Economia Política

Uma depressão econômica ainda maior?

Com a pandemia do COVID-19 se expandindo ainda de forma descontrolada, o melhor cenário econômico que se pode esperar é uma recessão mais profunda do que a que decorreu da crise financeira de 2008. Mas dada a resposta política errática até aqui, aumentam a cada dia as chances de um resultado muito pior

24/03/2020 18:29

 

 
O choque do COVID-19 para a economia global foi mais rápido e mais severo que o da crise financeira global (CFG) de 2008 e até que o da Grande Depressão. Nos dois episódios anteriores, as bolsas de valores caíram em 50% ou mais, os mercados de crédito congelaram, seguiram-se grandes falências, as taxas de desemprego ultrapassaram 10% e o PIB contraiu a uma taxa anualizada de 10% ou mais. Mas tudo isso levou cerca de três anos para acontecer. Na crise atual, resultados macroeconômicos e financeiros igualmente catastróficos ocorreram em três semanas.

No início deste mês, em apenas 15 dias, a bolsa dos EUA despencou, numa queda de 20% em relação ao seu pico – a queda mais rápida da história. Agora, os mercados caíram 35%, os mercados de crédito subiram e os spreads de crédito (como os de títulos não desejados) alcançaram os níveis de 2008. Até os grupos financeiros de grande porte, como Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, prevêm que o PIB dos EUA caia a uma taxa anualizada de 6% no primeiro trimestre e de 24% a 30% no segundo. O secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, alertou que a taxa de desemprego pode ultrapassar 20% (o dobro do pico registrado durante a CFG).

Em outras palavras, todos os componentes da demanda agregada – consumo, gasto de capital, exportações – encontram-se em queda livre sem precedentes. Mesmo que a maioria dos comentaristas, do alto de seu egocentrismo, tenha antecipado uma retração em forma de V – com a produção caindo acentuadamente por um trimestre e se recuperando rapidamente no próximo –, agora deve ter ficado claro que a crise do COVID-19 será algo completamente diferente. A contração hoje em curso parece que não terá forma de V nem de U nem de L (uma desaceleração acentuada seguida de estagnação). Parece-se mais com um I: uma linha vertical que representa os mercados financeiros e a economia real desabando.

Nem mesmo durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, a maior parte da atividade econômica sofreu um apagão como o que ocorre na China, nos Estados Unidos e na Europa hoje. O melhor cenário seria uma desaceleração mais severa que a gerada pela CFG (em termos de produção global cumulativa reduzida), mas mais curta, permitindo um retorno ao crescimento positivo até o quarto trimestre deste ano. Nesse caso, os mercados começariam a se recuperar quando a aparecesse a luz no fim do túnel.

Mas o melhor cenário pressupõe várias condições. Primeiro, os EUA, a Europa e outras economias fortemente afetadas precisariam pôr em prática um sistema generalizado de testes, rastreamento e tratamento do COVID-19, além de quarentena forçada e bloqueio em larga escala, como feito pela China. E, como pode levar 18 meses para que uma vacina seja desenvolvida e produzida, antivirais e outras terapias precisarão ser utilizadas em larga escala.

Segundo, os formuladores de políticas monetárias – que já fizeram em menos de um mês o que levaram três anos para fazer depois da CFG – devem continuar a testar todas as medidas não convencionais na crise. Isso significa taxas de juros zero ou negativas; forward guidance aprimorada; flexibilização quantitativa; e flexibilização de crédito (a compra de ativos privados) para apoiar bancos, instituições financeiras não bancárias, fundos do mercado monetário e até grandes corporações (papel comercial e linhas de títulos corporativos). O Federal Reserve expandiu suas linhas de swaps transfronteiriças para enfrentar a enorme escassez de liquidez de dólar nos mercados globais, mas agora precisamos de mais habilidade para incentivar os bancos a emprestar a pequenas e médias empresas sem liquidez, mas ainda solventes.

Terceiro, os governos precisam lançar mão de estímulos fiscais maciços, inclusive através de “dinheiro de helicóptero”, com o desembolso de valores diretamente para as famílias. Dado o tamanho do choque econômico, os déficits fiscais nas economias avançadas precisarão aumentar de 2-3% do PIB para cerca de 10% ou mais. Só os governos centrais têm balanços grandes e fortes o suficiente para impedir o colapso do setor privado.

Mas essas intervenções financiadas pelo déficit devem ser totalmente monetizadas. Se fossem financiadas por meio de dívida pública padrão, as taxas de juros subiriam de forma acentuada e a recuperação seria sufocada no berço. Dadas as circunstâncias, intervenções há muito propostas pela esquerda da escola de Teoria Monetária Moderna, inclusive o “dinheiro de helicóptero”, ganharam o mainstream.

Infelizmente para o melhor cenário, a resposta da saúde pública nas economias avançadas ficou muito aquém do necessário para conter a pandemia, e o pacote de políticas fiscais hoje em debate não é grande nem rápido o suficiente para criar as condições para uma pronta recuperação. Desse modo, aumenta a cada dia o risco de uma nova Grande Depressão, pior que a original – uma Depressão Ainda Maior.

A menos que a pandemia seja estancada, as economias e os mercados ao redor do mundo permanecerão em queda livre. Mesmo que a pandemia seja mais ou menos contida, no entanto, o crescimento global pode não retornar no fim de 2020. Afinal, até lá, é provável que comece outra temporada de vírus, com novas mutações; intervenções terapêuticas com que muitos estão contando podem se mostrar menos eficazes do que esperado. As economias se contrairiam novamente e os mercados poderiam, mais uma vez, desabar.

Além disso, o pacote fiscal pode levar a um impasse se a monetização de déficits maciços começar a produzir inflação alta, especialmente se uma série de choques negativos na oferta, decorrentes do vírus, reduzir o crescimento potencial. E muitos países simplesmente não podem fazer esses empréstimos em sua própria moeda. Quem vai socorrer os governos, as empresas, os bancos e as famílias nos mercados emergentes?

De qualquer forma, mesmo que a pandemia e suas consequências econômicas fossem controladas, a economia global ainda poderia estar sujeita a vários riscos de cauda de “cisne branco”. Com a aproximação da eleição presidencial americana, a crise do COVID-19 dará lugar a renovados conflitos entre o Ocidente e pelo menos quatro potências revisionistas: China, Rússia, Irã e Coréia do Norte, que já estão usando a ciberguerra assimétrica para minar os EUA de dentro. Os inevitáveis ataques cibernéticos ao processo eleitoral americano podem levar à contestação do resultado final, com acusações de "manipulação" e a possibilidade de violência e distúrbios sociais.

Da mesma forma, como argumentei anteriormente, os mercados estão subestimando enormemente o risco de uma guerra entre os EUA e o Irã este ano; a deterioração das relações sino-americanas se acelera, com um lado culpando o outro pela escala da pandemia do COVID-19. É provável que a atual crise acelere a balcanização e o desemaranhamento da economia global nos próximos meses e anos.

Essa trinca de riscos – pandemias sem contenção, arsenais de política econômica insuficientes e cisnes brancos geopolíticos – será suficiente para atirar a economia global numa depressão persistente e o mercado financeiro num colapso vertiginoso. Após o crash de 2008, uma resposta enérgica (embora tardia) afastou a economia global do abismo. Podemos não ter tanta sorte dessa vez.

Nouriel Roubini é professor de economia na Stern School of Business da Universidade de Nova York. Foi economista sênior para Assuntos internacionais no Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca durante o governo Clinton. Trabalhou para o Fundo Monetário Internacional, o Federal Reserve dos EUA e o Banco Mundial. Seu site é NourielRoubini.com

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Clarisse Meireles

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