Economia Política

Sofismas da composição: Economia como sistema complexo

A análise da economia como sistema complexo supera a dicotomia micro-macro. Permite visualizar as redes de relacionamento entre o todo e as partes. É a visão holística ou sistêmica, uma exigência para se enfrentar os dilemas atuais

08/04/2019 17:06

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O conhecimento específico dos economistas é o macro sistêmico. Os leigos tomam decisões com base em experiência vivenciada, aprendida na “escola da vida”, ou através de tentativa-e-erros. A Economia Neoclássica considerava todos os agentes econômicos como seres racionais. A Economia Comportamental verifica seus erros serem repetidos.

Errar é humano. Repetir erro também. Prova maior: segundo casamento, a vitória da esperança sobre a experiência. Ou a vitória da paixão emocional e narcisista – se ver belo(a) nos olhos da outra pessoa – sobre a razão.

A abordagem clássica da Economia Política dá ênfase às relações estabelecidas entre os indivíduos em suas atividades econômicas: produção, distribuição, compra-e-venda, financiamento etc. A abordagem neoclássica busca teorizar a capacidade humana de fazer melhores escolhas, em face de múltiplos fins e de diversos meios para alcançá-los.

Hobbes, em 1651, encarou a sociedade como sendo a organização social resultante das interações de indivíduos mecanicamente determinados. Desde o Renascimento, os indivíduos tomaram consciência de si mesmos como um ser apartado específico, atuando de modo diferente do comportamento da coletividade.

Para o individualismo metodológico, adotado por John Stuart Mill (1872), avant la lettre, as leis dos fenômenos sociais podem ser apenas resultantes das ações individuais. Porém, as decisões de cada pessoa só são compreensíveis por outra pessoa observadora se ambas estão conectadas. Cada indivíduo experimenta, pensa, age e compreende dentro de uma esfera comum a muitos.

Para o holismo de Auguste Comte (1896), uma sociedade não é mais decomponível em indivíduos do que a decomposição de uma superfície em linhas ou de uma linha em pontos. Durkheim (1893) acreditava no determinismo social dos indivíduos, onde todos os fenômenos supra orgânicos são entendidos como de origem social, em contraste com os postulados do “dogmatismo psicológico”. Em contraponto, para Max Weber (1903), o significado subjetivo atribuído pelos atores humanos às suas ações, em suas orientações mútuas, está dentro de um contexto social-histórico específico. Ele enfatizou tanto a generalização causal quanto a compreensão humana autônoma. Acreditava o individualismo metodológico ser o caminho mais seguro na pesquisa, exorcizando “o espectro das concepções coletivas”.

A expressão “individualismo metodológico” foi cunhada por Joseph A. Schumpeter (1942). Influenciou, entre outros, Hayek (1948) e Popper (1966). Para eles, os fenômenos sociais deveriam ser vistos como resultantes da ação humana. “Nunca devemos ser satisfeitos por uma explicação em termos de os chamados coletivos”.

O individualismo metodológico é contrastado pelo holismo ou organicismo sociológico. Nesta última visão, os sistemas sociais constituem “totalidades” no sentido de alguns dos seus comportamentos, em grande escala, serem regidos por leis macro essencialmente sociológicas. São sui generis e não explicadas como meras regularidades ou tendências resultantes do comportamento agregado de ações dos indivíduos.

Pelo contrário, os comportamentos individuais deveriam, de acordo com o holismo, ser explicados pelo menos em parte em termos de leis de movimento social. Levaria em conta, primeiro, os papéis dos indivíduos nas instituições, depois, as funções sistêmicas dessas instituições. São restrições criadas para dar forma às interações humanas.

Então, o individualismo metodológico supõe os seres humanos como os únicos agentes no movimento da história. Por sua vez, o holismo metodológico observa fatores sobre-humanos em ação na história. Essas duas alternativas são exaustivas das possibilidades?

Se a microeconomia é composta por teorias das decisões e a macroeconomia é a resultante incerta dessas decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras, há uma nítida divisão entre uma – ações ex-ante – e outra – resultados ex-post? Uma investiga as causas apriorísticas e outra reflete a respeito dos resultados a posteriori? No mundo real, há uma nítida linha de separação entre o atomismo dos agentes econômicos e o pressuposto equilíbrio sistêmico?

A ortodoxia supõe a homogeneidade dos agentes, porquanto todos detêm a mesma racionalidade e informações perfeitas. Torna então possível a ideia de a macroeconomia ser mera agregação de ações individuais. Mas se a heterodoxia prova serem irrealistas as premissas de racionalismo, preços livres em mercados competitivos e simetria de informações, é possível deduzir macroeconomia de comportamentos heterogêneos?

Hoje, economistas atualizados enxergam a economia como um sistema complexo. Nela há heterogeneidade comportamental, mas a ação coletiva tem uma lógica própria. Ela é possível de ser captada e entendida, quando se consideram os principais elos de interconexões das interações entre agentes heterogêneos com racionalidade limitada.

A economia é um componente de um sistema descentralizado, cuja auto-organização é irregular e instável. Sua evolução é dinâmica e não linear, ou seja, varia ao longo do tempo, quando os indivíduos vão aprendendo e adaptando os seus comportamentos a cada meio ambiente natural e/ou institucional.

Há dependência de trajetória face às condições iniciais em algum lugar impreciso do passado desconhecido. Historiadores se dedicam a fazer previsões de o que ele de fato foi, mas economistas não sabem com precisão quando ocorreram as condições iniciais. Sabem apenas a trajetória caótica da economia significar o afastamento delas.

Acham o sistema complexo ser historicamente determinado, porque seu atual estado tem particularidades resultantes de acontecimentos específicos prévios. São causas primárias, mas elas já podem ter sido ultrapassadas e o movimento inercial sistêmico permanecer. Impossibilita o ataque às causas. Exige a regulação sistêmica no presente.

A análise da economia como um sistema complexo, emergente das interações entre seus componentes, supera a dicotomia micro-macro. Permite visualizar as redes de relacionamento entre o todo e as partes. Aristóteles já estudava os argumentos sofísticos, “quando se alega aquilo verdadeiro para a parte ser, por esse motivo, também verdadeiro para o todo.”

A definição de sofismo mudou bastante ao longo dos séculos: atualmente, significa um pensamento ou retórica indutiva ao erro. Na Grécia Antiga, o termo era utilizado no sentido de “transmitir sabedoria” através de técnicas de retórica e argumentação. Etimologicamente, sofismo vem de sophia, cujo significado é “sabedoria”.

O Sofisma da Composição, em Economia, ressalta: o todo não é a mera soma das partes como aparenta ser. Os economistas são obrigados a analisar os efeitos sociais inesperados de todas as decisões individuais, porque nem sempre o que é bom e correto para os indivíduos é o melhor para a sociedade.

Se todo mundo ficar em pé para assistir a um jogo de futebol, ninguém o verá bem e confortavelmente. Inúmeros exemplos análogos podem ser dados em Economia.

Por exemplo, a remarcação de preços pode aumentar o lucro de quem iniciar o processo, mas sua dinâmica interativa poderá resultar em inflação. Em um processo de retroalimentação, todos agentes econômicos podem perder poder aquisitivo real.

Cortar empregos pode ser racional sob o ponto de vista de um empresário. Mas salário representa, ao mesmo tempo, custo trabalhista e demanda social. Se todos desempregam, a classe empresarial sentirá falta de demanda agregada.

Poupança é uma virtude individual, mas se o corte do consumo for generalizado resultará no Paradoxo da Parcimônia: cairão as vendas, aumentará a capacidade produtiva ociosa, desempregará gente, reverterá decisões de investimentos, diminuirá a renda e, em consequência, a poupança futura.

Os banqueiros pensam ser apenas intermediários financeiros entre recursos de terceiros e tomadores de empréstimos. Desconhecem o efeito rede bancária capaz de multiplicar a moeda escritural captada sob forma de depósitos à vista. Como classe, criam moeda.

Se o governo corta gastos sociais, a economia entra em recessão e com a queda do PIB há, em consequência, queda da arrecadação fiscal e elevação do endividamento público em relação ao PIB. Pior, os economistas ortodoxos acham a solução ser maiores cortes de gastos públicos!

A 4ª Revolução Industrial com a automação e a digitalização global eleva a produtividade e maximiza lucros dos acionistas, mas causa também desemprego tecnológico. A solução não é o ludismo: movimento contrário à mecanização ou robotização do processo de trabalho. Visa à destruição da máquina ao responsabilizá-la pelo desemprego. Contra a concepção de qualquer progresso tecnológico ser socialmente nocivo, se contrapõe com a redução da jornada semanal de trabalho, mantendo-se os salários e demais direitos trabalhistas. Repartirá assim mais igualitariamente a mais-valia relativa. Para enfrentar desafios como o atual, serve a visão holística ou sistêmica.

Fernando Nogueira da Costa é É professor titular do IE-Unicamp. Autor de 'Brasil dos Bancos' (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007). É colunista do Brasil Debate

*Publicado originalmente no Brasil Debate


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