Economia Política

O abraço ao FMI

O pedido de auxílio financeiro ao FMI por parte do governo de Macri coroa uma série de desacertos em matéria de política econômica. O principal problema da economia macrista é sua matriz neoliberal. O regresso aos créditos do FMI não será gratuito. Sua saída tampouco o será

20/05/2018 14:21

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Por Santiago Fraschina
 
O recente anúncio do presidente Mauricio Macri, sobre o pedido de auxílio financeiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), coroa uma série de desacertos maiúsculos em matéria de política econômica. O agudo déficit externo, motivado pela liberalização das contas externas, a confiança cega pela chegada de capitais internacionais pela mera afinidade com a cor amarela, e as medidas para contrair mais dívida como uma forma para apaziguar, no curto prazo, a imperícia da estratégia econômica (chutando o problema para frente, mas sabendo que ele voltará no futuro) são alguns dos aspectos que determinaram este resultado sombrio para o bem-estar social.

Independente de um ou outro cenário da conjuntura internacional, o principal problema deste modelo é a matriz neoliberal que o sustenta. Num contexto onde os países protegem suas indústrias administrando o comércio exterior e se preocupam em fortalecer a demanda interna, buscando financiamento no mercado local, as políticas da aliança governista argentina Cambiemos (“Mudemos”) vão na contramão da tendência, o que aumenta a instabilidade dos mercados.

Como num filme trágico de final conhecido, o regresso ao FMI não será gratuito. Sua saída tampouco o será. O pagamento da última dívida com o Fundo custou sangue, suor e lágrima, além de anos de um país de joelhos para o mercado. Depois de levantar a porção majoritária dos bônus privados em default, o governo de Néstor Kirchner colocou um ponto final, cancelando a dívida total com o FMI.

Aquele ato histórico de soberania política e independência econômica permitiu desativar as visitas técnicas periódicas de revisão da economia. O establishment financeiro internacional tem especial interesse em exigir cláusulas em seus acordos de resgate financeiro, para permitir que o Fundo possa auditar as políticas econômicas dos países, definindo um determinado perfil de especialização produtiva, exigindo transformações estruturais e impondo programas de ajuste.

A definição de políticas internas e a aplicação da receita dos países centrais é o principal interesse do FMI quando inspeciona as finanças públicas dos países endividados. Essa lógica de intromissão, que marcou historicamente as instituições do pós-guerra, foi o que motivou a denúncia que Perón fez em 1948, sobre a adesão da Argentina ao acordo de Bretton Woods. Por isso ele manteve a Argentina fora do FMI até o golpe de 1955 – depois, o ministro Adalbert Krieger Vasena solicitaria sua rápida incorporação.

O “financiamento preventivo” mencionado pelo ministro Nicolás Dujovne não é outra coisa senão um pedido de resgate, motivado pela sangria continua de dólares que vinha se registrando no patrimônio do Banco Central. Nos primeiros quatro meses deste ano já se perderam mais de 9 bilhões em reservas para conter o tipo de câmbio. Como o mercado sempre sente o cheiro de sangue, a obtenção de recursos cambiárias não foi suficiente, e o presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger, aumentou a taxa de juros em mais de 12 pontos, até os 40% anual.

Uma rentabilidade superlativa que as entidades bancárias e os grandes fundos de capitais passaram a obter. Dotados de informação privilegiada, se anteciparam às manobras que a equipe econômica do macrismo realiza, e se aproveitam da bicicleta financeira gerada por esses desacertos. A Argentina, com uma taxa de juros real entre as mais elevadas do mundo, se tornou um paraíso os fundos que vivem da mais bizarra especulação. Não há projeto de economia real que gere um rendimento nem remotamente similar às taxas que enriquecem os especuladores, a partir do chamado carry trade (aplicação financeira que consiste em tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo em outra moeda, onde as taxas de juros são maiores).

Déficit

A falta de rumo em matéria econômica é um problema cada vez mais agudo. Além de um déficit comercial crescente, que superou os 8,5 bilhões de dólares em 2017, há também o desequilíbrio dos setores de serviços, compras no exterior e turismo, além dos juros da dívida pública. Junto com todos esses problemas está o balanço negativo do ano passado, que superou os 30 bilhões de dólares. Com um evidente efeito “bola de neve”, onde as inconsistências do modelo agravam cada vez mais o problema estrutural, todas as projeções marcam que estes números devem se aprofundar neste ano.

A maior exposição ao setor externo, devido à liberalização da Conta Capital, implica que se o mundo ficar gripado a Argentina pode ter que ir para a UTI. Este cenário requer uma visão mais latinoamericanista na hora de buscar soluções, pensando em modelos diferentes ao da abertura indiscriminada. Na atualidade, todas as economias do mundo cuidam dos seus capitais, fomentam o investimento interno, tentam robustecer o mercado interno. Não saber para que lado o mundo está indo é uma das coisas que pode levar a Argentina a colidir de frente com uma locomotiva.

A dificuldade em manter o ritmo do financiamento externo, com um concerto financeiro global que já não acredita no programa macrista, e com o fechamento da torneira do “dinheiro fácil”, são variáveis que nunca passaram pela cabeça da “melhor equipe econômica dos últimos 50 anos”, como alguma vez foi chamada pela imprensa amiga. Um gabinete cheio de CEO´s petulantes, que pensava realmente que sua simples chegada ao poder levaria a uma “chuva de investimentos” estrangeiros em setores estratégicos. Isso não aconteceu nem acontecerá. Por isso, a direita decidiu voltar a empurrar o país para o mais obscuro Fundo.
 
Santiago Fraschina é diretor da Licenciatura em Economia da Universidade de Avellaneda e integrante do coletivo Economia Política para a Argentina (EPPA)



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