Economia Política

O estado da economia mundial às vésperas da pandemia

 

14/04/2020 11:20

 

 
[Parte 1 de 7: O artigo completo do professor Chesnais, “O estado da economia mundial no início da grande recessão Covid-19: referências históricas, análises e ilustrações”, publicado em 12 de abril de 2020, no site A l’encontre, será publicado em 7 partes, conforme sua própria divisão.]

Sob os efeitos da extensão da pandemia, a uma velocidade inesperada, especialmente nos Estados Unidos, as estimativas da profundidade da recessão em curso e de seus diferentes impactos nas diversas partes da economia mundial têm mudado constantemente. Durante várias semanas, a referência relevante foi a crise econômico-financeira de 2007-2009 e a recessão que se seguiu. Mas desde a liberação dos números de desemprego nos Estados Unidos, agora nos referimos a uma depressão de magnitude que pode se aproximar da Grande Depressão da década de 1930.

Este artigo acrescenta uma terceira referência a essas duas. Ela se situa em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, e diz respeito à dívida pública de certos Estados, incluindo o Reino Unido e a França. Ela atingiu níveis muito altos dos quais estamos nos aproximando hoje. O artigo examina primeiro o estado da economia mundial às vésperas da pandemia, com foco nas características do período 2009-2019. Questiona-se, então, a capacidade atual de recuperação, de retomada da acumulação em longo prazo do capitalismo mundial em comparação com aquele que ocorreu nos anos 1930 e durante várias décadas após a Segunda Guerra Mundial.

Vários parâmetros são examinados a esse respeito, incluindo o aumento do custo do componente variável (chamado capital circulante) do capital constante e as características atuais da tecnologia. O artigo termina com a pergunta que será crucial sobre o nível e o peso da dívida pública, mas também da dívida das famílias, a ponto do cancelamento das dívidas se tornar uma reivindicação política que pode, facilmente, ser apoderada por um número muito grande de trabalhadores. Na quinta-feira, 9 de abril de 2020, Christine Lagarde posicionou-se vigorosamente contra a ideia.

1. O estado da economia mundial às vésperas da pandemia

No final de 2019, doze anos após o início da crise econômico-financeira global de 2007-2008, ainda não tinha acontecido a saída verdadeira da crise e a retomada da acumulação nos países avançados da OCDE, ao passo que o ritmo de crescimento havia caído na China. Na realidade, a grande recessão iniciada há doze anos nunca terminou. Mesmo que as convenções estatísticas digam que, nos Estados Unidos, a recessão iniciada em dezembro de 2007 tenha terminado em junho de 2009, os economistas de língua inglesa designam pelo nome de Great Depression (grande depressão), o período aberto pela crise mundial, em que a falência, em outubro de 2008, do banco Lehmann Brothers foi o ponto culminante. Esse nome é totalmente justificado pela nitidez da ruptura com o período que o precedeu e, mais fundamentalmente, pela fase, bastante longa, de crescimento iniciada no final da década de 1940. O gráfico mostra que o crescimento desacelerou progressivamente, caindo a um ponto muito baixo em 1974-1975 e 1979-1982, mas somente em 2008-2009, ele foi verdadeiramente interrompido. [1]

Figura 1: Taxa de crescimento anual do PIB das economias ricas
[As barras mostram a taxa de crescimento anual e a linha refere-se à taxa média de crescimento de 10 anos]



Na véspera da pandemia, as perspectivas de crescimento da economia mundial para 2020, publicadas pela OCDE, eram de 2,9%. No início de 2020, a produção industrial dos EUA havia caído, pelos cálculos do Fed, em 0,4% em comparação com o nível do mesmo mês do ano anterior. [2] Na Alemanha, a segunda maior economia da OCDE, a produção industrial caiu 1,7%, em outubro de 2019. Dependente das exportações, a indústria alemã sofreu os efeitos da desaceleração endógena do crescimento chinês, do fraco desempenho de países vizinhos da Europa e do impacto do Brexit nos projetos de investimento da UE. [3]

Tabela 1: Previsão de crescimento global da OCDE em novembro de 2019 (taxa de crescimento anual real)



É, portanto, uma economia global em mau estado que a pandemia atingiu, além da alteração de muitos parâmetros em comparação com aqueles do período da crise de 2007-2008. Não se trata, apenas, do enfraquecimento das ferramentas monetárias, da perda de poder das intervenções dos bancos centrais e do nível muito alto de dívidas públicas, mas da capacidade de ação da burguesia mundial. Em 2009, o aprofundamento da recessão global e o declínio na produção e no comércio foram interrompidos por enormes investimentos em infraestrutura feitos pela China. Em 2020, ela não está mais em condições de fazê-los. De maneira contraditória, com efeito, ela foi, simultaneamente, o principal local da superacumulação global [4] e um país que foi imediatamente atingido pelas consequências econômicas da pandemia. Em termos de relações internacionais, o regime relativamente cooperativo entre os Estados, de 2009, que assistiu a criação do G20, deu lugar a uma intensa rivalidade comercial e a um aumento significativo no protecionismo, que tem os Estados Unidos como o principal responsável. Por fim, doze anos adicionais de exploração de recursos básicos levaram a um aumento nos preços de matérias-primas básicas, sob o efeito do início da escassez de recursos minerais e da degradação do solo, enquanto os impactos do aquecimento global começam a alcançar todos os países.

Notas:

[1] Ver meu artigo de 2010, Crise de superacumulação mundial que se abre sobre uma crise da civilização em http://www.inprecor.fr/inprecor?numero=556-557 , assim como meu livro Finance Capital Today. Corporations and Banks in the Lasting Global Slump, Brill/Haymarket Books, 2016.

[2] https://www.federalreserve.gov/releases/g17/current/default.htm

[3] https://www.capital.fr/entreprises-marches/croissance-plongeon-surprise-de-lindustrie-en-allemagne-1357038

[4] Ver os livros sobre a China de Michel Aglietta com Yves Landry (2007) et Guo Bai (2012), assim como Mylène Gaulard, «Les limites de la croissance chinoise», Revue Tiers Monde, n°200, janeiro de 2009.

https://alencontre.org/laune/letat-de-leconomie-mondiale-au-debut-de-la-grande-recession-covid-19-reperes-historiques-analyses-et-illustrations.html

*Publicado originalmente em 'A l’encontre' | Tradução de César Locatelli

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