Economia Política

Uruguai quer ser a capital do yuan no Cone Sul

O Uruguai espera receber investimentos chineses em setores de maior valor agregado, como o de infraestrutura e o de energias renováveis.

09/04/2015 00:00

Secretaría de Comunicación / Flickr

Créditos da foto: Secretaría de Comunicación / Flickr



A República Popular da China se posicionou como o principal sócio comercial uruguaio nos últimos dois anos. Algo que não chega a ser uma novidade a nível regional: a China também se tornou principal parceiro de Brasil, Peru e Chile, e está entre os principais parceiros para os demais países latino-americanos com os que mantêm relações. O comércio com a China acompanha um aumento substantivo dos empréstimos bancários e dos investimentos estrangeiros diretos (IED) na região da América Latina.

Através do Banco de Desenvolvimento e do Banco de Exportações e Importações, a China já emprestou para nossa região mais de 100 bilhões de dólares, superando os financiamentos do Banco Mundial e do BID juntos. Por isso, o Uruguai tenta se colocar como uma praça financeira que funcione como plataforma regional para os bancos chineses (autoridades públicas estão tentando que el Banco de Desenvolvimento incremente sua presença no país).

Ao longo de 2014, os bancos chineses entregaram créditos por um total de 22,1 bilhões de dólares à América Latina. Quase todos os empréstimos emitidos corresponderam ao Banco de Desenvolvimento e ao Banco de Exportações e Importações, embora também haja participação do ICBC e do Banco da China. A cifra oficial significa um aumento de 70% em comparação com os 12,9 bilhões emprestados em 2013.

Para consolidar a internacionalização do yuan, o governo chinês vem promovendo um plano baseado em três ingredientes básicos: a assinatura de swaps cambiários bilaterais, a instalação de centros de liquidação direta fora da Ásia e, finalmente, a implementação de um programa de investimentos para abrir progressivamente o mercado de capitais. Tudo isso constitui um objetivo a longo prazo, mas que inspiram Montevidéu a tentar ser na América Latina o que Londres, Frankfurt e Paris brigam por ser na Europa: a primeira capital da "moeda do povo" (renminbi, apelido usado na China para se referir ao yuan) no Cone Sul.

Durante a VIII Cúpula China – América Latina e Caribe, na cidade de Changsha, o então ministro da Economia e Finanças do Uruguai, Mario Bergara, manifestou seu interesse de transformar Montevidéu na primeira capital latino-americana especializada no comércio em yuans. Para chegar a ser a capital do yuan na América Latina, Montevidéu deverá acelerar as instâncias para aprofundar sua cooperação bilateral com a China em matéria financeira, seja mediante assinatura de um swap cambiário bilateral, o começo dos trâmites correspondentes para emitir bonos denominados em yuans (os famosos bonos “Dim Sum”), seja com a realização de investimentos transfronteiriços através do programa RQFII, ou se convertendo num centro de liquidação direta, tal como já fizeram várias cidades europeias e asiáticas.

Em resumo, embora o yuan ainda precise trilhar um longo caminho para se tornar uma moeda de reserva, ele avança nesse caminho de forma acelerada, e a América Latina poderia exercer, através do Uruguai, um papel de protagonismo para esse esforço.

Em termos de investimento estrangeiro direto (IED), a partir do ano 2000, as iniciativas chinesas se concentraram principalmente no setor de recursos naturais, energia e mineração. Por um lado, o Uruguai não se colocou no primeiro grupo entre os destinos da dos investimentos chineses na região, mas por outro o país conta com de desenvolvimento da megamineração e de extração petrolífera em plataformas continentais, o que poderia alterar esse panorama.

O Uruguai espera receber investimentos chineses em setores de maior valor agregado, tecnologia e desenvolvimento, que ajudem a desenvolver novas indústrias, como a automotora, têxtil, de energias renováveis, infraestrutura, frigoríficos e agronegócios. Na área automotora, o Uruguai já garantiu investimentos das principais empresas chinesas do setor, e agora espera novas iniciativas em favor da indústria têxtil, apesar da decisão da empresa chinesa Texhong de não concretizar uma aposta milionária que faria em uma empresa em San José, devido à diferença cambiária com o Brasil.

LiuGong, a décima maior empresa do mundo em fabricação de veículos para construção, líder global em vendas de escavadeiras, anunciou a instalação de um centro logístico de peças de reposição no Parque Industrial Zonamérica, periferia de Montevidéu, de onde pretende distribuir material para as 20 filiais da marca na América Latina. A empresa já havia instalado no Uruguai um centro menor de distribuição de peças, terceirizando seu funcionamento com uma empresa local. A base de 25% de faturamento prevista para a marca fora da China corresponde ao mercado latino-americano, esperando que o fluxo de entrada e saída de peças de reposição seja cada vez maior.

No setor de energias renováveis, o interesse se enfoca especialmente em plantas eólicas e solares. A instalação de cinco empresas com capitais chineses no Parque Industrial da cidade de Paysandú chegou junto com um investimento de quase 20 milhões de dólares, além da criação de 180 postos de trabalho: um parque solar fotovoltaico, um laboratório de ensaio e controle de qualidade de painéis solares fotovoltaicos, uma produtora de estruturas e peças metálicas; uma fábrica de painéis solares e uma construtora de produtos de concreto pré-fabricados.

Enquanto isso, as empresas chinesas vem demostrando interesse em reabilitar a rede ferroviária uruguaia, além de projetos de reconstrução e o de um porto de águas profundas.

A consolidação das exportações de carne uruguaia e de produtos agrícolas para a China gera um interesse das empresas chinesas em investir mais nesses setores, buscando assegurar maiores provisões. Tal intenção esbarra em limitações do país com respeito ao setor imobiliário, especialmente a Lei No. 18.092, que impõe restrições à posse de imóveis rurais e estabelecimentos agropecuários.

O Uruguai tem um tratado bilateral de investimento (BIT por sua sigla em inglês) em vigor com a China desde 1997. Ainda assim, o pequeno país apresenta um pacote de vantagens para atrair mais iniciativas chinesas: as poucas restrições ao investimento estrangeiro e a repatriação de capitais, a liberdade cambiária, a solidez econômica, a abertura comercial, a localização estratégica, a infraestrutura moderna, o clima favorável para fechar novos negócios e o ambiente político de pouco risco. Por outro lado, parte do empresariado local adverte os recém-chegados chineses sobre as desvantagens, como os altos custos trabalhistas e o poder de sindicatos fortalecidos.

Dois grupos chineses estão perto de fechar a compra de plantas frigoríficas no Uruguai (frigorífico Las Moras, uma das principais empresas do país no ramo, seria uma delas), o que poderia levar a que mais de 50% da produção de carne bovina do país fique em mãos estrangeiras. Empresas argentinas como a Marfrig Alimentos (com cinco plantas), JBS Friboi (com uma) e Minerva (com duas), já concentram mais de 40% da carne produzida no país. Um novo jogador nesse tabuleiro poderia inclinar definitivamente a balança para o lado da estrangeirização.

Para alguns grupos investidores chineses, também é interessante apostar no negócio do gado ovino, já que o mercado uruguaio está habilitado para cortes com ossos e miúdos. Sebastián Blanco, presidente da Associação de Consignatários de Gado considerou que “pessoalmente, acho que seria muito positivo que um grupo chinês venha a investir na indústria frigorífica uruguaia".

Cabe recordar que o mesmo fenômeno que se vê hoje no Uruguai, com grupos empresariais chineses que apostam na carne, já aconteceu na Argentina, onde um grupo econômico do país asiático comprou uma planta na província de Entre Ríos, próxima à localidade de Colón. É evidente que a China olha cada vez mais para o Mercosul, um polo produtor de alimentos por excelência. A aposta clara é na carne natural, visando ser provedor do mercado na região com presença própria, além de buscar uma estrutura onde possa produzir carne livre de hormônios — no Uruguai o uso de hormônios e antibióticos no processo de engorda está proibido por lei— e com certificações sanitárias seguras.






As empresas chinesas





Antes de deixar o cargo, Roberto Kreimerman, ministro da Indústria durante o governo de José Pepe Mujica, enfatizou que as exportações entre os dois países aumentaram em 680% no período de 2005 até 2012, alcançando uma cifra de 4,4 bilhões de dólares. O ex-ministro afirmou que o fluxo de investimentos da China no Uruguai tem sido intenso, e que por sua vez muitas empresas locais procuram o país asiático em busca de investimentos e negócios. Zhou Zixue, que comandava a mesma pasta no governo chinês até 2014, apontou que as três principais empresas automobilísticas chinesas estão no Uruguai, e também duas gigantes do setor de telecomunicações.






Algumas das empresas chinesas instaladas no Uruguai são:– CCCC Shanghai Dredginmg Corp.: construção e engenharia– Chery Mercosul SA: automotores e autopeças– Cosco Uruguai: transporte marítimo– Huawei Technologies Uruguay: telecomunicações– Wanli Stone: metais e mineração– Primatur Uruguai (Yutong Group): maquinaria industrial– ZTE Corporation Uruguai: telecomunicações– Geely International Uruguai: automotores e autopeças– BBCA Uruguai Biochemical SA: alimentos, bebidas e tabaco– Bridas Uruguai (Cnooc Ltd): energia– Hisud SA (BIPC): indústria têxtil– Lifan Group: automotores e autopeças






Comércio exterior de bens uruguaios com a China





Em 2014, as exportações uruguaias para a China chegaram a 1,5 bilhão de dólares, sem contar as realizadas a partir ou através das zonas francas instaladas no Uruguai, particularmente as dedicadas a operações de soja e celulose.

No mesmo ano, as exportações para a China cresceriam 7% em comparação com o ano anterior (cifras não definitivas), o que pode ser considerado um bom desempenho, tendo em conta o crescimento total das exportações (que se mantiveram estáveis), os registros de Argentina e Brasil no comércio com os chineses, o ritmo mais lento de crescimento econômico da China e a baixa no preço internacional da soja.

Por sua parte, as importações uruguaias vindas do país asiático saltaram para 2,1 bilhões de dólares, mostrando um crescimento de 10% com relação ao ano de 2013, também uma variação bastante superior à apresentada nos casos argentino e brasileiro, assim como em comparação com as importações do Uruguai de forma geral, que diminuíram 1%.

Contudo, na comparação com Brasil e Argentina, deve-se considerar que as duas nações aplicam com a China políticas restritivas ao comércio exterior, especialmente em termos de importações, com o objetivo de proteger sua indústria nacional, o que no caso argentino chegou a afetar até mesmo a fabricação, por empresas locais, de produtos que possuem uma porcentagem importante de insumos trazidos do exterior, e particularmente os de origem chinesa, além de ativar reclamações na Organização Mundial de Comércio (OMC).

Considerando as exportações, a partir e através das zonas francas uruguaias, o país registrou em 2014 um saldo comercial favorável com a China. Por outra parte, o contexto é o mesmo que desafia toda a política regional, já que alguns países-membros do Mercosul, como Uruguai e Paraguai, e também os reunidos na Aliança do Pacífico, aplicam uma política comercial aberta e pouco defensiva com a China. Efetivamente, de acordo com dados da OMC, Argentina e Brasil são os países sul-americanos que aplicam maior número de restrições comerciais e salvaguardas contra o gigante asiático.

No que diz respeito ao saldo comercial, o deficit de 2014 teria aumentado a um total próximo dos 590 milhões de dólares. Porém, computando as diferenças nos registros entregues pela China sobre suas importações de soja e celulose, pode-se chegar a um saldo comercial positivo de mais de 100 milhões de dólares para o Uruguai, o que também é uma diferença com outros países da América Latina, que possuem deficits comerciais crescentes com a China.









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