Economia Política

Pauladas e cacetadas eleitorais

A arte da política econômica versus a técnica de pontapés dos neoliberais

11/09/2018 16:17

Paulo Guedes, economista e ''superministro'' de Bolsonaro (Bruno Prado/Apex-Brasil)

Créditos da foto: Paulo Guedes, economista e ''superministro'' de Bolsonaro (Bruno Prado/Apex-Brasil)

 

A semana, pródiga na produção de desgraças, culminou no incêndio do Museu Nacional. Não bastasse a destruição da memória, as classes dirigentes e dominantes brasileiras empenham-se em esmagar as esperanças no futuro.

Nas redes sociais, a celebrada XP Investimentos enviou uma advertência a seus clientes e admiradores:

“Chega de compartilhar fake news ou promessas impossíveis de serem colocadas em prática. Alexandre Schwartsman, Gustavo Franco, Marcos Lisboa, Gustavo Loyola, Samuel Pessoa, Elena Landau, Marcos Troyjo, Marcelo Giufrida e muitos outros vão te mostrar nessa série de vídeos as ideias que geraram prosperidade nos países mais ricos do mundo.

Após concluir a Missão Brasil, você não apenas estará apto a entender se algum candidato está ou não tentando te enganar. Você pode escolher o melhor presidente, governador, senador ou deputado e também poderá ajudar seus amigos a tomar as melhores decisões.

Importante: Esse é um projeto apartidário e sem fins lucrativos do InfoMoney e do Terraço Econômico. Não defendemos nenhum candidato específico. Defendemos somente as melhores ideias para o desenvolvimento do Brasil."

A frase “esse é um projeto sem fins lucrativos” é comovedora. Os mercados entregam-se à missão de promover o interesse do povo brasileiro.

Entre tantas advertências dos mercados, a semana também ofereceu um gesto de indignação antimercadista. Em sua coluna no jornal GGN, André Araujo disparou obuses contra Persio Arida, o Porto Seguro da Confiança de Geraldo Alkmim, e Paulo Guedes, o Posto Ipiranga de Jair Bolsonaro.

Lá vai o primeiro petardo: “O economista e banqueiro Persio Arida, entrevistado no programa GloboNews Central de Eleições de 22 de agosto desfilou seu programa econômico da candidatura do PSDB para um time de entrevistadores simpáticos à ideologia neoliberal de mercado. Seu receituário é mais do que conhecido, tudo pelo mercado e nada pelo Estado, o mercado resolverá tudo desde que restabelecida a confiança que ele, Arida, representa”.

Re-assestando as baterias, André dispara: “Mas quem achava Arida um neoliberal de carteirinha, não viu nada. No dia seguinte, 23 de agosto, é entrevistado o economista Paulo Guedes, guru econômico do candidato Bolsonaro.

O homem parecia um alucinado, praticamente não aceitava perguntas, fez um discurso de fanático religioso, uma catarata de estatísticas, chutes numéricos, avaliações estapafúrdias, em um hora poucas vezes se viu tal concentração de asneiras, perto dele Persio Arida é um sábio moderado, pelo menos não é agressivo, dentro da lógica dele tenta ser racional”.

André Araujo adverte que estamos diante da imposição de uma solução única e religiosamente canônica para a economia brasileira: reconstruir a credibilidade do governo mediante a capitulação aos ditames da austeridade fiscal e monetária.

Araujo expõe com mais brilho e ênfase temas debatidos nesta coluna: na tragicomédia encenada nos palcos da Economia Política dos Mercados, os personagens entregam-se ao autoritarismo ilusionista. Na farsa montada nos ambientes obscuros da finança descontrolada e manipuladora, a chantagem apresenta-se ao distinto público adornada com as vestes da confiança e da transparência.

No teatro das vidas vividas por homens e mulheres de carne e osso, as medidas aviadas pelos sábios do mercado lembram uma parêmia popular, aqui reproduzida mais uma vez em sua versão para salões: “Os relho é que vareia, os lombo é sempre os mesmo”.

A política macroeconômica, lembra Alan Blinder, ex-integrante do conselho do Federal Reserve, é uma arte. A arte da coordenação entre a gestão monetária e a administração das finanças públicas, escorada no debate esclarecido com os atores sociais.

O propósito não pode ser outro senão o de garantir a estabilidade entre crescimento do emprego e da renda mediante a modulação anticíclica dos gastos, controle da inflação e evolução da dívida pública. Em um cenário de desaceleração do gasto privado, seria recomendável um ajuste mais pragmático e prudente, combinado com o planejamento anticíclico dos investimentos, até mesmo para evitar o colapso da arrecadação tributária.

A aversão do Federal Reserve à austeridade manteve à tona a economia dos EUA, mesmo diante dos esgares austericidas dos rednecks republicanos, mundialmente reconhecidos por sua sofisticação cultural típica dos agrupamentos do pleistoceno inferior.

Ainda assim, os Estados Unidos sacolejam numa trajetória marcada por um novo e arriscado ciclo de inflação de ativos, crescimento abaixo do potencial, escoltados por uma cruel estagnação do rendimento médio das famílias assalariadas. (Será que o Fed vai subir a taxa de juro?)

*Publicado originalmente na Carta Capital

Conteúdo Relacionado