Economia Política

Secretário de comércio dos EUA é reprovado em economia de micróbios

 

02/02/2020 15:39

Passageiros se protegem contra o coronavírus na chegada ao Aeroporto Internacional de Los Angeles (Mark Ralston/Agence France-Presse/Getty Images)

Créditos da foto: Passageiros se protegem contra o coronavírus na chegada ao Aeroporto Internacional de Los Angeles (Mark Ralston/Agence France-Presse/Getty Images)

 
Quão assustado você deve ficar com o coronavírus? Não sou epidemiologista, mas o que vi parece consideravelmente assustador. Não ajuda o fato que o governo Trump, como parte de sua guerra geral contra a ciência e a expertise, tenha reduzido seriamente a capacidade dos Estados Unidos de responder se, de fato, enfrentarmos uma pandemia perigosa.

Também parece bem possível que o vírus cause muitos danos econômicos - mesmo que não o mate, pode matar o seu trabalho. E uma fonte especial de preocupação é que as principais autoridades do governo Trump estão falando bobagens sobre a ameaça econômica.

Então, sobre essa ameaça econômica: muitas pessoas traçam paralelos entre o coronavírus e o surto de síndrome respiratória aguda grave de 2002-3, ou SARS, que também se originou na China. Como o atual surto, a SARS levou à imposição de quarentenas economicamente perturbadoras, que parecem ter tido um efeito adverso significativo, ainda que temporário, sobre a economia da China e um impacto negativo modesto na economia mundial como um todo.

Ainda não sabemos se o coronavírus é mais ou menos perigoso que a SARS. O que sabemos é que as implicações econômicas globais de uma pandemia na China provavelmente serão muito mais graves agora do que foram naquele momento, pela simples razão de que a China é, hoje, um ator muito maior do que era.

Em 2002, a China ainda estava nos estágios iniciais de seu grande surto econômico; representava somente cerca de 8% do valor agregado da manufatura global, muito menos do que as participações dos EUA, Japão e Europa. Hoje, no entanto, a China é a oficina do mundo, responsável por mais de um quarto da produção global.

Ora, você pode pensar que isso implica um lado positivo para os problemas da China, que uma  desorganização no vasto setor manufatureiro da China ofereceria oportunidades para produtores de outros países, inclusive os dos Estados Unidos. Isto é, você poderia pensar isso se ignorasse completamente o funcionamento da economia do século XXI.

Com efeito, Wilbur Ross, o secretário de comércio, declarou na Fox Business, na manhã de quinta-feira, que "não queria falar sobre uma comemoração de vitória", mas que o coronavírus "ajudaria a acelerar o retorno de empregos para a América do Norte.” Ao dizer isso, ele demonstrou algumas coisas: (1) por que os leitores de Gail Collins o elegeram como o pior ministro de Trump e (2) por que a guerra comercial de Trump tem sido um fracasso.

O que Ross e seus colegas aparentemente ainda não entendem - embora alguns deles possam estar começando a suspeitar - é que a manufatura moderna não é como aquela de algumas gerações atrás, quando os setores industriais de diferentes países estavam engajados em competição um a um razoavelmente direta. Atualmente, vivemos em um mundo de cadeias globais de valor, nas quais grande parte do que qualquer nação importa não consiste de bens de consumo, mas de bens "intermediários" que ela usa como parte de seu próprio processo de produção.

Em tal mundo, qualquer coisa que interrompa as importações - sejam tarifas ou vírus - aumenta os custos de produção e, como resultado pode, ao contrário do que disse o secretário Ross, prejudicar as próprias manufaturas. De fato, um estudo recente do Federal Reserve descobriu que as tarifas de Trump, concentradas em bens intermediários, reduziram, não aumentaram, a produção e o emprego do setor. Como esperado, embora o crescimento econômico geral em 2019 tenha sido razoável (não ótimo), a manufatura está em recessão. (E a incerteza criada pela guerra comercial pode explicar por que o investimento empresarial está em queda, apesar de um enorme corte nos impostos corporativos.)

Como eu disse, algumas pessoas de Trump parecem ter suspeitado de alguma coisa aqui. Na semana passada, a Casa Branca basicamente admitiu que as tarifas sobre aço e alumínio causaram mais prejuízo do que ganho, prejudicando as indústrias que usam esses materiais. Mas a resposta do governo não é uma revisão de suas políticas - é impor mais tarifas a uma gama mais ampla de produtos.

O que me leva de volta ao coronavírus. Vamos deixar de lado as questões de saúde pública - embora o governo Trump nos tenha deixado claramente muito menos preparados do que estávamos para lidar com essas questões se elas se tornarem graves - e focar na economia.

O que podemos dizer é que, se o vírus interromper seriamente a produção chinesa, seu impacto na economia dos EUA será como uma versão extrema da guerra comercial de Trump, exceto que não implicará qualquer compensação na forma de receita tarifária. As duas coisas que sabemos sobre a guerra comercial são que tem sido um fracasso econômico e que as autoridades da administração Trump ainda parecem não ter ideia da razão de ter sido um fracasso.

Tenha em mente que, até agora, Trump teve uma sorte extraordinária. Além do furacão Maria – com o qual ele lidou mal e no qual que milhares de norte-americanos morreram - ele não enfrentou essencialmente nenhuma crise, doméstica ou estrangeira, que não fosse de sua autoria. Ele se cercou de uma gangue que não consegue pensar direito. E isso suscita sérias dúvidas sobre como ele lidaria com uma crise que ele não criou.

Se as observações estúpidas de Wilbur Ross na quinta-feira são alguma indicação - e eu temo que sejam - o governo Trump está ainda menos preparado para lidar com as consequências econômicas de uma possível pandemia do que para lidar com a crise de saúde pública. Fique apreensivo.

*Publicado originalmente no New York Times | Tradução de César Locatelli



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