Economia Política

Pós-pandemia: cenários e tarefas

 

04/06/2020 12:54

 

 
A crise generalizada que a pandemia tem provocado em todos os cantos do planeta é bastante grave. Além da trágica dimensão humana e sanitária, o fenômeno apresenta também efeitos severos sobre a dinâmica da economia. Os diferentes ritmos de superação dos impactos recessivos têm sido determinados pela capacidade de os países terem obtido maior ou menor grau de sucesso nas respectivas estratégias de combate ao covid 19.

A julgarmos pela leitura das manchetes e matérias dos meios de comunicação durante o primeiro bimestre do ano, estaríamos diante de uma epidemia de natureza e localização eminentemente “chinesas”, com poucas possibilidades de avançar em direção ao chamado mundo ocidental - desenvolvido ou não. No entanto, em razão da subestimação apresentada por líderes políticos, como Trump e Bolsonaro, e da timidez na adoção das medidas duras necessárias por parte de outros tantos, o fato é que o crescimento da contaminação deu-se em nível exponencial e explosivo por todos os cantos do planeta.

A China manteve uma postura bastante rígida visando a contenção dos focos iniciais da doença em seu território e obteve, assim, resultados bastante satisfatórios em termos de evitar perdas humanas e de conseguir retomar a atividade econômica logo na sequência. Essa é uma das razões para as estimativas de que o país asiático, muito provavelmente, chegará ao final da pandemia muito mais próximo da capacidade da economia norte-americana. A distância entre ambos fica cada dia menor.

Recessão global e saídas nacionais.

A profundidade da crise nos Estados Unidos deverá provocar efeitos recessivos sobre a sua economia, para além dos números brutais de mortes em sua população. A economia europeia também deverá apresentar um resultado negativo em seu desempenho. Assim, o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou em abril suas análises, reportando uma estimativa de queda no PIB global da ordem de 3% para o ano de 2020.

Frente a tal quadro de redução generalizada do ritmo de atividade, cabe aos dirigentes dos países estabelecerem suas estratégias para enfrentamento da crise, bem como definirem as alternativas para o período pós pandemia. Em geral, esse tipo de conjuntura leva a uma redução do grau de abertura das economias nacionais, com a adoção de algum tipo de protecionismo. Afinal, trata-se de proteger os empregos em suas respectivas sociedades e de fortalecer as próprias empresas nacionais para enfrentarem com maior capacidade o período que virá na sequência. Todo mundo quer exportar e adotam-se medidas de restrição às importações.

Pois aqui em nossas terras, corremos o risco de perdermos ainda mais tempo nessa corrida pelo restabelecimento de condições mínimas de sobrevivência - a Nação, seus cidadãos e nossas empresas. Não bastasse o completo despreparo de Bolsonaro & Guedes para oferecer ao país um plano de enfrentamento da crise, começam a pipocar aqui e acolá algumas sugestões e palpites que só contribuirão para agravar os efeitos arrasadores da crise - aqueles que já estão presentes e os que estão a caminho.

As conhecidas carpideiras do pós neoliberalismo tupiniquim começam a lamentar o surgimento de propostas necessárias para o momento atual e para a definição da estratégia do período posterior à pandemia. Assim, elas voltam suas baterias contra as medidas de flexibilização necessária da austeridade fiscal burra e cega, tão levada a sério por aqui ao longo dos últimos governos.

Viúvas do neoliberalismo ainda resistem.

Os defensores dos interesses do financismo não abandonam o mantra contra o aumento do endividamento, mesmo em uma situação tão crítica como a atual. Já alertam para os riscos de uma elevação na sacrossanta relação dívida/PIB, vista por eles como um mandamento de natureza mais do que religiosa. Algo como um “Não gastarás!”. Só não avisam os interlocutores de que a absoluta maioria dos países do próprio mundo capitalista estão exatamente nessa estratégia para defender as respectivas economias. Os formuladores das políticas econômicas por lá perceberam que, sem elevação o gasto público nesse momento de retração, não há saída. Alguns por aqui chegam ao absurdo de estabelecer um limite do intransponível para o grau de endividamento público em relação ao PIB. Dizem com toda a segurança, do alto de seus modelitos de planilha, que esse índice não deverá ser superior a 0,7. Seria cômico se não fosse trágico.

Por outro lado, morrem de medo da conversão de alguns de seus quadros às novidades apresentadas pela corrente da “Teoria Monetária Moderna”. Para esses economistas críticos da austeridade, não há problema algum se o governo resolver aumentar a emissão de moeda ou elevar a dívida pública para injetar os recursos necessários para recuperação da atividade econômica. Mas os ortodoxos se horripilam a tamanha heresia!

Outros “especialistas” começam a alertar para aquilo que chamam de “riscos do protecionismo”. E dá-lhe recuperar o discurso liberaloide das vantagens da abertura comercial e dos malefícios associados às necessárias medidas de proteção da indústria nacional. Ora, em face de um quadro de tanta devastação da capacidade produtiva e diante de países que certamente sairão da crise antes de nós, a manutenção do atual grau de abertura comercial é um verdadeiro crime de lesa pátria. Essa obstinação entreguista deverá promover um aprofundamento do nosso grau de dependência frente a insumos e produtos manufaturados importados. A persistência nesse modelo neocolonial de exportação de “commodities” de baixo valor agregado e de importação de bens de alto valor agregado não oferece nenhuma perspectiva de superação de nossas dificuldades.

Outro tema tão caro a esse pessoal do mundo da finança refere-se à privatização. Não descansarão enquanto não virem Paulo Guedes colocando à venda empresas estatais como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Petrobrás e outras. Afinal, eles apostaram todas as suas fichas na eleição de Bolsonaro em outubro de 2018, justamente contando com a presença de um banqueiro de sua absoluta confiança no comando da economia. Na direção contrária do que está ocorrendo nos demais países do próprio centro do capitalismo, nossas elites querem se aproveitar desse momento de dificuldade geral para passar a “boiada”, de acordo com a imagem usada pelo Ministro do Meio Ambiente em reunião do Conselho, em que ele não imaginava estar sendo gravado e muito menos divulgado.

Com Bolsonaro & Guedes não há saída.

Manter o processo de privatização em uma conjuntura recessiva é a pior das alternativas, mesmo para quem se pretende conservador na economia. Em razão da recessão, os preços dos ativos estão na bacia das almas. Os recursos a serem obtidos pelos cofres públicos serão mínimos frente ao valor patrimonial efetivo das empresas. Só ganharão os de sempre: os conglomerados internacionais, os grandes investidores e os especuladores do mercado financeiro. E o resultado futuro da operação é também de absoluta incerteza. Estão aí para sugerir cautela os casos da devolução dos aeroportos privatizados e a situação dramática da Embraer após a compra recusada pela Boeing.

Finalmente, os lamentadores de sempre miram seus canhões contra o suposto descontrole das medidas de apoio aos setores desprotegidos, tão carentes de apoio público nesse momento de crise. É interessante observar que não registraram nenhuma reclamação quando Paulo Guedes ofereceu R$ 1,2 trilhão aos bancos, logo no início da crise. Mas bradam coléricos quando se oferece a módica quantia de R$ 600 mensais às famílias desprotegidas ou algumas poucas facilidades tributárias e creditícias às micro e pequenas empresas.

As tarefas colocadas para as forças progressistas implicam na mudança desse governo. Enquanto o nosso país for comandado pela duplinha dinâmica de Bolsonaro & Guedes, não haverá espaço para a implementação das mudanças tão necessárias. Infelizmente, a pandemia vai avançando a passos largos por aqui, enquanto o Presidente da República mantém suas saídas cotidianas no espaço público de forma irresponsável. A recuperação do ritmo de atividade econômica, em um projeto de desenvolvimento sustentável, pressupõe um novo modelo - antagônico ao que pretende o “old chicago boy”.

Enfim, não tem mesmo jeito. Sem mudança de governo, nosso futuro fica cada dia mais comprometido.

Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal



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