Economia Política

Raúl Prebisch teria muito a dizer sobre a crise financeira atual, diz biógrafo canadense

17/08/2011 00:00

Marcel Gomes

SÃO PAULO - Quando liberais defendiam que a Argentina deveria focar em sua vocação agrícola para continuar sendo uma das nações mais ricas do mundo, nos anos 20 do século passado, Raúl Prebisch era voz dissonante. O maior economista argentino da história, parceiro de Celso Furtado, pregava o fortalecimento do papel do Estado e de sua função de organizador do desenvolvimento. Desde então, desconfiava do quão sustentável seria uma economia voltada à exportação de commodities, enquanto os países do Norte investiam em indústria e inovação. Surgiriam ali idéias que mais tarde moldaram temas-chave do mundo no pós-guerra, como multilateralismo, relações centro-periferia, Terceiro Mundo e pacto global - todos desenvolvidos pelo argentino na Cepal.

"A obra de Prebisch abrange teoria, criação de instituições e diplomacia. Ele pode ser adequadamente descrito como o John Maynard Keynes latino-americano. Ainda que as diferenças não sejam poucas, ambos possuem semelhanças notórias em seus trabalhos. Os dois lideraram uma revolução conceitual de alcance global em teoria econômica, conduzida junto a um time excepcional de economistas a partir de Cambridge, Oxford e Santiago. Ambos tiveram o raro dom de combinar teoria e prática, com um talento especial em comunicar com simplicidade idéias complexas", disse o cientista político canadense Edgar L. Dosman, na conferência de lançamento da versão em português de seu livro, "Raúl Prebisch (1901-1986) - A construção da América Latina e do Terceiro Mundo" (Centro Internacional Celso Furtado e Editora Contraponto, 656 páginas), na noite desta terça-feira (16), em São Paulo.

Professor da York University, em Toronto, Dosman afirma que Prebisch, apesar de esquecido nas escolas de economia, deixou sua marca no pensamento contemporâneo. Políticas em prol da diversificação das exportações, da criação de valor agregado e da integração regional, hoje aceitas como senso comum, foram lançadas pelo economista argentino. Se por um lado Dosman admite que "Prebisch foi um homem de seu tempo", "muitas de suas propostas seriam inaplicáveis hoje" e "ele não poderia prever a ascensão da China e o declínio da inovação na América do Norte", por outro ele teria legado "orientações básicas que continuam válidas como ponto de partida para um novo pensamento sobre desenvolvimento necessário à transformação global".

"É uma obra que serve de advertência para abordagens simplistas da economia internacional e para o perigo de se não aprender nada com os erros. Alguém duvida que Wall Street, americanos e europeus não aprenderam nada com a crise de 2008, e seguem agindo com irresponsabilidade política?", questinou o biógrafo. Para ele, o legado de Prebisch passa por diversos aspectos, desde o desenvolvimento da idéia de necessidade de uma governança internacional até a defesa da economia como uma ciência acadêmica e complexa. Dosman cita ainda noções como a da vulnerabilidade permanente e formas de combatê-la, como um Estado forte capaz de promover políticas anticíclicas e prevenir a desisdustrialização (alguma semelhança com o Brasil de hoje?), ou ainda a importância da complementaridade entre Estado e mercado, na qual o primeiro poderia definir metas, mas sem sufocar o dinamismo do setor privado.

Distante do marxismo mais puro, Prebisch rejeitava tanto o modelo soviético quanto o liberalismo tacanho. "Era um moderado incompreendido", brinca o canadense, reforçando o esquecimento que paira sobre o argentino nos bancos das universidades. "É que ele tinha pouca paciência com a ideologia disfarçada de verdade. Jamais se enganou com o boom das commodities nos anos 70, e nem com a euforia neoliberal de Reagan e Thatcher nos anos 80", pontuou. Prebisch acreditava, mesmo, que a moeda do comércio internacional era o poder. Para mudar as regras do jogo entre centro e periferia, era necessário que países não desenvolvidos negociacem no mesmo nível dos mais ricos - só possível com o fortalecimento da governança regional e internacional. "Foi um visionário dos blocos regionais, que deveriam ser criados para participar de fóruns globais. Ajudou a formar o Grupo dos 77 e a configurar a Uctad, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento", disse Dosman.

Além de uma imersão na obra de Prebisch, o livro oferece também detalhes sobre a vida particular do economista. A infância empobrecida o marcou profundamente, assim como a desigualdade socioeconômica na Argentina. Ele não podia aceitar que um país rico como aquele, com uma renda per capita comparável a dos Estados Unidos, poderia manter suas populações indígenas ainda exploradas. Em 1943, ano de um golpe militar, Prebisch foi demitido do governo e, cinco anos depois, já sob a administração de Juan Domingo Perón, obrigado a exilar-se em Santiago, onde iniciou sua colaboração na Cepal. O economista argentino só voltaria definitivamente a seu país natal décadas depois, em 1984, sob o mandato de Raul Alsonsín, quando os civis já haviam retomado o poder dos militares.


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