Economia Política

O Fórum Econômico Mundial e seu fundador fogem de seu passado

Não somos fãs do neoliberalismo. Mas veja quem, de repente, o está rejeitando

29/01/2021 10:39

Klaus Schwab, no FSE de 2016, em Davos, Suíça (Ruben Sprich)

Créditos da foto: Klaus Schwab, no FSE de 2016, em Davos, Suíça (Ruben Sprich)

 

Quando Klaus Schwab - o fundador do Fórum Econômico Mundial - começar a protestar contra “a ordem global neoliberal”, o mundo deve prestar atenção.

O sujo Fórum rindo do mal lavado

“Nos últimos 30 a 50 anos, a ideologia neoliberal tem prevalecido em partes cada vez maiores do mundo.”

E ele acrescentou: “Esta abordagem se concentra na noção de que o mercado sabe o que é melhor, que o 'negócio dos negócios são negócios' e que o governo deve evitar estabelecer regras claras para o funcionamento dos mercados”.

O Sr. Schwab prossegue declarando solenemente: “Essas crenças dogmáticas se mostraram erradas. Mas, felizmente, não somos obrigados a segui-las.”

Abusos neoliberais nos EUA e no Reino Unido

Não nos levem a mal. A paixão dos EUA e do Reino Unido pelo neoliberalismo foi uma tentativa equivocada de distorcer o que é, em cada um dos dois casos, um modelo de política já hiper-orientado para o mercado.

Mas é um tanto irônico que o fundador do Fórum proteste contra isso. Afinal, todo o modelo de negócios de sua organização sempre se baseou em fornecer às megacorporações um escudo de relações públicas para fingir que pretendem alcançar um padrão mais alto - (NB: a ênfase está em “relações públicas” e “escudo”).

Em grande parte, o Fórum construiu seu alvará de funcionamento fornecendo uma plataforma de marketing para gigantes de TI e do sistema bancário com sede nos Estados Unidos.

Assim, seria de se esperar que esse ataque verbal viesse de algum experiente esquerdista, em vez de Schwab, que construiu seu negócio - por meio de suas confabulações em todo o mundo – para servir às aspirações de grandes corporações globais.

Vitrine corporativa

Essas empresas têm campanhas de longo prazo, amplamente coordenadas no âmbito do Fórum Econômico Mundial para enfatizar o espírito benevolente da responsabilidade social corporativa.

Infelizmente, uma vez que os acionistas norte-americanos não querem que tais incursões sejam mais do que meras manobras de relações públicas, os projetos do Fórum são sempre extensos em aspirações e curtos em termos de cumprimento real das promessas.

Portanto, o exercício, em grande parte, resulta em uma cortina de fumaça encobrindo uma realidade econômica e social preocupante. Isso não vai melhorar, com as corporações chinesas substituindo, cada vez mais, a generosidade do lado corporativo dos EUA.

Conexão direta com a democracia

Por mais tentador que possa parecer para o Sr. Schwab e para o Fórum Econômico Mundial se desassociarem de seus antigos veículos de propulsão, no mundo real isso importa muito pouco.

No momento, estamos lidando com uma tripla crise de confiança - falta de confiança na democracia em casa, nas instituições globais e nas empresas globais.

É lógico que esses três desafios só podem ser enfrentados juntos. E isso, por sua vez, significa que temos que modernizar nossas instituições democráticas de estado-nação, bem como nossa rede de instituições globais - para que sejam mais receptivas aos desafios que enfrentamos.

Muita representação para pouca tributação

Também significa lidar com megacorporações globais, especialmente aquelas com sede nos Estados Unidos. Começando com suas travessuras fiscais muitas vezes grotescas, elas são os verdadeiros caronas em um mundo conturbado.

Seu esforço sistemático para evitar pagar sua parte justa - e, assim, contribuir para preservar a democracia e a justiça em nossas sociedades - não pode mais ser tolerado.

Obrigar, com firmeza, que as megacorporações prestem contas - até mesmo separá-las em empresas menores - é do próprio autointeresse coletivo delas.

Pois, a menos que isso aconteça, a essência daquilo que essas empresas mais dependem - ou seja, um consenso a favor da integração global contínua - desaparecerá. Ele já é suficientemente frágil.

*Publicado originalmente em The Globalist | Tradução de César Locatelli


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