Economia Política

'A finança é uma coisa séria demais para ficar nas mãos dos homens da finança'

Em novembro de 2013, Larry Summers, secretário do Tesouro dos EUA no governo Clinton, fez um balanço da resposta que foi dada à crise financeira de 2007.

06/02/2014 00:00

Arquivo

Créditos da foto: Arquivo


No dia 8 de novembro de 2013, Larry Summers, secretário do Tesouro dos Estados Unidos no governo de Bill Clinton, fez um balanço da resposta que foi dada à crise financeira que perdura, desde 2007, no mundo. O diagnóstico apresentado em uma reunião do FMI reconhece um quadro sombrio. Para o economista, está claro que “a finança é uma coisa séria demais para ficar nas mãos dos homens da finança”.


A palestra de Larry Sumers (“A crise ontem e hoje”) na 14ª Reunião Anual do Fundo Monetário Internacional, em Washington, pode ser vista aqui (no original em inglês). Pela importância que tem para a compreensão de como a crise e as soluções encontradas são vistas no centro do capitalismo mundial, reproduzimos abaixo a íntegra da intervenção de Larry Summers e o diagnóstico que ele apresenta sobre a crise.

A crise ontem e hoje - Larry Summers


Eu estou muito feliz com a oportunidade de estar aqui. Teve uma ocasião em que falei, há alguns anos, a respeito das notáveis conquistas de Stan (Stanley Fischer) no FMI, quando ele deixou o FMI, e tive uma oportunidade, há alguns meses, de falar de suas notáveis conquistas no Banco Central de Israel, quando ele saiu do Banco Central de Israel. Então, não vou falar sobre nenhuma dessas realizações, aqui.

Em vez disso, o número que está na minha mente é um número que eu acho que é inteiramente desconhecido da imensa maioria da plateia, mas é conhecido de todas as pessoas na mesa: 14. 462; este foi o número de alunos do curso de economia monetária no MIT, ministrado por Stanley Fischer, na pós-graduação.


Esta foi uma das razões importantes por que eu escolhi passar a minha vida, como eu passei, como um macroeconomista, e eu suspeito fortemente que o mesmo é verdade para Olivier [Blanchard], para Ben [Bernanke] e para Ken [Rogoff].

Foi uma experiência intelectual notável. E também o foi porque Stan nunca perdeu de vista de que isso nunca foi apenas jogo intelectual: entender essas questões corretamente faz uma profunda diferença na vida das nações e do seu povo.


Assim, deixarei para outros a tarefa de falar do FMI, e Israel, e direi ao Stan, obrigado, em nome de todos nós, os 14. 462, e para todos os outros que você vem ensinando, desde então.

Eu concordo com a imensa maioria do que acaba de ser dito [por Ben Bernanke, Stan Fischer e Ken Rogoff]: a importância de se ter movido rapidamente, a importância de providenciar liquidez, decisivamente, a importância de não se permitir que os problemas financeiros apodrecessem o sistema, a importância do estabelecimento de uma estrutura mais compreensiva, capaz de impedir uma crise futura. Se eu ainda fosse do setor público, eu estaria discursando mais detidamente sobre cada um desses temas de maneira consistente, ou ao menos que eu esperaria fossem consistentes. Mas eu não sou parte do setor público, então, não vou falar disso.

Eu vou falar a respeito de outra coisa, que me parece profundamente ligada a isso, que é a preocupação perturbadora de que a finança é importante demais para ser deixada inteiramente nas mãos dos homens da finança. A estabilidade financeira é na verdade uma condição necessária para uma performance econômica satisfatória mas, como os que focam na finança às vezes fracassam em reconhecer, está longe de ser suficiente.

Nós todos concordamos, e eu penso que nossa concordância é consistente, que um trabalho notável foi feito, na contenção da crise de 2007/2008. Que a crise, com a cara que tinha no outono de 2008, era, com base em todas as estatísticas (PIB, produção industrial, emprego, comércio exterior, mercado de ações), a pior desde 1929 e do inverno de 1930; e que terminou de uma maneira muito pouco similar à da Grande Depressão. Esta é uma grande conquista, que devemos celebrar, com razão.

Mas eu penso que há um outro aspecto da situação que requer nossa atenção e tende a receber reflexão  insuficiente a respeito, que é este: a quantidade de homens e mulheres, ou adultos, nos EUA, que está trabalhando hoje é essencialmente a mesma de quatro anos atrás. Quatro anos atrás, o pânico financeiro foi contido, o dinheiro das operações securitárias dos derivativos e dos bancos-sombra foi coberto, o spread do crédito foi substancialmente normalizado, não havia pânico no ar. Quatro anos atrás. Foi um grande feito que isso tenha ocorrido tão rapidamente.

Mas, nesses quatro anos, a quantidade de adultos trabalhando não aumentou, absolutamente, e o PIB caiu muito mais do que havíamos previsto no outono de 2009. E a sombria experiência americana não é a única, nesse quesito, como Ken Rogoff e Carmen Reinhart documentaram em seu trabalho, no começo da crise financeira. O Japão oferece um exemplo particularmente claro. Eu me lembro, no começo da administração Clinton, que nós entramos numa onda de projeções econômicas globais, de longo prazo. O PIB do Japão, hoje [2013] está na metade daquilo que acreditávamos que seria, do que o FMI acreditava que seria, na época, do que o Banco Mundial acreditava que seria, em 1993.

Este é um pilar central, tanto dos modelos clássicos, como dos keynesianos, de que a política de estabilidade refere-se fundamentalmente na questão da flutuação – flutuações em torno da moeda - e que um objetivo viável e portando adequado da política macroeconômica é ter menos volatilidade. Eu me pergunto se uma série de ideias mais velhas e mais radicais que, eu tenho de dizer, foram bem firmemente rejeitadas, lá nas turmas 14462, Stan, uma série de velhas ideias que caíam sob a frase da “estagnação secular”, não seriam profundamente importantes para entender a experiência do Japão nos anos 90, e talvez não sejam sem relevância para a experiência americana hoje.

Deixem-me dizer um pouco a respeito das razões por que eu sou levado a pensar nesses termos. Se eu volto e estudo economia, antes da crise, algo estranho aparece. Muita gente acredita que a política econômica é muito fácil. Todo mundo concorda que havia uma grande quantidade de empréstimos imprudentes feitos.
 
Quase todo mundo acredita que o enriquecimento experimentado  no setor do crédito habitacional excedeu a realidade: era dinheiro fácil demais, empréstimo demais, riqueza demais. Havia uma grande bolha? A capacidade de consumo não estava sob grande pressão. O desemprego não alcançava qualquer nível relevante.


A inflação estava inteiramente sob controle. Então, de alguma maneira, até mesmo uma grande bolha não foi suficiente para produzir qualquer excesso na demanda agregada.

Agora, pensemos no período que sucedeu a crise financeira. Eu sempre gosto de pensar nessas crises como análogas a uma potência falida ou como análoga ao que aconteceria se todos os fios fossem desligados ao mesmo tempo. Considere um acontecimento como esse. A rede iria colapsar. As conexões desapareceriam. E a saída seria baixar a bola rapidamente. Uma série de economistas explicaria que a eletricidade representava apenas 4% da economia, e que assim, se você perde 80% da eletricidade, você não poderia ter perdido mais do que 3% da economia.


Talvez em Minnesota ou em Chicago haja alguém escrevendo um artigo dizendo isso, mas a maior parte dos demais reconhece que este é um caso em que a evidência do que aparece aos olhos excede a lógica da teoria microeconômica dura.

E entenderíamos que, de alguma maneira, mesmo se não tivéssemos entendido exatamente o modelo, quando não há qualquer eletricidade não tem como haver muita economia. Algo similar era verdade com respeito ao fluxo e à interconexão financeira. E é por isso que é tão importante acender as luzes de novo, e é por isso que é tão importante conter  o sistema financeiro.

Mas imaginem meu experimento numa situação em que, em poucos meses, 80% da eletricidade fosse desligada. O PIB iria colapsar. Então, pergunte a si mesmo, o que você pensa que aconteceria ao PIB, após isso? Você, claro, esperaria que houvesse uma série de atualizações, com toda aquela coisa de inventários caudalosos, sendo produzidos com muito mais velocidade. Assim, você na verdade esperaria que, uma vez normalizadas as coisas, você teria um PIB maior do que aquele de quatro anos mais tarde – o que implicaria que você teria um PIB substancialmente menor do que aquele que tinha antes. Assim, algo estranho aparece na normalização da finança, se o pânico de continuar a crescer lentamente for todo o nosso problema.

Então, qual a explicação que daria conta de ambas as observações? Suponha que a taxa de juro real de curto prazo, que fosse considerada consistente com o pleno emprego, tivesse caído a menos de 2 ou 3% em algum momento do meio da última década. O que aconteceria? Então, até mesmo com os estímulos artificiais da demanda oriundos de toda essa imprudência financeira, você não veria qualquer excesso de demanda. E mesmo com a retomada relativa da normalização das condições do crédito, você teria muita dificuldade de retomar o pleno emprego.

Sim, foi demonstrado de maneira absolutamente conclusiva que o pânico é terrível e que a política monetária pode contê-los quando a taxa de juros é zero. Foi demonstrado, menos conclusivamente, mas presumivelmente, que quando as taxas de juros de curto prazo são zero, a política monetária pode afetar uma constelação de outros preços de ativos, de sorte que dão suporte à demanda mesmo quando as taxas de juros de curto prazo não podem ser reduzidas. O escopo desse impacto sobre a demanda está menos claro, mas está aí.

Agora, imagine uma situação em que o equilíbrio das taxas de juros tivessem caído significativamente abaixo de zero. Então, o pensamento convencional macroeconômico nos deixa diante de um problema sério, porque todos nós parece que concordamos que, ao passo que se pode manter as taxas dos fundos federais baixas para sempre, é muito mais difícil tomar medidas extraordinárias além desse para sempre; no entanto, o problema subjacente pode estar lá para sempre.
 
É muito mais difícil dizer, bem, nós precisamos de déficits apenas durante o curto intervalo da crise, se as taxas de equilíbrio não podem ser alcançadas, dado índice de inflação.

Se essa visão está correta, a maior parte do que deve ser feito com a perspectiva de se evitar uma crise futura seria contra produtivo, porque implicaria, de uma maneira ou de outra, aumentar o custo da intermediação financeira, e portanto operar para baixar a taxa de equilíbrio com garantias seguras de liquidez.

Agora, tudo isso pode parecer loucura, e eu posso não ter absolutamente esse direito. Mas a mim parece que, quatro anos após o bem sucedido combate da crise, na medida em que não temos de fato evidências de crescimento econômico que esteja restaurando o equilíbrio, é o caso de se preocupar com uma agenda política que está fazendo menos pela política monetária do que já fez antes; que está fazendo menos pela política fiscal do que já fez antes, e dando passos cujo propósito básico é diminuir o crédito, o empréstimo e a elevação do preço dos ativos, diferente do que o fez antes.

Portanto, minha lição dessa crise, e minha lição mais abrangente, é que eu tenho de dizer o que eu penso que o mundo subestimou, é que ela não acabou, até que tenha acabado, e que o seu termo certamente não é agora, e não pode ser avaliado em função da extensão do pânico da finança. E que talvez todos nós precisemos, nos próximos anos, pensar a respeito de como dirigir uma economia na qual a taxa de juros nominal a zero é um inibidor crônico e sistêmico da atividade econômica, que amarra a nossa economia e a deixa abaixo de seu potencial.

Muito obrigado.

Tradução: Louisa Antônia León



Conteúdo Relacionado