Economia Política

Renda não melhora, mas varejo vende mais graças ao crédito

12/02/2004 00:00


Rio de Janeiro - Divulgada nesta quinta-feira (12/2) pelo IBGE, pesquisa com os resultados do comércio varejista no último trimestre de 2003 aponta crescimento de 3,2% no volume de vendas do setor durante o mês de dezembro.

O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, no entanto, ainda tem com o que se preocupar: segundo a pesquisa, o aquecimento do comércio se deu quase que exclusivamente em setores influenciados mais diretamente pela redução da taxa de juros e pelo quadro macroeconômico positivo do país. É o caso da venda, na maioria das vezes a prazo, de móveis, aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos. Nos setores "boca de caixa", onde o gasto se dá diretamente - neste caso se enquadram farmácias e supermercados, por exemplo, - o crescimento ocorreu de maneira muito mais tímida. Segundo o IBGE, isso prova que a melhora do quadro econômico ainda não afetou o bolso do trabalhador. Ou seja, acalmou os mercados e facilitou o crédito, mas ainda não trouxe emprego e renda para a população pobre do Brasil.

Depois de um começo de ano muito difícil, a melhora começou a se desenhar no segundo semestre, mas não evitou que o crescimento total durante o ano ficasse negativo em todos os setores. A tendência para 2004, segundo os técnicos do IBGE, é de continuidade no crescimento.

Se analisados em conjunto todos os meses do ano passado, o volume de vendas do comércio varejista caiu 3,68% em relação a 2002. A receita nominal de vendas (sem descontar a inflação), no entanto, teve em 2003 um aumento de 23,4% em relação ao ano anterior. Em dezembro, o aumento da receita nominal de vendas foi de 10,82%. Essa contradição se explica pela remarcação de preços, segundo Nilo Lopes Macedo, da equipe de coordenação da pesquisa: "A receita nominal permaneceu positiva em razão do elevado repasse de custos para o preço final ao consumidor. Os comerciantes viveram uma expectativa de inflação e, por precaução, decidiram repassar os custos para o preço dos produtos. É, infelizmente, uma prática antiga no Brasil", disse.

Móveis e eletrodomésticos largam na frente
Segundo a pesquisa, as boas expectativas quanto ao crescimento econômico, aliadas a seguidas reduções na taxa de juros feitas no segundo semestre do ano passado pelo Conselho de Política Monetária (Copom), influenciaram o comportamento de comerciantes e compradores em dezembro. Isso se refletiu no bom desempenho do setor de móveis e eletrodomésticos, que teve aumento no volume de vendas de 20,89% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Essa foi a principal causa do bom desempenho do varejo no Natal, registrando o primeiro resultado positivo dos últimos 13 meses.

A possibilidade da compra a prazo com juros não tão altos também se refletiu positivamente no setor de veículos, motos, partes e peças, que teve em dezembro crescimento de 14,77%. Outros setores que tiveram expansão do volume de vendas em dezembro foram hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (1,8%) e tecidos, vestuário e calçados (0,73%). Apresentaram leve redução no volume de vendas os setores de combustíveis e lubrificantes (leia-se postos de gasolina), com –0,49%, e artigos de uso pessoal e doméstico, com –0,09%.

Segundo Nilo Lopes Macedo, este comportamento do comércio reflete as "as expectativas otimistas quanto ao cenário macroeconômico, com especial ênfase para a trajetória descendente das taxas de juros no período", mas não refletem necessariamente que a recuperação econômica do Brasil já esteja em curso: "A Economia vem melhorando em alguns aspectos, mais ainda peca pela falta de emprego e renda para a maioria da população", avalia. Macedo acredita que o quadro de melhora deve se acentuar em 2004: "A renda do brasileiro está ganhando estabilidade e há sinais da aumenta da oferta de empregos já no primeiro semestre do ano", afirma.

Crescimento em 22 Estados
Das 27 unidades da Federação incluídas na pesquisa do IBGE, 22 registraram em dezembro crescimento nas vendas do comércio varejista em relação a 2002. Os aumentos de maior impacto na formação do bom desempenho global do setor ficaram concentrados nas regiões Sul e Sudeste, tendo sido registrados em São Paulo (1,97%), Minas Gerais (5,01%), Paraná (6,97%), Santa Catarina (9,03%) e Rio Grande do Sul (4,07%). O Rio de Janeiro foi a exceção à regra, apresentando queda no volume de vendas de 0,88% e agindo como maior influência negativa nos índices da pesquisa. O segundo pior foi Pernambuco, com queda de 3,37% no volume de vendas.

No acumulado do ano, no entanto, apenas seis Estados apresentaram resultados positivos. Houve crescimento do volume de vendas em Rondônia (5,5%), Mato Grosso (1,47%), Paraná (0,87%), e Santa Catarina (0,52%), e estabilidade no Pará (0,01%) e no Piauí (0,03%). As maiores taxas negativas em relação a 2002 foram registradas em Roraima (-13,16%), Paraíba (-9,41%), Alagoas (-9,37%), Rio Grande do Norte (-8,26%) e Amazonas (-7,24%).

Rio e São Paulo têm desempenhos distintos
As taxas de desempenho dos dois Estados com maior participação relativa na receita do comércio varejista nacional foram bastante diferenciadas em dezembro de 2003, com São Paulo registrando crescimento de 1,97%, e o Rio de Janeiro, queda de 0,88%. No acumulado do ano, ambos apresentaram desempenho negativo, mas a queda relativa de São Paulo (-3,65% em relação a 2002) é quase a metade da do Rio de Janeiro (-6,87%).

Curiosamente, o Rio teve seu melhor desempenho no setor de artigos de uso pessoal e doméstico, com crescimento de 1,54% em 2003. Nos demais setores, queda em móveis e eletrodomésticos (-2,8%), combustíveis e lubrificantes (-9,33%), tecidos, vestuário e calçados (-11,1%) e hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-12,34%). São Paulo, por sua vez, registrou quedas menores, mas em todos os setores: tecidos, vestuário e calçados (-1,41%), hipermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-3,38%), artigos de uso pessoal e doméstico (-3,96%), móveis e eletrodomésticos (-4,66%) e combustíveis e lubrificantes (-6,75%).

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