Economia Política

Regulamentação é exigência para sobreviver ao tsunami da crise

06/03/2009 00:00

Eduardo Seidl

Créditos da foto: Eduardo Seidl
Um olhar atento à história é uma boa biruta para que se descubra o sentido dos ventos da crise do capitalismo. Ajuda válida para pensar em qual direção tocar o barco e evitar que afundemos todos, desde os países mais pobres até as principais economias do mundo, nesta tempestade que se alastrou rápido e com força. O incrível é que nesta tormenta, países em desenvolvimento como o Brasil, que pareciam pequenas canoas, são os que mais têm chances de chegar sãos e salvos até a costa. E as avaliações para que ninguém morra na praia chegam a uma conclusão final: apenas uma nova estrutura de forte regulamentação do sistema financeiro internacional nos fará navegar em águas calmas novamente.

Esta foi uma das principais conclusões da mesa que discutiu a globalização financeira e as perspectivas de um novo sistema financeiro, durante Seminário Internacional sobre Desenvolvimento, em Brasília. A tripulação do debate não poderia ser mais heterogênea. Imagine um barco com dois empresários, um economista de banco, um economista keynesiano e um intelectual marxista, cada um com um remo na mão. Embora divergentes em muitos aspectos, parece que a crise conseguiu fazer com que todos naveguem juntos, mesmo com rondadas inesperadas na direção do vento.

O primeiro empresário é Maurício Botelho, ex-Cia Bozano Simonsen, ex-Odebrecht Automação e Telecomunicações e ex-diretor presidente da Embraer. Botelho, que agora compõe o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Ele sublinhou que, depois da crise derrubar todo mundo, “agora chegou a hora da regulamentação” e relatou uma experiência que viveu em janeiro de 2007, quando ainda estava na Embraer.

“Estávamos recebendo a visita do segundo mais importante executivo de um dos maiores bancos do mundo. Era uma visita de cordialidade e eu perguntei naquele momento como estava a questão das famosas subprimes, que já começavam a surgir na imprensa. E a resposta dele foi até certo ponto irritada, como se eu estivesse sendo impertinente. E ele disse que nós brasileiros éramos engraçados mesmo, porque no dia anterior, em Brasília, ele havia escutado a mesma pergunta. A reposta dele: subprime não é um problema”.

"Provavelmente o homem acreditava mesmo que a desregulamentação do mercado se solucionaria em si própria, apostando todas as fichas no descontrole que descambou com a economia mundial. Agora, no entanto, é necessário que o estado intervenha porque o mercado não tem como resolver isso sozinho. Ainda assim, temos que considerar as forças do mercado. O estado é solução frente a este momento de crise absoluta, há que ver como fazer e avançar no sentido de impedir que ameaças como essa de agora não se repitam”, concluiu Botelho, com quem, hoje em dia, possivelmente o grande executivo concordaria.

A avaliação de que o Brasil correrá como um dos cinco maiores transatlânticos da economia mundial foi do tripulante seguinte, Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco. O economista mostrou em gráficos a queda da produção industrial global, a diminuição do crescimento do Produto Interno Bruto em diversos países, a queda da venda de aço e de automóveis e o gritante aumento do desemprego ao redor do mundo. “O sistema capitalista está travado”, avaliou.

Barros elogiou a rede de proteção social brasileira como um importante instrumento para enfrentar os efeitos da crise. O economista do Bradesco destacou o Bolsa Família, o investimento em seguro desemprego e aposentadorias e toda a rede de seguridade social brasileira como garantias que diminuem o impacto da crise no país. “A boa notícia que eu tenho para trazer aqui é que crises acabam. O que precisamos saber é de onde virá a recuperação? A crise bancária global é apenas um pequeno capítulo de um mega ajuste que terá de ser feito. A regulação mundial disso caminha para algo muito parecido como que o Brasil já tem hoje”, concordou Barros.

O terceiro remo ficou aos cuidados do empresário Oriovista Guimarães que, em uma rápida explanação, fez algumas propostas pontuais para o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social: “As reuniões deste Conselho visam resumir sugestões objetivas que possam ser levadas ao Presidente para que a economia brasileira possa funcionar melhor”, disse. “O setor eletroeletrônico é muito afetado por diferenças na taxa de câmbio. Sofremos muito com os efeitos da crise”, disse o presidente da Positivo Informática. Para ele, o Brasil deve intervir internamente o mais rápido possível, sem esperar, com isso, interferir na economia mundial, ou seja, guiar seu barco sozinho e deixar que outros o sigam mais tarde. “Não podemos esperar que o mundo mude e que esta mudança se reflita aqui. Nós temos que trabalhar com as nossas próprias forças de regulamentação”.

O empresário lembrou que nem todo mundo apostou na loteria monetária que gerou a crise. Defendeu uma regulamentação do hedge, uma forma de proteger uma aplicação contra as oscilações do mercado, e o fim do registro de preço nas compras pelos órgãos públicos. “Não precisa estatizar os bancos como o Lula sugeriu ao Obama. Mas o Banco Central deveria adotar o hedge para evitar o impacto da vulnerabilidade do preço do dólar nas empresas brasileiras. Depois empresários brasileiros apostam em especulação como já fizeram papeleiras e indústria de frango. Meu negócio é fazer computador e não apostar em derivativo”, sugeriu.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Rodrigues de Paula, amarrou algumas notas sobre a globalização financeira e as perspectivas para os países em desenvolvimento, inclusive o Brasil. Vice-presidente da Associação Keynesiana Brasileira, ele defendeu que os mecanismos de autoregulamentação do mercado sempre foram de altíssimo risco “devido ao caráter procíclico da tomada de risco”. Enquanto isso, a securitização, que deveria servir para diluir estes riscos, na prática apenas garantiu uma maquiagem leve sobre eles.

O professor da UERJ citou Hyman Minsky na obra “Can ‘It’ Happen Again?” (publicada originalmente em 1982). O “It” a que se refere Minsky é a Grande Depressão. Segundo Rodrigues, o economista pós-keynesiano formulou sua hipótese de fragilidade financeira mostrando que economias capitalistas em expansão são inerentemente instáveis e propensas a crises, uma vez que a maioria dos agentes apresenta postura especulativa, o que resulta em práticas de empréstimos de alto risco.

Para Minsky, respondendo a pergunta que ele mesmo formulou, a depressão pôde ser evitada ou atenuada por conta da atuação do banco central como emprestador de última instância (”Big Central Bank”) e da adoção de políticas fiscais anti-cíclicas (”Big Government”), conceitos citados por Rodrigues na mesa.“Avalio que a resposta do governo brasileiro está um pouco lenta, principalmente na demora da redução dos juros e na dificuldade em deslanchar os investimentos públicos”, concluiu.

Robert Guttman e a crise

Robert Guttman, em seu livro “How Credit-Money Shapes the Economy”, propôs uma forma de moeda única para o planeta. Chamada de “true form of world money”, a moeda deveria ser utilizada no lugar do dólar, já que o uso de uma moeda-crédito nacional como moeda mundial é, segundo ele, um arranjo inerentemente instável. Moedas nacionais só são efetivamente moedas em território nacional. Segundo ele, é justamente esse uso inadequado do dólar que alimentou os grandes déficits na contas externas, as taxas de câmbio voláteis, a especulação em massa e um sistema bancário mundial instável e fora do controle dos reguladores governamentais. Ou seja, para Guttman, o responsável em última medida pela tempestade da crise é a moeda estadunidense.

Responsável pelo sexto e último remo da tripulação que tentou traçar as rotas marítimas para escapar da crise, Guttman advertiu que o trabalho que o mundo tem pela frente é pesado. “Esta é uma crise sistêmica e estrutural”, disse, antes de relembrar crises históricas. A fala do diretor do Centro de Políticas e Relações Internacionais da Universidade de John Hopkins (em Washington) garantiu que a melhor forma de entender a crise atual do capitalismo é buscar as condições das marés e a direção na qual os ventos sopravam quando outras crises aconteceram.

A Longa Depressão que vai de 1873 até 1896, marca o início do declínio inglês e só se resolve, de certa maneira, na I Guerra Mundial. A grande depressão de 1929, que atravessou todos os anos 30 e só foi superada com a reanimação da economia mundial através da II Guerra Mundial. Na década de 70, com a crise do petróleo. Segundo Guttman, há relações entre a intensidade da instabilidade financeira em cada uma destas crises, a duração de cada um delas e entre o grau de contaminação mundial da crise com a forma como ela se desenrola em cada um dos países.

“Existem lições em cada um destas crises. Você não consegue apenas saltar fora de uma crise como a que estamos vendo hoje, ela demanda uma reestruturação completa”, grifou Guttman. Para ele, a regulamentação com a qual todos os membros do barco concordam é muito mais profunda e séria. “Primeiro, modificar a política monetária e criar um novo sistema de crédito. Depois, arrumar o sistema bancário. Ajudar alguns bancos a sobreviver e remover ou sanar aqueles bancos zumbis, que circulam morto-vivos por aí. Existem bons e maus bancos, você deve remover cirurgicamente os tumores do sistema bancário. Então, gerar uma política fiscal que melhore a rede de segurança social e que invista em coisas como o PAC brasileiro. Isso tudo é um bom começo, mas não é bastante, muitos países já tomaram essas decisões, embora tarde demais”.

Para Guttman, apenas uma corajosa mudança radical é capaz de conter as ondas da crise por completo e evitar um tsunami financeiro nos sete mares. “Você não pode ter apenas uma solução nacional para essa crise, deve ser global e que atinja as fontes da crise, que são frutos da globalização e estão enraizadas em todos os lugares”, explicou Guttman.

A reunião do G-20, no dia 2 de abril próximo, é outra questão fundamental na solução da crise. “O processo do G-20 começou muito mal, produziu bons discursos de intenção que logo viraram promessas violadas. A partir de agora é necessário agir de acordo com as palavras e esse é o novo processo que o G-20 vai ter que encarar”, desafiou Guttman e emendou: “se eu fosse Deus e pudesse resumir as estratégias que deveriam ser aprovadas nesta próxima reunião, elas estariam ligadas a curto, médio e longo prazo”.

No exercício de coordenação das marés do sistema financeiro mundial, Guttman resumiu: “Antes de mais nada, sanear o sistema bancário, que é o coração do sistema financeiro e está mal como um coração que come muita gordura. Mesmo depois de um ataque cardíaco, ainda precisamos sanar o coração porque não podemos viver sem ele. Substituir os bancos zumbis por bancos comunitários e outras formas de crédito solidário. A partir daí, entregar um código de conduta aos bancos, para que as veias deste coração não fiquem mais entupidas e livrem-se de maus hábitos circulatórios como a especulação”.

A solução de Guttman segue com medidas a médio prazo. “Temos que ir mais fundo em fixar um sistema monetário internacional. A partir de agora, vai haver uma fragmentação monetária entre três blocos. América, Europa e Ásia. Isso é perigoso porque não podemos manter o sistema monetário mundial baseado no dólar, isso vai continuar a desestabilizar a economia”. Mas são as medidas regulatórias a longo prazo de Guttman que são verdadeiramente revolucionárias. “A crise é um bom momento para que modifiquemos todos os padrões para padrões de crescimento sustentáveis, que pensem o crescimento de forma pública, que ajudem a modificar as fontes de energia, que acabem com a crise alimentar e demográfica e com os problemas ambientais do mundo. Um grande padrão sem fins lucrativos que mude as diretrizes do sistema monetário internacional”. Ou seja, segundo ele, para ninguém morrer na beira da praia de verdade, as velas da economia mundial precisam de uma forte guinada à esquerda.

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