Economia Política

Recessão extrema de direita

 

04/09/2020 13:13

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Conforme já era mais do que esperado, o mês de setembro começou com a notícia veiculada pelo IBGE de que o PIB sofreu forte queda de -9,7% no 2º trimestre de 2020, ante o trimestre imediatamente anterior. Quando comparado ao mesmo período do ano passado, a redução é ainda mais acentuada, na ordem de -11,4%. Diante do recuo de -2,5% no primeiro trimestre, o PIB apresenta uma queda acumulada de -5,9% na primeira metade do ano, ao ser cotejado a igual período de 2019. Como é a segunda retração sucessiva no PIB trimestral, convenciona-se tecnicamente classificar que o Brasil passa por uma nova recessão, algo que não ocorria desde o 3º e 4º trimestres de 2016 no governo Temer.

Dentre os componentes da demanda, o consumo das famílias e os investimentos foram os que registraram maior diminuição, de -12,5% e -15,4%, respectivamente. Um dos motivos que explica a queda do consumo é o alto nível da taxa de desemprego, na ordem de 13,3% em junho, sendo que 8,9 milhões de pessoas perderam seus empregos no segundo trimestre. Somada ao contingente de 5,7 milhões de indivíduos em situação de desalento (5,6% da população), chega-se a um montante de 18,9% da população que está desocupada, sem oportunidades no mercado de trabalho. O auxílio emergencial concedido pelo governo federal de R$ 600,00 (valor garantido pelo congresso, já que o governo ofereceu inicialmente apenas R$ 200,00) a cerca de 66 milhões de pessoas amenizou o efeito recessivo sobre o consumo, que poderia ter sido ainda maior sem essa política de renda.

Dado esse quadro, houve uma retração forte na demanda de bens de consumo duráveis em junho, que provocou uma redução de cerca de 35% na produção desses bens, contra 9,1% na indústria em geral. A produção de bens de capital, cuja demanda é fortemente atrelada aos investimentos empresariais, caiu 22% em igual período. Por essa razão, o investimento também reduziu em termos de participação do PIB, para 15%, percentual baixo para incentivar a retomada do crescimento econômico. Analisando o PIB setorial do segundo trimestre de 2020, frente ao mesmo período do ano anterior, o comércio registrou queda de -14,1%, a indústria de -20%, e outras atividades de serviços de -23,6%. Por outro lado, o setor financeiro obteve taxa de crescimento no 2º trimestre de 2020, tanto quando cotejado com o 1º trimestre do mesmo ano (0,8%), como com igual trimestre do ano anterior (3,6%). Como bem aponta o professor Uallace Moreira, da UFBA, é por esse motivo que os lucros do setor bancário seguem elevados, mesmo em plena crise econômica com a pandemia.

O forte recrudescimento na atividade econômica, culminando na grave depressão vigente, é explicado, sobretudo, pelos consecutivos erros e omissões cometidos pelo governo federal no combate à pandemia desde março (não obstante tendo decretado estado de calamidade pública), seja na falta de articulação nas medidas de distanciamento social com os governos estaduais e municipais, restando a estes adotarem isoladamente ações descoordenadas, seja na carência de investimentos em instalações (UTI´s), compras de equipamentos (respiradores), testes (e seus insumos) e material hospitalar nos postos e hospitais existentes ou nas unidades provisórias de campanha, com baixíssimo nível de testagem e consequentemente, de controle do avanço do vírus.

Esse descalabro nas medidas de contenção da pandemia pela área da saúde impactou negativamente em outras áreas, como educação (fechamento das escolas e creches) e economia, cujos efeitos já foram relatados acima. Concomitantemente, faltou também à pasta do Ministério da Economia um conjunto de ações que pudessem pelo menos amenizar as sequelas provocadas sobre a produção, emprego e renda. No caso do auxílio emergencial, registrou-se atraso e elevada burocracia na concessão desse benefício, ocasionando aglomerações através de enormes filas nas agências bancárias e lotéricas, o que vai de encontro inclusive à necessidade de conter a contaminação da COVID-19. Tanto os recursos concedidos aos estados e municípios, quando as ações voltadas à concessão de crédito e isenções fiscais às pequenas e médias empresas, mostraram-se absolutamente insuficientes. Das 1,3 milhões de empresas que estiveram com atividades suspensas ou encerradas desde o começo da pandemia do coronavírus, 716.000 fecharam as suas portas no primeiro semestre. Pela infeliz declaração do ministro Guedes dada na constrangedora reunião de 22 de abril, "Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos pra salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas", percebe-se que o ministro pouco deve ter se importado com essa estatística.

Enquanto os fatos e dados revelam o fracasso do governo federal em todas as frentes (políticas sanitária e econômica) de combate à pandemia do coronavírus, na economia, Guedes segue defendendo as mesmas receitas de austeridade fiscal (visando atender o Teto dos Gastos Públicos em 2021), reformas (tributária e administrativa) e privatizações. Todas as ações de cunho liberal, em consonância às que vem sendo promovidas desde que Temer assumiu o poder em meados de 2016, como o já mencionado Teto dos Gastos Públicos e a Reforma Trabalhista. Nesse ínterim, o PIB cresceu em média 1,26% ao ano, mal recuperando a recessão de 2014-2016, em que a queda acumulada foi acima de 7%.

Com essa redução do PIB de -9,7% do PIB no 2º trimestre desse ano, nossa atividade produtiva retornou aos níveis registrados no segundo trimestre de 2009, ou seja, aniquilou todo o parco crescimento da última década. Além disso, caso tivéssemos recuperado a recessão de 2014-2016 até o primeiro trimestre de 2020, com o PIB atingindo o nível obtido no primeiro trimestre de 2014, essa queda recrudesceria para em torno de 15%. Ou seja, a retração só não foi maior porque não nos recuperamos totalmente da recessão de quatro anos atrás.

De acordo com a professora Débora Freire, da UFMG, em entrevista na quarta-feira (02/09) para a Headline, o ministro Guedes pode ser enquadrado em três “is”: Inércia (negação à inovação ou mudança na política econômica), Ideologia (apego à ideia de redução do Estado, mesmo que à custa do bem-estar dos mais pobres) e Ignorância (demonstrada tanto nas suas atitudes quanto em suas vãs promessas). Eu ainda me atreveria a apontar mais um “i”: Inépcia para conduzir a pasta de Economia para uma retomada econômica. Não é a toa que a professora conclui que “há uma crise dentro de outra crise”. Essa crise é produzida propositalmente, para que Guedes tenha um pano de fundo perfeito para poder implantar medidas extremistas de austeridade, infelizmente com apoio e cumplicidade de agentes do mercado financeiro, de professores ortodoxos de economia e da grande mídia. A aceitação da atual recessão extrema se explica pela afinidade ideológica com os valores defendidos pela direita.

É uma crise que acirra ainda mais a nossa histórica desigualdade social, com 66 milhões de pessoas dependentes de um auxílio provisório concedido pelo governo, e outros tantos milhões atuando em atividades informais ou precárias, sem gozar dos mínimos direitos trabalhistas e proteção social, arriscando suas vidas sujeitos à contaminação pela COVID-19. Mas como afirma Piketty em seu livro Capital e Ideologia, “a desigualdade não é nem econômica nem tecnológica; ela é ideológica e política”. Pela atuação do governo Bolsonaro, sobretudo pela (deplorável) postura de seu ministro Guedes, essa máxima é dramaticamente verdadeira na nossa realidade atual.

Christian Velloso Kuhn
Professor e Economista
Doutor em Economia do Desenvolvimento na UFRGS
Instituto PROFECOM



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