Economia Política

Vírus desnuda a fragilidade do contrato social

São necessárias reformas radicais para forjar uma sociedade que funcione para todos

05/04/2020 15:22

Voluntários puxam carrinhos cheios de doações de alimentos em Londres. A pandemia de coronavírus expôs a fragilidade das economias de muitos países  (Hannah McKay/Reuters)

Créditos da foto: Voluntários puxam carrinhos cheios de doações de alimentos em Londres. A pandemia de coronavírus expôs a fragilidade das economias de muitos países (Hannah McKay/Reuters)

 

Se existe algo de positivo na pandemia do Covid-19, é que ela injetou um senso de união nas sociedades polarizadas. Mas o vírus, e os bloqueios econômicos necessários para combatê-lo, também lançam intensa luz sobre as desigualdades existentes - e até mesmo criam novas.

Além de derrotar a doença, o grande teste que todos os países enfrentarão em breve é se os sentimentos atuais de propósito comum moldarão a sociedade após a crise. Como os líderes ocidentais aprenderam na Grande Depressão, e após a Segunda Guerra Mundial, para exigir sacrifício coletivo, deve-se oferecer um contrato social que beneficie a todos.

A crise de hoje está pondo a nu quantas sociedades ricas são deficientes desse ideal. Na mesma medida que a luta para conter a pandemia expôs o despreparo dos sistemas de saúde, a fragilidade das economias de muitos países foi exposta, à proporção que os governos lutam para evitar as falências em massa e lidar com o desemprego em massa. Apesar dos apelos inspiradores à mobilização nacional, não estamos realmente juntos nisso.

Os bloqueios econômicos estão impondo o maior custo àqueles que já estão em pior situação. Da dia para a noite, milhões de empregos e meios de subsistência foram perdidos nos setores de hospitalidade, lazer e afins, enquanto aqueles que trabalham com conhecimento, mais bem remunerados, geralmente enfrentam apenas o incômodo de trabalhar em casa.

Pior ainda, aqueles em empregos de baixo salário, que ainda podem trabalhar, estão arriscando suas vidas - como cuidadores e profissionais de assistência médica, mas também como repositores de prateleiras, motoristas de entrega e faxineiros.

O extraordinário apoio orçamentário dos governos à economia, embora necessário, em certa medida tornará as coisas piores. Os países que permitiram o surgimento de um mercado de trabalho irregular e precário estão achando particularmente difícil canalizar ajuda financeira para trabalhadores com um emprego tão inseguro. Enquanto isso, um amplo afrouxamento monetário pelos bancos centrais ajudará os ricos em ativos. Por trás de tudo, os serviços públicos subfinanciados estão rangendo sob o peso da aplicação das políticas da crise.

A maneira como combatemos o vírus beneficia alguns à custa de outros. As vítimas do Covid-19 são predominantemente os mais velhos. Mas as maiores vítimas dos bloqueios são os jovens e ativos, que são convidados a suspender sua educação e abrir mão de uma renda preciosa. Os sacrifícios são inevitáveis, mas toda sociedade deve demonstrar como oferecerá restituição àqueles que carregam o fardo mais pesado dos esforços nacionais.

Reformas radicais - invertendo a direção política predominante das últimas quatro décadas - precisarão ser colocadas sobre a mesa. Os governos terão que aceitar um papel mais ativo na economia.

Eles devem ver os serviços públicos como investimentos, e não como obrigações, e procurar maneiras de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará novamente na agenda; os privilégios dos idosos e dor ricos estarão em questão. As políticas até recentemente consideradas excêntricas, como renda básica e impostos sobre a riqueza, terão que estar presentes na composição.

As medidas inusitadas, quebrando tabus, que os governos estão adotando para sustentar empresas e rendas durante o bloqueio são, corretamente, comparadas com o tipo de economia que os países ocidentais não experimentaram durante sete décadas. A analogia vai ainda mais longe.

Os líderes que venceram a guerra não esperaram pela vitória para planejar o que viria a seguir. Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill publicaram a Carta do Atlântico, estabelecendo o curso para as Nações Unidas, em 1941. O Reino Unido publicou o Beveridge Report, seu compromisso com um estado de bem-estar universal, em 1942. Em 1944, a conferência de Bretton Woods forjou a arquitetura financeira do pós-guerra. Esse mesmo tipo de previsão é necessário hoje. Além da guerra da saúde pública, os verdadeiros líderes se mobilizarão agora para conquistar a paz.

*Publicado originalmente em 'Financial Times' | Tradução de César Locatelli

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