Economia Política

Por que as pessoas comuns suportam riscos econômicos e Donald Trump não

A falência foi planejada para que as pessoas pudessem recomeçar. Mas, hoje, nos EUA, os únicos a começar de novo são as grandes corporações e os ricos.

30/09/2014 00:00

Arquivo

Créditos da foto: Arquivo


Trinta anos atrás, no dia da inauguração, Donald Trump vestia um casaco escuro no Casino de Atlantic City, Trump Plaza, comemorando seu novo investimento como o mais belo edifício de Atlantic City e provavelmente do país.

Na semana passada, Donald Trump cessava sua atividade e o Trump Taj Mahal decretava falência, deixando mil trabalhadores sem emprego.

Trump, porém, declarava no Twitter que ele “não tinha nada a ver com Atlantic City”, e se vangloriava por sua “maravilhosa gestão do tempo” ao deixar o investimento.

Nos Estados Unidos, as pessoas com muito dinheiro podem facilmente evitar as consequências de más apostas e de grandes perdas com a retirada do dinheiro antes do primeiro indício de problema.

As leis os protegem por meio da responsabilidade limitada e da falência.

Mas os trabalhadores que se mudaram para um lugar como Atlantic City pelo trabalho, que investiram em suas casas ali e que se formaram não têm proteção semelhante. O trabalho se desvanece, as habilidades se tornam irrelevantes repentinamente e o valor das residências despencou.

A falência foi planejada para que as pessoas pudessem recomeçar. Mas, atualmente, os únicos a começar de novo são as grandes corporações, os ricos magnatas e Wall Street.

As corporações, inclusive, usam a bancarrota para romper os contratos de seus empregados. Quando a American Airlines foi à falência há três anos, esvaziou seus acordos trabalhistas e congelou os planos de pensão de seus empregados.

Quando saiu da bancarrota no ano passado e se fundiu com a U.S. Airways, seus credores foram pagos inteiramente, seus acionistas saíram mais ricos do que entraram e seu Conselho Delegado conseguiu uma indenização de 19,9 milhões de dólares. Os antigos trabalhadores da American Airlines foram enganados.

Wall Street também não se preocupa com o fracasso. Basta recordar que Wall Street quase quebrou seis anos atrás ao arriscar centenas de bilhões de dólares em más apostas. Um generoso resgate do governo federal manteve os banqueiros a salvo e, desde então, muitos dos habitantes do bairro financeiro se saíram muito bem.

Entretanto, até agora, mais de 4 milhões de famílias norte-americanas perderam suas casas. Foram prejudicadas com os excessos de Wall Street. Não tinham nem ideia de que a bolha imobiliária estouraria e não leram as letras pequenas das hipotecas que os bancos lhes vendeu. Não tiveram o direito de decretar falência e de preservar seus lares.

Quando alguns membros do Congresso tentaram discutir a lei para permitir o uso da falência pelos proprietários das casas, a indústria financeira bloqueou o projeto.

Também não existe um recomeçar para as milhares de pessoas que arcam com uma dívida de estudantes. A dívida de empréstimos estudantis dobrou desde 2006 de 509 bilhões de dólares para 1,3 trilhão. Agora, contabiliza 40% das dívidas pessoais, mais do que as dívidas de cartão de crédito ou prestações de automóveis.

Mas a lei da falência não cobre dívidas estudantis. A indústria de empréstimos para estudantes assegurou que não o fizesse. Se os ex-estudantes não conseguem quitar suas dívidas, os credores podem embargar seus salários. Alguns devedores encontraram, justamente antes do momento de suas aposentadorias, valores debitados de sua seguridade social.

A única maneira de os devedores reduzirem as cargas de sua dívida é demonstrar em uma demanda separada que o reembolso de tal dívida suporia um peso excessivo sobre eles e seus dependentes.

Um padrão mais rígido do que os tribunais de falência aplicam com os jogadores que tentam reduzir duas dívidas de jogo.

Poderiam dizer que aqueles que não podem pagar suas dívidas estudantis não deveriam tê-las contraído. Mas não tinham como supor o mal em que o mercado de trabalho acabaria. Alguns não sabiam que os diplomas que receberam de suas universidades com sede de lucro não valiam nem o papel no qual foram inscritos.

Uma alternativa melhor teria sido permitir que os estudantes fossem à falência quando os termos dos empréstimos não fossem razoáveis (incluindo taxas de juros de dígito duplo, por exemplo), ou que os empréstimos fossem feitos para acudir escolas cujos graduados têm taxas baixas de empregabilidade após a graduação.

As economias são arriscadas. Algumas indústrias crescem e outras implodem, como a imobiliária. Alguns lugares enriquecem e outros ficam para trás, como Atlantic City. Algumas pessoas conseguem novos trabalhos que pagam mais e muitas perdem seus trabalhos e salários.

A questão básica é quem deveria arcar com esses riscos. À medida que a lei protege os grandes investidores e coloca em risco as pessoas comuns, os investidores continuaram fazendo grandes apostas que lhes proporcionem grandes prêmios quando ganham, mas que criam perdas para o resto.

As pessoas comuns precisam de mais oportunidades de recomeço. As grandes corporações, os bancos e Donald Trump precisam menos.

(*) Robert B. Reich é reitor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia em Berkeley e Pesquisador Sênior no Blum Center de Economias em Desenvolvimento. Foi Secretário de Trabalho da administração Clinton. A revista Time lhe nomeou um dos Secretários de Gabinete mais influentes do século XX. Escreveu treze livros, incluindo os best-sellers “Aftershock” e “The Work of Nations”. Seu último livro, "Beyond Outrage” acaba de ser publicado em versão pocket. Também é editor e fundador da revista American Prospect e presidente da “Common Cause”. Seu novo filme “Inequality for All” está disponível na plataforma Netflix, iTunes, DVD e sob demanda.

Tradução: Daniella Cambaúva





Conteúdo Relacionado