Economia Política

O resgate da Grécia é resgate dos bancos europeus

26/06/2011 00:00

Esquerda.Net

O resgate da Grécia à beira da bancarrota, corresponde, em parte, ao resgate dos bancos europeus é a tese que defende o editorial do jornal The New York Times (NYT), de 21 de junho. O artigo questiona a vulnerabilidade dos bancos americanos em relação a uma possível falência da zona euro.

"Traduzindo" a tradução da afirmação do NYT, poderíamos dizer que a crise da dívida na Grécia, e consequente falência do Estado grego, corresponde, em parte, à falência dos bancos europeus.

Só na França e na Alemanha, os bancos detêm cerca de 90 bilhões de dólares em dívida pública e privada grega. O Banco Central Europeu também detém dívida pública grega, e o medo é que o padrão de perdas na Grécia possa ameaçar toda a Europa.

O NYT pergunta se os bancos dos EUA também se encontram numa situação vulnerável e aponta razões para uma resposta afirmativa embora indique que “ninguém tem certezas”. Os bancos estadunidenses não são grandes credores da Grécia mas ocupam lugares de ponta nos mercados de derivativos.

Se a Grécia entrar na bancarrota, um banco dos EUA que detenha CDS [“credit default swaps", derivados de crédito graças aos quais os bancos se seguram contra o risco dos seus devedores] sobre títulos de dívida grega, de um banco europeu, terá também de pagá-los.

Os CDS são o tipo de derivativos que estão por detrás da implosão da American International Group e do efeito dominó que se seguiu no sistema financeiro global. A partir das evidências disponíveis, não parece que a Grécia tenha o mesmo poder destrutivo, “mas ninguém está ansioso para testar isso”.

O próximo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, banqueiro italiano que passou pela Standard & Poor's, avisou recentemente que ninguém sabe realmente quem está ameaçado por estes instrumentos financeiros de risco. “Quem são os proprietários dos CDS? Quem assegurou quem no caso da falência de um país?, perguntou.

Contudo, alertando para um possível efeito de contágio, Draghi argumentou contra uma reestruturação da dívida grega - o que poderia implicar o alargamento das condições de reembolso ou cancelamento de parte da dívida - apesar de cada vez mais haver certezas sobre o incumprimento da Grécia e por isso a reestruturação da dívida ser inevitável, refere o NYT.

Quer sejam ou não os bancos americanos vulneráveis a esta crise, certo é que os derivativos financeiros se encontram "ainda muito desregulados", aponta o jornal americano. As reformas financeiras que supostamente deveriam melhorar a transparência e reduzir a especulação ainda não foram implementadas. A incerteza é maior quando se considera que os CDS são apenas um tipo de derivados financeiros que ligam os bancos em todo o mundo. Outros existem por aí, nos mercados internacionais.

A Grécia será ajudada enquanto os decisores políticos acreditarem que a alternativa poderá ser o colapso de todo o sistema, da zona euro. Esta semana, o Parlamento grego deu ao primeiro-ministro, George Papandreou, um voto de confiança, abrindo caminho para uma votação favorável de mais cortes salariais e outras medidas de austeridade dolorosas para o povo grego, que os responsáveis europeus exigem em troca de mais ajuda.

O NYT conclui que a crise da dívida grega é um lembrete do quão pouco mudou realmente desde a explosão da última crise financeira e do quanto está ainda para ser feito para evitar que tudo volte a acontecer de novo.

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