republicanos deram um impulso temporário à economia - em 2018, ela cresceu a uma taxa anual de 2,9% - que agora desvaneceu.

No quarto trimestre do ano passado, o PIB - a medida mais ampla de atividade na economia - expandiu-se a uma taxa anual de 2,1%, mostrou o novo relatório do Departamento de Comércio. Tomando 2019 como um todo, PIB cresceu 2,3%. Essas taxas de crescimento não estão nem perto do crescimento de quatro por cento que Trump tinha prometido em 2016. Ao contrário, essas taxas estão em linha com a taxa média de crescimento desde 2000, que é de 2,2%.

E esse resultado tedioso só foi alcançado a um custo tremendo. O governo federal está agora com um enorme déficit orçamentário e acumulando grande volume de novas dívidas, o que onerará os contribuintes nas próximas décadas. Após três anos da Presidência de Trump, de fato, os Estados Unidos estão começando a se assemelhar a um de seus próprios empreendimentos comerciais altamente endividados.

Este ano, conforme o novo relatório do CBO, o déficit será de cerca de um trilhão de dólares. Daqui a dez anos, será de cerca de US$ 1,3 trilhão. Números como esses são tão grandes que são difíceis de entender. A maneira como os economistas os entendem é comparando a quantia em dólares com o tamanho do PIB, assim como uma família costuma comparar o que paga pelo financiamento de sua casa com sua renda. Se você fizer isso, poderá ver como a Presidência Trump está realmente fora de sintonia com a história.

De acordo com as projeções da CBO, o déficit orçamentário será de 4,6% do PIB. este ano, e em 2030 ele terá aumentado para 5,4% do PIB. Antes da posse de Trump, os Estados Unidos nunca tiveram déficits sustentados dessa magnitude, exceto durante as guerras, quando os gastos com armamentos e outros itens aumentaram acentuadamente, ou durante as quedas econômicas, quando as receitas fiscais caíram fortemente.

“Além de um período de seis anos durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, o déficit no século passado não excedeu 4,0% por mais de cinco anos consecutivos", aponta o relatório da CBO. “E nos últimos 50 anos, os déficits atingiram uma média de 1,5% do PIB quando a economia estava relativamente forte (como acontece agora)."

E o nível da dívida do governo? "Devido aos grandes déficits, a dívida federal mantida pelo público deve crescer, de 81% do PIB em 2020 para 98% em 2030 (seu maior percentual desde 1946)", diz o relatório da CBO. “Até 2050, a dívida seria 180% do PIB - muito mais alta do que em qualquer outro momento."

Não é segredo o que aconteceu durante os anos 1990 a alguns dos empreendimentos comerciais de Trump, incluindo o cassino Taj Mahal, em Atlantic City, e o Plaza, no Central Park South: eles faliram sob o peso das dívidas que Trump havia acumulado neles. O mesmo destino está reservado para os Estados Unidos? Provavelmente não, felizmente. Com as taxas de juros em níveis mínimos, pagar os juros das grandes dívidas é uma tarefa mais fácil do que costumava ser. Além disso, os governos têm opções de financiamento que são indisponíveis para empresas privadas, como aumentar de impostos ou, in extremis, permitir que o banco central emita dinheiro e compre títulos.

Apesar do crescente endividamento dos Estados Unidos, a maioria dos investidores ainda considera os títulos do Tesouro como um ativo seguro. Mas isso não justifica a licenciosidade de Trump e dos republicanos no Congresso. Em algum momento, as taxas de juros poderão subir e os investidores poderão perder a fé no governo dos EUA. Mesmo que isso não aconteça, "estamos tomando dinheiro emprestado para todas as coisas erradas", aponta Jared Bernstein, membro sênior do Centro de Orçamento e Prioridades Políticas.

Parte da dívida emitida para pagar o corte de impostos poderia ter sido usada para financiar investimentos em infraestrutura, fontes renováveis de energia, creches para todos, retreinamento de adultos, redução do custo do ensino superior ou qualquer outro dos inúmeros programas que gerariam benefícios a longo prazo para os americanos comuns. Em vez disso, os maiores desembolsos foram para as empresas, que viram sua alíquota de imposto cair de trinta e cinco por cento para vinte e um por cento.

Na época, a Casa Branca argumentou que isso encorajaria as empresas multinacionais a repatriar incontáveis bilhões de dólares em lucros que haviam acumulado no exterior. Kevin Hassett, que era o presidente do Conselho de Assessores Econômicos [ligado ao escritório executivo do presidente dos EUA], alegou que, uma vez aprovada a lei tributária, empresas agradecidas investiriam pesadamente em novas fábricas, escritórios, equipamentos e software - um processo que os economistas chamam de "aprofundamento de capital" (capital deepening) - que, por sua vez, aumentaria a produtividade e os salários de seus trabalhadores. "Colocado de forma simples", escreveu Hassett, "o aprofundamento do capital, que traz retornos adicionais aos proprietários de capital, também traz retornos substanciais aos trabalhadores".

O novo relatório do PIB mostra o que realmente aconteceu. O investimento empresarial aumentou um pouco, antecipando a emenda que reduziu os impostos e imediatamente após sua aprovação. Desde então, porém, ele recuou. Nos últimos três trimestres, a ampla categoria de ‘despesas de capital’, forma como o Departamento de Comércio se refere como investimento fixo não residencial, caiu, com a maior queda ocorrendo em ‘estruturas’ - uma categoria que inclui fábricas, prédios de escritórios e coisas como plataformas de perfuração.

No trimestre mais recente, os gastos com estruturas caíram 10%. Parte dessa queda provavelmente foi atribuída à queda no preço do petróleo, mas o setor de energia não foi o único a exibir fraqueza. Outros, como a manufatura, também o fizeram, foi o que Ian Shepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, salientou para mim.

Então, o que aconteceu com o corte de impostos de Trump? “As empresas pouparam parte do corte de impostos, mas a maior parte parece ter sido destinada a recompra de ações e dividendos", disse Shepherdson. “Não há evidências de qualquer impacto positivo nas despesas de capital".

Na semana passada, apontei que o candidato democrata, seja ele quem for, precisará desmascarar as alegações de Trump sobre a economia. Esses últimos relatórios econômicos fornecem bastante material de trabalho.

John Cassidy é redator do jornal The New Yorker desde 1995. Ele também escreve uma coluna sobre política, economia, entre outros temas para newyorker.com.

*Publicado originalmente no The New Yorker | Tradução de César Locatelli

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