Economia Política

Presidente Lula, boa sorte na conversa com os bancos!

Pandemia se acelera e Banco Central sobe os juros

21/03/2021 16:23

Situação na estação Sé, do Metrô, ainda na fase vermelha, quando a situação de contaminação pela covid-19 já era bastante grave. Reprodução redebrasilatual.com.br

Créditos da foto: Situação na estação Sé, do Metrô, ainda na fase vermelha, quando a situação de contaminação pela covid-19 já era bastante grave. Reprodução redebrasilatual.com.br

 

Ao ver a defesa do aumento da taxa básica de juros, de 2% para 2,75%, por aqueles que conseguem espaço nos meios de comunicação tradicionais, lembrei-me da série televisiva “Guerra, Sombra e Água Fresca”. Um grupo de militares presos pelos alemães na Segunda Guerra que se divertiam em pregar peças em seus carcereiros e ter uma vida de sombra e água fresca no meio de uma guerra sangrenta. Era uma comédia, uma ficção, que não perdia a chance de reforçar a inigualável esperteza dos norte-americanos.

Infelizmente, na vida real, há uma contradição em termos no título da série. Guerra não tem nada de sombra e água fresca. E a pandemia é uma guerra. Tem algo profundamente errado com aqueles que achan que quase 3 mil mortos ao dia (por enquanto) significam business as usual. O Banco Central parece estar entre eles, assim como os demais defensores, alguns inesperados, da “paulada na taxa Selic”. Pode ser que a guerra seja dos “outros”, enquanto tocam a vida em sombra e água fresca. Aliás a dita paulada foi de 37,5%, o aumento de 2% para 2,75 dá 37,5% de aumento no custo da parte da dívida do governo carregada em operações compromissadas, cerca de 1 trilhão e 200 mil reais.

Na guerra, dane-se a inflação de 2022, dane-se o equilíbrio fiscal, ou não é guerra, é um problema menor. Seja dito de passagem que a visão, amplamente aceita hoje em dia, mais correta sobre o assunto mostra que o endividamento público nunca foi um problema em si. No entanto, nem mesmo essa discussão cabe nesse momento.

O que se deve discutir é se a pandemia no Brasil é uma questão menor. Talvez os economistas que apoiaram a elevação da taxa de juros achem mesmo que não estamos numa guerra. Querem discutir “os efeitos secundários de choques exógenos de preços”, quando uma de cada quatro pessoas mortas pela Covid no mundo é brasileira, 25% das mortes da semana encerrada em 18/3 aconteceram no Brasil. Vamos falar que o que importa é a estabilização da taxa de câmbio? Que “os riscos para a dinâmica da dívida pública aumentarão”?

Queria muito concordar que “a economia ainda está se recuperando da pandemia”. Mas o número de novos casos e mortos pela Covid, no momento mais grave da pandemia no Brasil, não me permite. Poderiam me explicar como a economia vai se recuperar se as pessoas estão morrendo a taxas nunca vistas no país?

A relação com os juros é evidente: o efeito mais potente, talvez o único, do aumento da taxa Selic é sobre as expectativas. A atividade econômica, via decisões dos consumidores e dos empresários, da mesma forma depende fundamentalmente das expectativas. Não há como dizer que uma “paulada” nos juros não se desdobrará em desincentivo adicional (como se a própria crise em curso já não bastasse para tanto) nas expectativas a futuro e nas decisões empresariais e de consumidores hoje e nos próximos momentos.

Atividade menor significa menos emprego, menor possibilidade de distanciamento, de quarentena. Junte-se um auxílio emergencial absolutamente insuficiente e teremos mais gente se expondo, mais contágio. E o ciclo se retroalimenta.

Chomsky disse mais de uma vez que o principal dano causado por Trump era o mau exemplo. A elevação dos juros, no mínimo, é mau exemplo.

Subir a taxa de juros passa a mensagem de atividade econômica quente, de que tudo está quase normal, em recuperação. E é óbvio que isso resulta em menor cuidado com o contágio. Aliás, pior ainda do que defender juros mais altos, é a ladainha que o auxílio emergencial no ano passado foi acima do necessário.

“A resposta fiscal à pandemia foi maior do que o estritamente necessário para a proteção dos vulneráveis”, diz o economista-chefe de um grande banco brasileiro. Provavelmente, deve imaginar que foram as orações que fizeram o PIB brasileiro cair metade, em 2020, do que era previsto, inclusive pelo FMI. O único acerto desse legislativo, conivente com o executivo desgovernado, é veementemente criticado, foi pecado mortal ajudar as pessoas a ficarem em casa.

Seria muito interessante se alguns desses economistas pudessem sair da caverna para ver o que fazem outros países. Certamente não se dão conta, ao defenderem mais juros, a manutenção do teto de gastos, a PEC emergencial “para reforçar a ancoragem nominal”, que estão lá no fundão da caverna.

Mais ainda, não podem deixar passar a oportunidade de começar a pressão sobre o próximo presidente. A instabilidade do mercado nas últimas semanas, na taxa de câmbio e nos juros de longo prazo, deveu-se ao debate sobre a PEC emergencial ao “flertar com a completa desfiguração do teto de gastos”, diz o economista. “Espera-se que esse aprendizado possa ser incorporado no debate eleitoral”.

Nem bem nos acostumamos com a ideia de que o presidente Lula teve seus direitos políticos restabelecidos, a pressão já começou, aceleradamente, para o nome do ministro da economia agradar o fantasmático “mercado”.

O Relatório Reservado, tradicional boletim diário muito lido entre operadores do mercado financeiro, de terça 16/3, já dá os concorrentes “a ministro da economia de Lula”. Em sua opinião, despontam na corrida: Mônica de Bolle, Marcos Lisboa, Armínio Fraga e André Lara Resende. O boletim dá Lisboa como o mais oferecido, “só faltou mandar currículo”, afirma.

Talvez mais do que wishful thinking, uma crença baseada no que lhes agrada imaginar, a lista seja uma descarada pressão para que apoios eventuais ao ex-presidente sejam condicionados à assinatura de uma “Carta ao Brasileiros” versão 2022, ou como aponta o próprio boletim: “seja quem for o ministro de Lula, o objetivo é que ele acene para o mercado, tranquilizando-o”.

A curva de juros importa, a de mortes não.

Boa sorte, presidente Lula!

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