Economia Política

O que as corporações deveriam fazer?

Mesmo com toda a animação sobre os "acionistas" e firmas "com propósito", o novo modo do capitalismo é simplesmente uma reembalagem do antigo. Empresas de sucesso vão continuar a focar no valor de suas ações no longo prazo, enquanto evitam os riscos de irem para áreas onde não pertencem

16/10/2020 16:01

(franckreporter/Getty Images)

Créditos da foto: (franckreporter/Getty Images)

 
CHICAGO – Com a pandemia de covid-19 reforçando preocupações sobre a desigualdade econômica, comunidades esquecidas, discriminação, e mudança climática, há uma pressão crescente para que as empresas façam mais do que vender um bom dispositivo a um preço acessível. Respondendo à mudança de humor do público, a Business Roundtable dos EUA declarou no ano passado que, “cada um dos nossos acionistas é essencial. Nos comprometemos a entregar valor a todos eles, para o sucesso futuro de nossas empresas, nossas comunidades e nosso país”.

Mas esse jeito de enquadrar o problema é pouco eficaz. Os objetivos declarados de uma corporação deveriam ajudar a orientar suas escolhas. Se todos os acionistas são essenciais, então nenhum é. Em uma tentativa de agradar a todos, a Business Roundtable provavelmente vai acabar não agradando a ninguém. Evidências recentes sugerem até mesmo que as corporações que assinaram a declaração “capitalismo dos acionistas” do grupo são mais propensas a demitir funcionários em resposta à pandemia, e menos propensas a doar para auxílios e esforços parecidos.

No entanto, essa visão centrada no acionista proposta pelo economista ganhador do Nobel Milton Friedman está errada? O raciocínio de Friedman era que, devido ao fato de os gerentes serem empregados pelos acionistas, sua tarefa é maximizar os lucros – e, com isso, o preço da ação – com o tempo. Enquanto essa abordagem era amplamente abraçada por executivos de corporações nos EUA e no Reino Unido nos últimos 50 anos, sua lógica essencial foi mal interpretada. Para muitos observadores, a ideia de que os negócios devem favorecer investidores milionários às custas de funcionários de longo-prazo é deplorável.

Ainda assim, há um argumento mais profundo sobre a visão de Friedman, baseado no reconhecimento de que os gerentes não vão necessariamente espremer todos os outros para favorecer os acionistas. Porque os acionistas ficam com o que resta depois de os titulares de dívidas receberem o pagamento dos seus juros e de os funcionários receberem seus salários, e, com isso, os gerentes podem maximizar o ‘recurso residual’ dos acionistas aos bens remanescentes somente se ele expandir o tamanho do bolo corporativo em relação àqueles direitos fixados anteriormente. Na medida em que a administração deva satisfazer a todos antes de olhar para os interesses dos acionistas, já maximiza o valor para todos aqueles que contribuem com a empresa.

É verdade, alguns diriam, que o imperativo para estimular os lucros trimestrais leva ao corte de gastos em áreas como o treinamento de funcionários. Mas se as empresas querem maximizar o valor de suas ações no longo prazo, elas vão treinar seus funcionários onde for necessário, encorajar práticas sustentáveis dos seus fornecedores quando isso for reduzir custos, e fomentar relações duradouras com clientes ao invés de enganá-los. Dito de outro modo, mesmo se os CEOs focarem primeiramente no valor das ações, isso não significa que o mercado de ações somente recompense ações que estimulem lucros trimestrais. A Amazon mostrou lucros reduzidos por anos, mas está prosperando agora precisamente porque investiu muito no seu negócio.

Além disso, quando os resultados trimestrais afetam os preços das ações, frequentemente é porque o curto prazo foi interpretado como um reflexo confiável do longo prazo. Da mesma forma, ao invés de tentar estimular lucros de curto prazo sacrificando o longo prazo, os administradores corporativos se sairiam melhor explicando sua estratégia e encorajando a paciência do investidor. E se analistas de mercado não comprarem seus argumentos, talvez tenham razão, e uma nova administração pode estar em vista. Cabe aos bons conselhos corporativos decidirem, sem serem influenciados por vãos resultados de curto prazo. Eles podem certamente encorajar os administradores a optar por uma visão de longo prazo. Declarações vagas sobre agradar a todos os acionistas nunca precisam ser feitas.

De fato, os gerentes corporativos têm feito mau uso da formulação original de Friedman para justificar crescente pagamento denominado em ações, o que eles alegam “alinhar” seus interesses com os dos acionistas. Mas isso reflete o fracasso da governança corporativa, não os objetivos fundamentais. O verdadeiro problema com a formulação de Friedman é que não importa o quão correta seja tecnicamente, o fato de ser mal interpretada faz a diferença: os funcionários e clientes idealistas de hoje se recusam a aceitá-la. A implicação irônica dessa mudança de atitude é que as corporações que anunciam um compromisso somente com a maximização do valor do acionista, arriscam afastar constituintes importantes, o que será refletido de maneira adversa no preço de suas ações.

É por isso que, como mostra um relatório recente da McKinsey & Company, mais corporações estão se tornando “dirigidas a um propósito”. Eles alegam entre os benefícios, um forte crescimento de receita (ao atrair clientes socialmente conscientes), uma maior redução de custos (por meio de eficiência hídrica e energética), e um melhor recrutamento e motivação de funcionários (fazendo o “ir bem” um bônus no trabalho).

É claro, nenhum desses alvos está em desacordo com o objetivo de maximizar o valor do acionista. O propósito corporativo é útil somente à medida que entusiasma constituintes críticos. Se o propósito é feito para agradar a todos, no entanto, vai introduzir um padrão impossível e sair pela culatra. A chave é a administração deixar claro como vai escolher entre constituintes diferentes quando escolhas precisarem ser feitas.

Por exemplo, quando o Google saiu de um programa do governo dos EUA que desenvolvia inteligência artificial para fins militares, sinalizou que as objeções de seus funcionários eram mais importantes do que os interesses de um cliente grande e lucrativo. Como resultado, os funcionários e clientes do Google conseguem ter uma melhor noção de como a empresa pondera seus interesses, e essa clareza será um benefício no longo prazo, incluído no preço das ações.

Algumas empresas levaram as coisas ainda mais adiante, como o desenvolvimento de diretrizes de sustentabilidade para elas mesmas e seus fornecedores na ausência de regulações estatais. Atos coletivos ‘noblesse oblige’ corporativos são preocupantes: diretrizes que grandes participantes podem cumprir facilmente podem afastar concorrentes menores do mercado, e compradores bem intencionados podem formar “cartéis” para espremer fornecedores. Dito isso, seria melhor se as corporações pressionassem governos eleitos por maiores regulações, ao invés de agirem sozinhas.

Finalmente, há o problema da crescente influência política e do discurso corporativo. Muitos acionistas agora querem que as empresas avaliem questões como as restrições aos direitos LGTBQ em alguns estados dos EUA. São, frequentemente, os mesmos acionistas que se opõem à influência eleitoral do dinheiro corporativo. De modo geral, intervenções fora dos interesses de negócio da companhia suscitam questões profundas de legitimidade: as visões de quem estão sendo representadas? Da administração? Mas os administradores foram indicados pela sua competência de conduzir a empresa, não pelas suas visões políticas. Dos acionistas? Quais acionistas? E com base no quê?

As corporações deveriam tomar cuidado aqui. Enquanto temos processos políticos para recompensar ou penalizar ações do governo, e processos corporativos para responsabilizar gerentes, nos faltam mecanismos robustos para o monitoramento dos negócios que assumem papéis governamentais tradicionais. Até termos isso, as corporações que assumem responsabilidades públicas correm o risco de ultrapassar os limites da aceitação pública. É melhor deixar como está.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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