Economia Política

Pessimismo global, otimismo nacional e críticas entre ministros

06/03/2009 00:00

Eduardo Seidl

Créditos da foto: Eduardo Seidl
BRASÍLIA - No primeiro painel do seminário internacional sobre desenvolvimento do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, os palestrantes - a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, e os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e José Múcio, além do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, fizeram coro ao presidente Lula que, na palestra de abertura do mesmo evento, havia ressaltado a posição econômica em que o Brasil se encontra para enfrentar a crise. Essa posição, segundo os ministros, é substancialmente mais sólida tanto do que a de outros países emergentes quando do que aquela na qual se encontrava o Brasil em crises econômicas anteriores - "muito mais brandas," fez questão de ressaltar Henrique Meirelles.

Isso se deve, segundo Dilma Rousseff, ao Brasil ter entrado num novo ciclo de desenvolvimento, no qual a estabilidade macroeconômica deixa de ser, como no modelo anterior, associada a uma desestruturação social e do Estado - enfraquecendo, inclusive, a idéia de meritocracia na função pública, conquistada pelos países desenvolvidos ainda no século XIX. A estabilidade macroeconômica foi mantida, mas agora aliada a uma política de desenvolvimento e fiscal consistentes, baseadas no consumo de massas e na integração de regiões e populações mais pobres à economia nacional. Os resultados disso, já foram colhidos na forma do crescimento de 5% ao ano desde 2004, mais de duas vezes superior ao do período anterior, dado importante para o enfrentamento da crise global.

Os ministros ressaltaram a gravidade da atual crise, que ainda não foi enfrentada de maneira adequada em seus pontos de origem nos EUA e na Europa, onde os governos ainda não sabem que solução tomar para a crise de crédito, que já contaminou a economia real. Longe de estar perto do fim, a crise se aproxima, segundo Meirelles, de sua "segunda rodada," com as falências dos governos mais frágeis, especialmente na Europa Oriental. Foram apresentadas as estatísticas relacionadas ao valor total de ativos dos grandes bancos mundiais - o caso mais dramático sendo o Citibank, que viu sua carteira passar de 250bn de dólares em 2007 para 8bn em 2009 - e a outros dados econômicos mundiais, como produção automotiva, evolução da produção industrial e do comércio internacional em 2008, e previsão de crescimento para os próximos anos. Nas palavras do ministro Mantega, "os economistas costumavam elaborar três cenários futuros, o bom, o ruim, e o neutro. Agora fazem o ruim, o péssimo, e o catastrófico."

Ainda segundo o ministro da Fazenda, porém, o Brasil "foi um dos últimos últimos países a sentir o impacto da crise, e será um dos primeiros a escapar dela." O desenvolvimento forte do mercado interno desde 2004 apresentado como o principal fator que explica esse relativo otimismo, aliado à solidez do mercado financeiro no Brasil, ressaltada pelo presidente do Banco Central. O governo mantém, além disso, instrumentos substanciais para induzir o desenvolvimento econômico e blindar o país contra a crise, aos quais outros governos não têm acesso, como o fato de 35% do crédito no país estar nas mãos de bancos públicos; foi ressaltada por todos os presentes a entrada da Caixa Econômica Federal como banco dedicado ao desenvolvimento - para além do crédito imobiliário. E o Brasil, ao contrário da maioria dos outros países, goza de autonomia alimentar e energética.

Todos os presentes afirmaram que as políticas sociais são, ao contrário do receituário que as teria como luxo com o qual o Estado pode ou não arcar, ferramentas contra a crise. Foram indicadas, junto com os investimentos em infraestrutura já programados no PAC, como os meios mais eficazes de garantir a continuidade do emprego e do crescimento; medidas de apoio à exportação pelo Banco Central foram mencionadas apenas rapidamente por Henrique Meirelles, já ao final de sua palestra. A habitação e o saneamento, em especial, foram apontadas como processos geradores de emprego e nos quais o investimento circula quase que inteiramente no interior do país, e especificamente no interior da região contemplada com as obras. 

O tom de otimismo em comum, às vezes quase triunfalista, não impediu algumas críticas recorrentes entre os ministros. Múcio e Mantega sublinharam a necessidade de se reduzir a taxa de juros do governo, e o primeiro declarou explicitamente que "ainda não é possível ver uma agenda ambiental sustentável para o Brasil" - as únicas referências ao meio ambiente nas falas dos outros participantes foram ao plano Amazônia Sustentável e ao projeto de transposição do Rio São Francisco, ambos alvos de pesadas críticas de movimentos ambientais. Não faltaram, tampouco, críticas ao imobilismo do setor privado, nem aos spreads bancários: tanto Mantega quanto Meirelles brincaram com o diretor do Bradesco, presente na platéia, que através de seu riso teria "confirmado a promessa" de diminuir os juros cobrados pelo banco.


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