Economia Política

Qualificar politicamente a integração regional para enfrentar a crise

06/03/2009 00:00

Eduardo Seidl

Créditos da foto: Eduardo Seidl
BRASÍLIA - A sessão especial sobre integração latinoamericana do Seminário Internacional sobre Desenvolvimento do CDES revelou uma unanimidade entre os palestrantes. A necessidade do aprofundamento da integração regional e das instituições existentes não bastam nem sequer seriam apropriadas para essa maior integração.

Primeiro palestrante da noite, o economista argentino Jorge Beinstein, professor da Universidade de Buenos Aires, começou por destacar a velocidade com a qual se desenrola a atual crise. Segundo ele, “algo que caracteriza estes meses de fevereiro e março é uma transição muito rápida – alguns chamam de 'turbocrise' – da recessão à depressão.” E acompanhada dessa transição, há, segundo Beinstein, uma transição nas percepções, da subestimação da crise a um pessimismo que ele chamou de “depressão psicológica,” exemplificado por um relatório da Marinha norte-americana que prevê uma queda de 30% no PIB dos EUA até 2012.

Se em 2007 os que falavam em crise eram desconsiderados, agora gente ligada ao presidente norte-americano, Barack Obama, já diz que a crise é pior do que a crise de 29, o que indicaria não haver, no horizonte histórico do capitalismo, nenhuma referência parecida. Assim é que o financista George Soros, ao falar do atual momento, disse que lhe lembra o fim da União Soviética, mais do que uma simples crise econômica. Não se trata de recessão ou depressão econômica, mas um fim, uma implosão do sistema. Tanto nos EUA como na Europa, segundo Beinstein, ainda prevalece entretanto o entendimento da crise como uma crise financeira, produto apenas do desgoverno da era Bush e que poderia ser enfrentada só com transferências maciças de dinheiro ao setor financeiro.

As verdadeiras respostas à crise, porém, estariam na esfera regional. No NAFTA, na UE, com muita força e importância na esfera eurasiática, e finalmente no Mercosul. Este, que já tem avançado na reestruturação do estado destruído durante o período neoliberal, deve ir além do Estado para enfrentar a crise: a resposta estaria na recriação da economia popular, não apenas das pequenas e microempresas, mas também de grandes empresas levadas ao controle democrático, estatal ou de autogestão.

Já Gerardo Caetano, concordando com a avaliação do enfrentamento regional e da mudança de paradigma de intervenção estatal, pontuou por outro lado a inviabilidade da integração regional se valendo das instituições presentes do Mercosul e da Unasul. O protecionismo em relação aos vizinhos, a tentativa de atribuir os problemas ao Mercosul, segundo ele, se aliam à tentação do bilateralismo, de buscar no Norte global uma aliança mais estreita. O exemplo citado foi o do Uruguai, que em 2006 esteve próximo de assinar um tratado de livre comércio com os EUA, cedendo em quase todas as exigências feitas por estes.

E essa integração em outros moldes, proposta por todos, não pode se dar, frisou Caetano, nem ambicionando o curto prazo, nem em bases personalistas, como quer a Venezuela. Precisa, por isso, de uma agenda comum, que poderia ser a exploração conjunta dos recursos latino-americanos – energéticos, agrícolas, minerais, biodiversidade – de modo a se inserir conjuntamente no mundo.

Essa inserção, segundo o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia, vem sido perseguida no atual governo, que segundo ele, apesar de fortes resistências no Brasil, em especial na mídia, teria feito uma opção preferencial pelas relações com a América Latina, sem descuidar mas sem priorizar as relações com EUA, Europa e Japão – opção que as circunstâncias econômicas atuais das potências centrais provaram acertada, como o foi a não-assinatura do tratado de livre comércio EUA-Uruguai denunciado por Caetano.

É devido a essa busca de uma integração para além do comércio, recomendada por todos os palestrantes, que, segundo Marco Aurélio Garcia, surgiu a Unasul. Países que desejavam juntar-se ao Mercosul pelo que ele significa em termos de integração regional, tanto em termos de infraestrutura física quanto de políticas comuns ambientais, políticas ou de defesa, estavam barrados pelas regras da área de livre comércio de fazê-lo. Citou passos importantes no sentido da integração regional, como a criação de um espaço para buscar uma política de defesa e social comum, ou a atuação da Unasul para ajudar na estabilização da situação boliviana, e encerrou citando o presidente Lula quando este disse “É chegada a hora da política,” para esclarecer: uma política baseada na integração regional, no que chama de um regional-desenvolvimentismo, buscando se contrapor ao nacional-desenvolvimentismo, e resolvendo disparidades entre e no seio de cada nação latino-americana.

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