Economia Política

O todo-poderoso dólar está em declínio?

Longe de sinalizar sua morte iminente como principal moeda de reserva global, uma forte depreciação do dólar é esperada no atual contexto macroeconômico. As forças que podem corroer a hegemonia do dólar continuam se movendo lentamente e ao longe

27/08/2020 14:37

(DNY59/Getty Images)

Créditos da foto: (DNY59/Getty Images)

 
A recente desvalorização acentuada do dólar americano gerou preocupações de que ele pudesse perder seu papel de principal moeda de reserva global. Afinal, além da flexibilização monetária agressiva do Federal Reserve dos EUA – que ameaça depreciar ainda mais a principal moeda fiduciária mundial – os preços do ouro e as expectativas de inflação também vêm subindo.

Mas, parafraseando Mark Twain, os relatos de morte precoce do dólar são muito exagerados. A fraqueza recente do dólar é impulsionada por fatores cíclicos de curto prazo. No longo prazo, a situação é mais complicada: o dólar tem pontos fortes e fracos que podem ou não prejudicar sua posição global ao longo do tempo.

O principal fator negativo de curto prazo é a política monetária ultrafrouxa do Fed. Com os Estados Unidos monetizando déficits orçamentários cada vez maiores, a abordagem do Fed parece mais acomodativa do que a da maioria dos outros grandes bancos centrais.

O dólar tende a enfraquecer durante episódios de risco e vice-versa. Seu valor disparou durante o pânico em relação ao COVID-19, em fevereiro-março, e depois enfraqueceu a partir de abril, conforme a confiança do mercado se recuperou. Além disso, a ativação do Fed de linhas de swap de moeda com outros bancos centrais aliviou a iliquidez do dólar, que havia pressionado a taxa de câmbio no início da crise. Agora, uma enxurrada de dólares globais pressiona o dólar para baixo.

Além disso, alguns países desenvolvidos (na Europa e outros continentes) e alguns mercados emergentes (como a China e outros na Ásia) estão fazendo um trabalho muito melhor de contenção do COVID-19 do que os Estados Unidos, o que significa que suas recuperações econômicas podem vir a ser mais resilientes. As falhas de saúde pública nos EUA e as vulnerabilidades econômicas decorrentes estão, assim, contribuindo ainda mais para o enfraquecimento do dólar.

Também vale a pena enfatizar que, antes da pandemia, o dólar havia se valorizado mais de 30% em termos nominais e reais (ajustados pela inflação) desde 2011. Dado o enorme déficit externo dos EUA, e como as taxas de juros não são altas o suficiente para financiá-lo com influxos de capital, uma desvalorização do dólar foi necessária para restaurar a competitividade comercial dos EUA. E a volta dos EUA ao protecionismo sinaliza que o país prefere um dólar mais fraco para que a competitividade externa seja restaurada.

Mesmo no curto prazo, o dólar pode se fortalecer novamente se – como os últimos dados de crescimento global sugerem – uma recuperação em forma de V revelar-se uma anêmica recuperação em forma de U, ou ainda uma dupla queda, se a primeira onda da pandemia não for controlada e uma segunda onda matar a recuperação antes que vacinas eficazes sejam encontradas.

No médio e longo prazo, vários fatores podem preservar o domínio global do dólar. O dólar continuará a se beneficiar de um sistema amplo de taxas de câmbio flexíveis, controles de capital limitados e mercados de bonds líquidos. Mais especificamente, simplesmente não existe uma alternativa clara de moeda que pudesse servir como ampla unidade de conta, meio de pagamento e reserva estável de valor.

Além disso, apesar das dificuldades da pandemia, a taxa potencial de crescimento anual dos EUA, em torno de 2%, é maior do que a da maioria das outras economias avançadas, mais próxima de 1%. A economia dos Estados Unidos também permanece dinâmica e competitiva em muitos setores importantes, como tecnologia, biotecnologia, indústria farmacêutica, serviços de saúde e serviços financeiros avançados, todos os quais continuarão a atrair fluxos de capital do exterior.

Qualquer país que dispute a posição dos EUA tem de se perguntar se realmente deseja ter uma moeda forte e os grandes déficits em conta corrente associados a atender a demanda global por ativos seguros (títulos do governo). Este cenário parece pouco atraente para a Europa, Japão ou China, onde as fortes exportações são fundamentais para o crescimento econômico. Nas atuais circunstâncias, os Estados Unidos provavelmente manterão seu “privilégio exorbitante” como emissor de dívida segura de longo prazo que os investidores privados e públicos querem em seus portfolios.

A questão, então, é que fatores podem minar a posição global do dólar ao longo do tempo. Em primeiro lugar, se os EUA continuarem monetizando grandes déficits orçamentários, alimentando assim grandes déficits externos, um surto de inflação poderia eventualmente desvalorizar o dólar e enfraquecer sua atratividade como moeda de reserva. Dada a atual combinação de políticas econômicas dos EUA, é um risco crescente.

Outro risco é a perda da hegemonia geopolítica dos EUA, que é, aliás, uma das principais razões pelas quais tantos países usam o dólar. Não há nada de novo no fato de a moeda hegemônica ser a moeda de reserva global. Foi assim com a Espanha no século 16, com os holandeses no século 17, a França no século 18 e a Grã-Bretanha no século 19. Se as próximas décadas confirmarem o que muitos já chamam de "século chinês", o dólar pode muito bem empalidecer enquanto o renminbi sobe.

O uso do dólar como arma, por meio de sanções comerciais, financeiras e tecnológicas, poderia acelerar a transição. Mesmo se os eleitores americanos elegerem um novo presidente em novembro, essas políticas devem continuar, já que a Guerra Fria entre os EUA e a China é uma tendência de longo prazo e já que tanto os rivais estratégicos dos EUA (China e Rússia) quanto seus aliados já estão diversificando e rejeitando ativos em dólares que podem ser sancionados ou apreendidos.

Ao mesmo tempo, a China vem introduzindo mais flexibilidade em sua própria taxa de câmbio, relaxando gradualmente alguns controles de capital e criando mercados de dívida mais profundos. Convenceu mais parceiros comerciais e de investimento a usar o renminbi como unidade de conta, meio de pagamento e reserva de valor, inclusive em reservas estrangeiras. Está construindo uma alternativa ao sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), liderado pelo Ocidente, e vem trabalhando em um renmimbi digital que possa ser eventualmente internacionalizado. E seus próprios gigantes da tecnologia estão criando enormes plataformas de comércio eletrônico e de pagamento digital (Alipay e WeChat Pay) que outros países poderiam adotar em sua moeda local.

Assim, embora a posição do dólar esteja segura por ora, ele tem desafios significativos para os próximos anos e décadas. É verdade que nem o sistema econômico da China (capitalismo de estado com controles financeiros) nem seu regime político tecnocrático-autoritário têm muito apelo no Ocidente. Mas o modelo chinês já se tornou bastante atraente para muitos mercados emergentes e países menos democráticos. Com o tempo, à medida que se expandir o poder econômico, financeiro, tecnológico e geopolítico da China, sua moeda poderá fazer incursões em muitas outras partes do mundo.

Nouriel Roubini é professor de economia na Stern School of Business da New York University. Foi economista sênior para assuntos internacionais no Conselho de Consultores Econômicos da Casa Branca durante o governo Clinton, trabalhou para o FMI, o Federal Reserve dos EUA e o Banco Mundial.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Clarisse Meireles





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