Economia Política

Ruptura ou capitulação: para onde caminha o governo Lula?

O economista Ricardo Carneiro, da Unicamp, abre o debate com o cientista político Juarez Guimarães, para quem ''o governo Lula está imprimindo dinâmicas globalmente diferentes do período neoliberal''. Segundo Carneiro, a atual gestão ''situa-se no plano da capitulação''

11/10/2005 00:00

Protesto contra o mensalão, durante o jogo Brasil x Chile, para as eliminatórias para a Copa 2006 (Alexandre Cassiano/O Globo)

Créditos da foto: Protesto contra o mensalão, durante o jogo Brasil x Chile, para as eliminatórias para a Copa 2006 (Alexandre Cassiano/O Globo)

 

Um dos aspectos dramáticos da história da esquerda brasileira tem sido a sua oscilação entre dois pólos da ação política: a ruptura ou a capitulação. Isto tem ocorrido sobretudo na economia, um campo da ação política de inegável centralidade nas sociedades contemporâneas, pois no seu entorno se cristalizam interesses cruciais expressos na natureza das políticas econômicas. Nesse assunto, aqui como alhures, a esquerda tem ignorado reiteradamente o desafio da esfinge: “Decifra-me ou te devoro”, e tem sido, invariavelmente, devorada. Dessa perspectiva é fundamental realizar uma avaliação crítica da trajetória do governo Lula. Em que medida vem se constituindo numa experiência nova capaz de superar, na prática, os termos dessa polaridade?

É preciso louvar qualquer iniciativa que venha alimentar o debate sobre essa verdadeira síndrome bipolar da esquerda brasileira, sobretudo aquelas contribuições que recusem o diagnóstico fácil de que a política econômica que aí está é única possível, ou as pregações revolucionaristas para quais o único caminho é a ruptura integral com o sistema vigente. Dessa perspectiva cabe discutir o artigo recente de Juarez Guimarães, intitulado “O realismo da crítica e a invenção do futuro” e publicado pela Carta Maior em 5/10/2005. Sua tese central é inequívoca: o governo Lula foi capaz de superar essa polaridade ao construir no exercício do poder, um novo caminho, com falhas e equívocos, porém, uma superação. Nas palavras do autor: ‘’Enfim, um balanço da atual gestão do governo Lula na economia evidenciaria que ela, em sua resultante, está imprimindo dinâmicas globalmente diferentes do período neoliberal...”

O texto inicia com uma tese ambígua ao afirmar: “O debate econômico recente no Brasil tem se polarizado entre, de um lado, a apologia conservadora do que é e, de outro, frágeis construções analítico-normativas das alternativas ao que existe”. A primeira pergunta a fazer é a quem o autor está se referindo? Ou, por que faz, na prática, coro com os que desqualificam as alternativas? Pode-se admitir que não há hoje, nem no Brasil, nem em outros países, uma alternativa integral, nos moldes do socialismo, ao regime econômico vigente, a globalização. Mas é possível encontrar, além de políticas práticas, testadas e em execução em outros países, críticas sistemáticas e sugestões de políticas alternativas ao que aí está. Convém enfatizar que a disputa não ocorre apenas no campo ideológico, pois as formas de inserção dos países periféricos na economia globalizada, fundadas em políticas alternativas, foram bastante distintas, como se constata através da comparação entre a América Latina e a Ásia em desenvolvimento. Essas experiências alternativas são hoje objeto de intenso debate, inclusive na imprensa conservadora, através do confronto: Consenso de Washington versus Consenso de Pequim.

Se no caso brasileiro, as críticas e alternativas, mesmo as moderadas e reformistas não viraram políticas concretas, não parece correto buscar as razões na debilidade do pensamento crítico no plano das idéias, mas na esfera do poder, em particular, nas práticas do governo Lula e na sua opção por determinado caminho. Deixando de lado as alternativas revolucionaristas, caberia perguntar como o governo Lula tratou a tradição do pensamento desenvolvimentista brasileiro, aliás, boa parte dela incorporada a documentos políticos importantes do PT como “Outro Brasil é Possível” e o “Programa de Governo 2002”?

Custa crer que essas idéias sintetizadas numa proposta de um desenvolvimento mais autônomo e distributivo possam ser tratadas como radicais. Afirmar que eram insuficientes ou apenas idéias gerais não resolve o problema. Constitui apenas uma desculpa para disfarçar a opção pelas políticas conservadoras. Afinal, se as políticas alternativas eram débeis, por que o governo Lula, em tese comprometido com os seus princípios, não promoveu no aparelho de Estado pelo menos uma discussão sobre as mesmas? Ou ainda por que, através do grupo dirigente do PT, interditou o debate sobre a política econômica no âmbito partidário? O que se viu foi a desqualificação sistemática das idéias e políticas alternativas por parte de próceres do governo através do recurso ao discurso conservador e o reforço, nas esferas do Estado, dos quadros técnicos mais identificados com o pensamento liberal.

O autor contudo prefere atribuir o reforço das políticas conservadoras aos equívocos teóricos da esquerda nos seus vários matizes. Estas, ao recusarem as políticas de corte liberal, foram incapazes de perceber que essas políticas poderiam, ao contrário do que apregoavam, produzir o sucesso, e não o fracasso. Ao invés das crises observou-se uma redução da vulnerabilidade externa, o afastamento da crise cambial e, por aí vai. No afã de criticar os críticos das políticas, esquece-se de perguntar sobre a profundidade dessa melhoria, sua sustentabilidade e, o mais importante, suas relações com as ações postas em prática.

É possível demonstrar que a melhoria da economia brasileira veio sobretudo do excepcional cenário internacional. Países que praticaram políticas distintas e até mesmo contrárias a do Brasil como a Argentina tiveram desempenho superior ao nosso. Aliás, não se pode deixar de anotar que a nossa performance foi sofrível quando comparada como os demais países periféricos. Numa lista dos quinze maiores, ocupamos a 13ª posição quanto ao crescimento econômico entre 2003 e 2005. Todos receberam o mesmo impulso, mas o crescimento foi bem distinto. Ora, a que atribuir isto senão à política econômica local?

Outro aspecto a ser questionado é sobre a perenidade da mudança. O autor aponta fatores estruturais a ela subjacente; no plano externo, o peso da China e da “nova divisão do trabalho”, puxando para cima os preços das commodities e, no plano interno, “o amadurecimento das cadeias produtivas exportadoras”. Ora, a ser isto verdade, como se trata de fatores estruturais, cujo tempo de maturação é longo, não deveria haver nenhuma relação com as políticas econômicas postas em práticas no governo Lula. Nesse último aspecto o autor propõe uma tese equivocada ao elogiar a política cambial: “A desvalorização do real em 2003 deu sua contribuição e a manutenção de um patamar cambial muito diverso do primeiro mandato de FHC, apesar do artificial e preocupante surto recente de valorização do real, cria um cenário ainda positivo para o surto exportador.”

O ponto central é que o real se apreciou desde o início do governo Lula, a bem da verdade desde o último trimestre de 2002, e se dependesse da taxa de câmbio, e não do cenário externo, o desempenho das exportações teria sido acanhado. Mas voltemos a questão da sustentabilidade. Podemos contar de fato com a sustentação dos preços das commodities ou estamos mais uma vez diante de ciclos de preços, identificados por Prebisch, no seu clássico sobre a economia da América Latina, e que na sua reversão terminarão por levar à deterioração de nossos termos de troca como já observado no passado? Até que ponto, com o passar do tempo, a China constitui um fator liquidamente positivo para nossas exportações? Vários estudos atestam que ela está se tornando uma importante concorrente nas commodities industriais exportadas por nós para os mercados centrais; o aço é um bom exemplo. Por sua vez, até que ponto o quadro internacional favorável não está inflado por um ambiente especulativo que deve reverter-se, tirando parte dos estímulos ao comércio e aos fluxos de capitais para a periferia?

O azar e a sorte fazem parte da vida, e o governo Lula teve muita sorte. Desde o seu início e durante seu desenrolar o cenário internacional foi excepcional. Tão bom como não se via desde os trinta anos do pós Segunda Guerra. Da perspectiva da avaliação crítica do desempenho das políticas do governo Lula, a pergunta a fazer não se confunde com aquela do calendário eleitoral e que tem a reeleição como horizonte. O sentido da questão é mais profundo: e se o ciclo internacional durar o suficiente para que o presidente tenha o seu segundo mandato, o que se pode esperar do futuro? O governo Lula de fato aproveitou a conjuntura internacional favorável para impulsionar mudanças estruturais na economia brasileira?

Olhada da ótica da inserção externa e da política cambial lato senso, a resposta é não. A valorização do real ao longo de todo o governo Lula se comprovará como um erro estratégico que cobrará seu preço em termos de competitividade das exportações industriais e da capacidade de atração de investimentos estrangeiros em setores intensivos em tecnologia . A maior abertura financeira aprovada no Conselho Monetário Nacional também constituirá um elemento de fragilização na frente externa ante a provável reversão dos fluxos de capitais. O ponto essencial a assinalar aqui é que a política de crescente liberalização dos fluxos de capitais – iniciada no governo Collor, intensificada nos governos FHC e ampliada no governo Lula – e de flutuação exacerbada da taxa de câmbio, acompanhada de sua forte valorização recente, não contribui para uma inserção de melhor qualidade na economia globalizada. A afirmação anterior não se baseia em teorias, mas nas experiências exitosas de desenvolvimento que indicam uma presença decisiva do gerenciamento dos fluxos de capitais e da taxa de câmbio. O governo Lula todavia optou, nesse campo, por um padrão excessivamente liberal que interessa prioritariamente aos detentores de riqueza financeira e aos investidores de curto prazo.

Mas, afinal, descontada a contribuição da conjuntura internacional, esse perfil de política econômica liberal adotado pelo governo Lula na área cambial não seria exatamente o mais correto, não só por ter produzido a melhoria dos indicadores apontada por Juarez Guimarães, como, sobretudo, por ser um antídoto eficaz contra novas crises? A resposta é novamente não, mas merece qualificações. No que tange ao curto prazo, as possibilidades de uma crise cambial motivada por um ataque especulativo contra o real são iguais ou maiores do que no passado. A combinação da ampliação da liquidez internacional com um ambiente doméstico mais liberalizado e altas taxas de juros implicou a entrada de volumes significativos de capital especulativo no país sob variadas formas, algumas das quais virtuais, como é o caso dos derivativos, estes últimos uma verdadeira bomba de nêutrons para as contas cambiais.

Da ótica do longo prazo, há dados positivos, como a redução da dívida externa e o novo patamar das exportações, mas em razão da ausência de políticas domésticas a continuidade dessa melhoria dependerá sobretudo do cenário internacional. Uma reversão desse cenário pode implicar, para além de um ataque especulativo, a deterioração dos indicadores de longo prazo, em particular uma queda do crescimento das exportações. Em resumo, os avanços foram associados a variáveis sobre as quais não possuímos controle algum. E se elas mudarem?

Na seqüência do texto, o autor aprofunda a sua crítica aos críticos da política econômica e enuncia tese principal: “Há uma segunda explicação para os erros de prognóstico dos críticos da política econômica. Refletindo a ancoragem teórica destas críticas, centradas nas teorias keynesianas, neokeynesianas e pós-keynesianas, que incidem de modo central sobre o comportamento da autoridade monetária, subestimaram-se as mudanças estruturais importantes introduzidas pelo governo Lula em uma série de agentes estatais de peso”. A tese é, portanto, inequívoca: o governo Lula não quis ou não pôde realizar mudanças substantivas na política macroeconômica, mas o fez exatamente onde se faziam necessárias e eram cruciais, no plano estrutural. Subjacente à tese está também a idéia de hierarquia das políticas econômicas, vale dizer a gestão macroeconômica seria inferior aquelas atinentes à reorientação dos agentes estatais.

A primeira objeção às opiniões de Juarez Guimarães podem ser formuladas no campo da política. Se, é verdade que as políticas econômicas são hierarquizadas, as estruturais possuindo maior importância do que as macroeconômicas, pode-se concluir que o governo Lula optou por um maior enfrentamento com os interesses dominantes, vale dizer, buscou uma mudança nas políticas que envolvem uma maior disputa de interesses, deixando de lado aquelas como menor nível de conflito. Outra idéia discutível é a da hierarquia e preeminência do que o autor chama de políticas estruturais.

Seria mais correto classificar a orientação das políticas por sua combinação particular. Assim, por exemplo, a articulação de políticas macroeconômicas e estruturais conservadoras, como no caso da era FHC, produzem uma política econômica de corte conservador. No pólo oposto teríamos as políticas progressistas em ambas as dimensões. No caso do governo Lula pode-se verificar a coexistência de uma política macroeconômica conservadora com uma política estrutural com elementos progressistas, embora de intensidade e alcance limitados. Ora, nessa combinação o que termina por acontecer é que o caráter progressista dessa última perde densidade, terminando por transformá-la em política compensatória, cujo papel é atenuar os efeitos negativos da primeira.

A ninguém é dado desconhecer a centralidade da política macroeconômica, sobretudo a da fixação dos juros numa economia capitalista. Aliás, os donos do poder sabem bem da sua importância. Tanto é assim que têm feito um esforço excepcional para excluir a gestão da política monetária do campo da política republicana. A tese do banco central independente nada mais objetiva do que excluir a gestão da moeda das injunções do poder político. Assim, desse ponto de vista, o ideal seria que no voto popular se disputasse o poder mitigado, excluindo a política monetária, a cambial, a fiscal. Essas políticas deveriam funcionar por regras ou operadas por instituições com total independência dos governos, constituindo um verdadeiro “Estado de exceção”, na definição do filósofo político Giorgio Agamben .

Obviamente não se pode ser ingênuo e acreditar que há razões técnicas a embasar essas propostas conservadoras. Sua rationale repousa na capacidade dos preços macroeconômicos, em particular da taxa de juros em definir a trajetória da economia e alterar a distribuição da renda e da riqueza. O ponto essencial nesse caso é que tanto Marx quanto Keynes estariam de acordo sobre a essencialidade da taxa de juros e, mais do que isto, sobre o caráter político da determinação do seu valor, ao sabor da correlação de forças entre os detentores de riqueza financeira e os demais agentes econômicos, mediadas pelo poder estatal. O essencial a reter é que patamares distintos de taxa de juros definem ritmos também distintos de crescimento da produção e direitos diferenciados de apropriação sobre a riqueza criada.

Um exemplo pode elucidar a proposição acima. No Brasil, a manutenção de taxas de juros reais sistematicamente superiores a 11% ao ano, no último decênio, diminuiu o potencial de crescimento do país ao favorecer a aplicação financeira em desfavor da produção. O resultado tem sido um menor crescimento da renda e sua repartição crescentemente desigual em favor dos rentistas e em detrimento de lucros e salários. Esse é o verdadeiro núcleo duro do problema distributivo, denominado pelos economistas de distribuição funcional da renda. Não há indicações de que essa distribuição tenha melhorado no governo Lula. Ao contrário, a prática de taxas de juros extravagantes por um Banco Central ultraconservador sugere a sua deterioração. À luz desses dados, a afirmação de Juarez Guimarães, para quem a financeirização da economia foi, no governo Lula, parcialmente superada, mostra-se infundada.

Na manutenção do rentismo na economia brasileira, um dado definitivo é o do orçamento público. Ao longo do governo Lula, a conta de serviço da dívida tem se mantido em torno de 9% do PIB, valor equivalente àquele observado no segundo mandato de FHC. Os superávits primários canalizados diretamente para pagamento dos juros têm se ampliado continuadamente, devendo alcançar esse ano valor próximo a 5% do PIB, algo como 15% dos gastos públicos totais. Esta é uma das vias pela qual se processa a concentração funcional da renda, aludida acima, impedindo na prática que se obtenha através do gasto público uma desconcentração da renda pessoal. Como, assegurar uma política de inclusão social por meio da ampliação da oferta de bens públicos – saúde, educação, moradia, saneamento, transporte coletivo – intensivas em recursos fiscais, quando se transfere anualmente aos rentistas algo como R$ 150 bilhões, valor superior à soma de vários orçamentos sociais, inclusive ao maior deles, o da Previdência. Esses dados por si sós constituiriam uma desqualificação adicional da tese da superação parcial do rentismo. Aliás, diante da contínua ampliação do superávit primário no governo Lula, a proposição soa uma tanto esquisita.

Uma outra afirmação do autor a ser considerada é a de que a política econômica do governo Lula marca uma mudança na operação de agentes estatais de peso. Um primeiro ponto a destacar é a percepção de que de fato a gestão de certas entidades públicas mudou. Mas é preciso não a superestimar, nem perder de vista que as mudanças ocorreram na forma de operação de instituições já existentes, muita delas oriundas do período desenvolvimentista. Ou seja, se houve nesse campo mudanças operacionais, elas não configuram um padrão essencialmente distinto fundado, por exemplo, na criação de novos agentes, ou numa forma diferente de articulação entre Estado e mercado.

A política financeira, por exemplo, tem aspectos positivos e negativos. A preservação do crédito dirigido, uma herança do período desenvolvimentista, constitui um aspecto positivo da política econômica. A reorientação da gestão das instituições públicas como BNDES, CEF, BB, Basa e BNB, no sentido de seu maior comprometimento com as operações de crédito, ante as operações de tesouraria, é fato inegável. Porém, mesmo nesse campo é possível apontar limitações, como a preservação das restrições a empréstimos a entes públicos – empresas, prefeituras, e governos estaduais – oriundas de determinações do Conselho Monetário Nacional originárias do período FHC, e que excedem, pelo seu rigor, as determinações da regulação prudencial emanadas do acordo de Basiléia. Outro fator limitante é a redução do potencial de empréstimo dos bancos públicos, através do confisco de parcela de seus lucros para compor o superávit primário.

Nas relações com o sistema financeiro privado, percebe-se o pouco avanço e, por que não dizer, a capitulação do governo Lula. Um indicador importante dessas relações é o comportamento da margem de lucro dos bancos, o spread bancário. A preservação de spreads elevados constitui uma das vias pelas quais a distribuição funcional da renda aludida acima se deteriora, pois implica transferência da renda dos assalariados e do lucro empresarial para os bancos. A manutenção da margem média de lucro dos bancos (spread) se deu apesar de todas as concessões do governo ao setor bancário, incluindo uma nova Lei de Falências. A despeito da proteção ampliada, os bancos relutaram em reduzir suas margens, exceto em algumas linhas como a do crédito consignado na qual a legislação posta em prática pelo governo criou uma espécie de capitalismo sem risco.

A pergunta quanto ao crédito consignado é se terá valido a pena tantas concessões aos bancos para, afinal, beneficiar os cidadãos necessitados de crédito. Olhada pelo custo dessas linhas, em média 40% ao ano, taxas de fazer corar agiota de país civilizado, a resposta é não. Mas alguns argüirão que as demais linhas custam o dobro, ou mais do que o dobro… Trata-se portanto de escolher entre o ruim e o péssimo. Ao questionamento anterior pode se agregar outro, relativo à dimensão do crédito consignado. Embora tenha crescido rapidamente a partir da sua implantação pelos bancos, esse tipo de crédito representa cerca de 10% do estoque de financiamentos concedidos às pessoas físicas. O crescimento, por sua vez, tende a arrefecer consoante as estratégias de diversificação de carteira dos bancos.

Um aspecto adicional na reorientação dos entes estatais ressaltada por Juarez Guimarães refere-se à ampliação da infra-estrutura econômica. Novamente aqui os dados são contraditórios. É visível a ampliação dos investimentos das empresas estatais na área de energia (petróleo e energia elétrica), mas que não é acompanhado nos demais segmentos. A nota negativa nesse caso refere-se ao desempenho medíocre dos investimentos públicos com origem no orçamento fiscal. Seus valores em 2003 e 2004, de R$ 8 bilhões e R$ 11 bilhões, correspondentes a respectivamente 0,4% e 0,6% do PIB, são os mais baixos da história recente do país, menores inclusive do que aqueles do segundo mandato FHC, durante o qual já foram bem reduzidos. A execução orçamentária do ano em curso não autoriza pensar em retomada ante a meta ampliada de superávit primário.

Pensar em crescimento sustentado diante de patamar tão baixo de investimentos públicos soa como miragem. Contrariando as opiniões de Guimarães, as determinações macroeconômicas aparecem aqui como cruciais. No plano dos gastos públicos, através dos elevados e crescentes superávits primários. E convém não subestimar a inteligência conservadora, pois o sistema de contabilização dos gastos públicos adota o princípio de vasos comunicantes, logo excesso de gastos numa área há de ser compensado por cortes em outras. Assim, o superávit primário, filho dileto da política de juros altos, constitui o cobertor curto do setor público brasileiro.

No exame das políticas sociais do governo Lula, o entusiasmo do autor leva-o a afirmar: “Nunca houve na história brasileira um tal leque convergente de políticas de inclusão social, tendo como carro chefe o Bolsa-Família, mas permanece o desafio histórico de promover a padrões de cidadania estável uma população de cinqüenta milhões de brasileiros”. Uma primeira distinção a ser estabelecida diz respeito à diferença entre políticas de Estado e políticas de governo. A distinção não é irrelevante pois a parcela mais expressiva da política social constitui política de Estado e está inscrita na Constituição. Desse ponto de vista não pode ser atribuída ao governo Lula. Logo, a política social cuja ampliação de fato se deve ao governo Lula é o Bolsa-Família.

Uma comparação dos recursos alocados no Bolsa-Família com alguns programas consagrados na Constituição cidadã de 1988 é elucidativa. Em 2005 a estimativa de gastos com o Bolsa-Família é de R$ 5,8 bilhões, ou 0,33% do PIB. Os programas de assistência continuada e da renda mensal vitalícia somam quase R$ 10 bilhões, cerca de 0,65% do PIB ou duas vezes mais do que o Bolsa-Família. O seguro-desemprego também deve gastar no ano corrente algo como R$ 10 bilhões, novamente o dobro do Bolsa-Família. As vinculações constitucionais de receitas e obrigatoriedade de despesas em Saúde e Educação representam valores várias vezes superiores ao do Bolsa-Família. Tudo isto não mostra a irrelevância do programa, mas lhe confere a verdadeira dimensão e certamente lhe retira o caráter de carro-chefe da política social.

É necessário ademais tratar o Bolsa-Família com o necessário senso crítico. O programa é fruto das concepções do Banco Mundial, cujo objetivo é focalizar os gastos sociais e direcioná-los para os “super-pobres”, reduzindo os custos da política social. Essa mesma concepção questiona políticas como a educação superior gratuita, o seguro-desemprego etc. Ora, se de fato há um elemento humanitário a sustentar a defesa desse programa, não se pode confundi-lo com os programas necessários para ampliar a oferta de bens públicos gratuitos, como educação, saúde, habitação, saneamento e transporte coletivo, pois esses são os capazes de reduzir, em bases permanentes, a desigualdade social. Em resumo, o Bolsa-Família é um programa eminentemente compensatório, necessário para uma sociedade como a brasileira, com níveis elevados de pobreza absoluta, mas claramente insuficiente como elemento de transformação social. Esta última envolve ações muito mais complexas para além da ampliação da oferta de bens públicos, como por exemplo a elevação significativa e continuada do salário mínimo e a reforma agrária.

Ainda no campo social, o autor faz referência ao crescimento do emprego e a seu novo padrão: “O governo Lula parece estar invertendo a curva prevalecente nos anos noventa de informalização do mercado de trabalho, mas o estoque acumulado de desemprego e a precarização do mercado de trabalho permanecem elevados.” A afirmação não é de toda incorreta, mas deixa de esclarecer o enigma do crescimento do emprego, pelo menos quando se considera os números brandidos sistematicamente pelo governo. O enigma pode ser posto da seguinte forma: a se confirmarem os prognósticos de crescimento do PIB em 3,5% para o ano corrente, a economia terá crescido nos três anos do governo Lula, em média, 2,6% ao ano. Ora, a partir desse dado, como entender um crescimento do emprego da magnitude apregoada pelo governo, que supera em muito aquele do segundo mandato FHC, no qual a economia cresceu em média 2,2% ao ano?

A resposta é relativamente simples. Os dados utilizados pelo governo não dizem respeito exclusivamente a criação de novos postos de trabalho e, portanto, a novos empregos. Referem–se a dois aspectos distintos do mercado de trabalho: a criação de novos postos de trabalho e a formalização de postos de trabalho que já existiam. A dimensão da formalização não é irrelevante, mas tampouco traduz um dinamismo elevado na criação de empregos como quer o governo, pois não cria novos postos. É provável até que tenha resultado da melhor fiscalização do Ministério do Trabalho, combinada com a ampliação do emprego nos setores exportadores, onde predominam empresas maiores. O ponto negativo é que esse ritmo de crescimento do emprego não é suficiente para retirar o mercado de trabalho do seu estado de letargia e conferir maior poder de barganha aos trabalhadores. Uma prova inconteste disso é a continuidade da queda, no primeiro ano do governo Lula, e a posterior estagnação, do rendimento médio dos assalariados.

Ao fim e ao cabo, a que conclusões levam as considerações tecidas ao longo desse texto? Certamente bastante distintas daquelas do artigo de Juarez Guimarães. Mesmo admitindo que há no governo Lula algumas políticas com orientação menos liberal quando comparadas com às do período FHC, pode-se também concluir que sequer arranham o núcleo duro das políticas conservadores, nem tampouco promovem mudanças de profundidade. Ou seja, constituem políticas eminentemente compensatórias. Por conseguinte, é lícito concluir que olhado do ponto de vista da polaridade sugerida por este artigo, o governo Lula situa-se no plano da capitulação. Esse julgamento construído à luz dos fatos não significa negar as possibilidades de mudanças na trajetória desse governo. Afinal, se possibilidades de mudanças existem, elas partem, em maior medida, do campo democrático e popular no qual as forças de esquerda que participam do governo se situam. Para tanto, o pensamento crítico deve dar a sua contribuição.

Ricardo Carneiro é professor do Instituto de Economia e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp

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