Economia Política

Por que Trump?

O lançamento de uma guerra comercial contra a China e o México faria com que todos os cidadãos estadunidenses ficassem mais pobres.

20/10/2016 12:44

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Nas viagens que realizei pelo mundo todo, durante as últimas semanas, me pediram várias vezes para responder duas perguntas: é possível que Donald Trump vença as eleições à presidência dos Estados Unidos? E, em primeiro lugar: como sua candidatura chegou tão longe?
 
Sobre a primeira pergunta, apesar de que é mais difícil realizar uma previsão política que uma econômica, podemos dizer que o clima eleitoral mostra uma forte inclinação em favor de Hillary Clinton. Ainda assim, o fato de que ambos os concorrentes ainda se encontrem muito próximos um do outro nas pesquisas (ao menos nas mais recentes) tem sido um mistério: Hillary é uma das pessoas mais qualificadas e melhor preparadas que já se candidataram à presidência dos Estados Unidos, enquanto Trump é uma das menos qualificadas e pior preparadas. Mais que isso, a campanha de Trump sobreviveu a comportamentos, por parte do próprio Trump, que no passado significariam o fim das possibilidades de vitória de qualquer outro candidato.
 
Então, por que os estadunidenses querem brincar de roleta russa (com isto quero dizer que existe ao menos uma possibilidade entre seis de que Trump consiga uma vitória)? As pessoas que vivem fora dos Estados Unidos querem saber a resposta, já que o resultado também as afeta, apesar de que não terão influência sobre ele.
 
E isso nos leva a uma nova pergunta: por que o Partido Republicano nomeia um candidato que é rejeitado inclusive por seus próprios líderes?
 
Obviamente, existem muitos fatores que ajudaram Trump a derrotar os 16 rivais que competiram com ele nas primárias republicanas, permitindo que el chegue até este ponto. A personalidade dos candidatos tem sim muita importância, e algumas pessoas realmente se sentem atraídas pela personalidade de astro de televisão que Trump projeta.
 
Entretanto, vários fatores subjacentes também parecem ter contribuído para que os candidatos estejam próximos um do outro nas pesquisas. Para começar, muitos estadunidenses estão em situação economicamente pior do que estavam há um quarto de século. A renda média dos empregados homens que trabalham em jornada completa está num nível mais baixo do que o registrado há 42 anos atrás, e é cada vez mais difícil que as pessoas com educação limitada consigam um trabalho de tempo completo que pague salários dignos.
 
Na parte inferior da distribuição de renda, os salários reais (ajustados pela inflação) estão mais ou menos onde estavam há 60 anos. Portanto, não é surpreendente que Trump encontre um público numeroso e receptivo quando diz que a economia está podre. Contudo, Trump está errado com respeito ao seu diagnóstico e da receita proposta. A economia dos Estados Unidos vem tendo um bom desempenho, em seu conjunto, durante as últimas seis décadas: o PIB aumentou quase seis vezes. Porém, os frutos desse crescimento beneficiaram um número relativamente pequeno de pessoas, as que se encontram na parte superior da distribuição de renda – pessoas parecidas a Trump. Isto ocorre, em parte, graças aos cortes massivos de impostos, que Trump, caso vença o pleito de novembro, deve ampliar e reforçar.
 
Simultaneamente, as reformas que os líderes políticos prometeram que garantiriam prosperidade para todos – como a do comércio exterior e da liberalização financeira – não deram os resultados esperados. Aliás, deram um resultado absolutamente diferente. As pessoas cujo nível de vida se estancou ou caiu chegaram a uma conclusão simples: os líderes políticos dos Estados Unidos ou não sabiam o que estavam dizendo ou mentiram – ou ambas as opções são verdadeiras.
 
A partir dessa percepção, aparece Trump, querendo jogar a culpa de todos os problemas dos Estados Unidos no comércio exterior, e na imigração. Mas ele está, novamente, equivocado. Os Estados Unidos enfrentou a desindustrialização inclusive sem um comércio mais livre: o emprego mundial na indústria manufatureira vem diminuindo, com aumentos de produtividade superiores ao crescimento da demanda.
 
Quando os acordos comerciais fracassaram, não foi por culpa dos Estados Unidos foi menos esperto que os seus sócios comerciais, e sim porque os interesses corporativos foram os que deram forma à agenda de comércio exterior do país. As empresas estadunidenses fizeram as coisas bem, e foram os republicanos que bloquearam os esforços para garantir que os estadunidenses prejudicados pelos acordos comerciais recebessem os benefícios provenientes dos mesmos.
 
Consequentemente, muitos estadunidenses se sentiram golpeados por forças fora do seu controle, que levaram a resultados que são claramente injustos. Suposições de longa data – que os Estados Unidos são a terra das oportunidades e que cada geração terá melhores chances que a anterior – hoje são questionadas. A crise financeira mundial pode ter representado uma mudança de paradigma para muitos eleitores: seu governo salvou os banqueiros ricos que levaram os Estados Unidos a um passo da ruína, e aparentemente não fez nada para favorecer os milhões de cidadãos comuns que perderam seus empregos e suas moradias. O sistema não só produziu resultados injustos, como parece ter trabalhado conscientemente para produzir esses resultados injustos.
 
O apoio que Trump recebe se baseia, ao menos em parte, na ira generalizada derivada dessa perda de confiança no governo. Todavia, as políticas propostas do outsider republicano fariam que esta má situação atual possa se tornar ainda pior. Não há dúvidas de que a promessa de Trump, que não é mais que outra dose de economia do derrame – a tese de que “quanto mais cheio o prato dos ricos, mais derrama no prato dos pobres”, como alguma vez descreveu o ditador chileno Augusto Pinochet –, com reduções de impostos destinadas, quase em sua totalidade às corporações e aos estadunidenses ricos, produziria resultados que não seriam nada melhores que os obtidos da última vez que se tentou aplicar tais medidas.
 
Além disso, o lançamento de uma guerra comercial contra a China, o México e outros sócios comerciais estratégicos, outra promessa do candidato republicano, faria com que todos os cidadãos estadunidenses ficassem mais pobres, e criaria novos obstáculos à cooperação mundial necessária para enfrentar os problemas mundiais de maior gravidades, como o Estado Islâmico, o terrorismo mundial os problemas climáticos. Usar dinheiro que pode ser investido em tecnologia, educação ou infraestrutura para construir um muro entre os Estados Unidos e México seria uma façanha em termos de desperdício de recursos.
 
Há duas demandas populares que as elites políticas estadunidenses devem escutar. As simplistas teorias neoliberais e de fundamentalismo de mercado, que deram forma a muitas das políticas econômicas durante as últimas quatro décadas, são gravemente desorientadoras, já que conduzem a um crescimento do PIB que tem, como preço a ser pago, uma desmesurada elevação da desigualdade. La economia do derrame nunca funcionou e nunca funcionará. Os mercados não podem existir em meio ao vácuo. A “revolução” Thatcher-Reagan, que reescreveu as regras e reestruturou os mercados em benefício daqueles da parte superior da distribuição da renda, teve muito sucesso em aumentar a desigualdade, mas fracassou completamente em sua missão de aumentar o crescimento.
 
Isto nos leva à segunda demanda: uma vez mais, temos que reescrever as regras da economia, desta vez para defender os cidadãos comuns, para que as pessoas se beneficiem. Os políticos estadunidenses e do resto do mundo, que ignoram esta lição, devem ser responsabilizados. As mudanças implicam um risco, porém, o fenômeno Trump – e uma quantidade nada desprezível de fenômenos políticos similares na Europa – expõe os riscos ainda maiores de não prestar atenção a esta percepção da cidadania: sociedades divididas, democracias soterradas e economias debilitadas.
 
* Joseph E. Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001, professor da Universidade de Columbia e economista chefe do Instituto Roosevelt.
 
Tradução: Victor Farinelli



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