Economia Política

Por que são os ricos que têm que pagar a saída da crise

 

27/05/2020 21:57

 

 
A crise atual está ajudando a colocar a questão da desigualdade e da justiça tributária, mais do que nunca, no centro do debate público.

Sejamos claros: a questão não é imediata. O restabelecimento do imposto sobre a fortuna, fortalecimento da progressividade tributária, imposto excepcional sobre a renda e / ou a riqueza dos mais ricos... Nada disso é, a rigor, essencial para apoiar a renda das famílias e empresas envolvidas no coração da crise.

Neste ano, este apoio vira, principalmente, do déficit orçamentário, financiado a taxas de juros baixas, graças à criação monetária massiva realizada pelo banco central. E está tudo bem de ser assim.

Justiça tributária para um mundo mais pobre

O fortalecimento da justiça tributária é, no entanto, essencial para se ter sucesso na saída da crise. Depois de perder 10% de nossa riqueza nacional [francesa] de uma só vez, muito provavelmente teremos que viver por vários anos em um mundo em que, coletivamente, seremos mais pobres do que antes.

No entanto, apesar disso, será necessário não apenas manter, mas aumentar a ação pública (enquanto melhora sua eficiência). A crise mostrou, com clareza, sua insuficiência na saúde, mas também em termos de redes de segurança social: elas se revelaram cheias de falhas para serem corrigidas com urgência para jovens, trabalhadores por conta própria …

Também devemos corrigir as velhas deficiências do sistema educacional, da política habitacional, as desigualdades territoriais que se ampliaram… enquanto intensificamos os esforços para combater as mudanças climáticas e acelerar a conversão ecológica de nossas economias.

Em outras palavras: após a crise, não há dúvida, não podemos ir no caminho de restaurar gradualmente os equilíbrios orçamentários, buscando, prioritariamente, reduzir os gastos públicos, além do jogo espontâneo de "estabilizadores automáticos". Pelo contrário, devem ser envidados esforços para o fazer, sobretudo elevando as receitas ao nível necessário.

E esse esforço deve imperativamente ser (muito) desigualmente distribuído e focar acima de tudo nos mais ricos. Por várias décadas, estes últimos aproveitaram a pressão exercida pelos paraísos fiscais para reduzir significativamente, na França e em outros lugares, a progressividade do imposto.

Se não fizermos isso, não conseguiremos reunir a maioria da população para desenvolver ações públicas em um nível suficiente após a crise. E o neoliberalismo continuará, até acelerará seus danos sanitários, sociais, ambientais … e econômicos. Pois não podemos avançar nos negócios com uma força de trabalho com pouca educação e com problemas de saúde, em um contexto em que os conflitos sociais estão se multiplicam e o ambiente se deteriora.

*Publicado originalmente em 'Alternatives Economiques' | Tradução de César Locatelli

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