Economia Política

Agronegócio: a farsa do admirável mundo novo

A questão dos transgênicos é somente mais um componente da atual situação da produção de alimentos industriais no mundo. O domínio das corporações é total.

19/08/2014 00:00

Arquivo

Créditos da foto: Arquivo


Porto Alegre (RS) – No início de agosto os plantadores de soja e milho no Mato Grosso estavam revoltados com o prejuízo que a lagarta do cartucho promoveu na safrinha. Uma saca do milho transgênico da Monsanto custa R$450,00, enquanto a do convencional custa R$250,00, dizia um plantador de Campo Verde, ao lado de Primavera do Leste.

“- Fiz quatro aplicações no milho convencional da área de refúgio e três no milho transgênico.”

O transgênico comprado já vem com o veneno contra a lagarta, ou seja, compraram gato por lebre. Um dirigente da APROSOJA, a associação representa a classe no maior estado produtor de grãos do país, também se mostrava indignado, informava que a entidade entrou com uma ação de questionamento contra quatro empresas produtoras de sementes – Monsanto, Dupont, controladora da Pionner, Syngenta e Basf.

Esse é o resumo da ópera da disseminação pelo planeta de sementes transgênicas, nos últimos 20 anos, contando pela experiência dos Estados Unidos, país que lidera o plantio e também a venda desses produtos.

Em 2012, quase na mesma época 34 agricultores brasileiros, muitos do Mato Grosso, ganharam um concurso da Monsanto chamado “OS ELEITOS”, entre 500 concorrentes de todas as regiões do país. Eles foram os pioneiros no plantio da nova semente da Monsanto – Intacta RR2 PRO -, chamada de segunda geração, produzirá uma planta imune a dois tipos de herbicidas e também aos insetos.

“- Fiquei impressionado com a quantidade e o cuidado com a pesquisa para a resistência de pragas. Não imaginava que havia tanta tecnologia por trás do processo de desenvolvimento”, disse Rafael Kummel, da Fazenda Dr. Paulo, de Nova Mutum (MT), a 250 km de Cuiabá, onde marca o início das lavouras na BR-163, corta a Amazônia ao meio em Santarém (PA).

Carta ao Papa

No final de abril deste ano, um grupo de oito pesquisadores – Ana Maria Primavesi, Andres Carrasco, Elena Alvares-Buylla, Pat Mooney, Paulo Kageyama, Rubens Nodari, Vandana Shiva e Vanderley Pignati – enviaram uma carta ao Papa Francisco tratando do assunto.

“- A transgenia é uma ameaça aos camponeses, à soberania alimentar, à saúde e à biodiversidade no planeta. Ela reduz a produtividade, provoca o aumento exponencial do uso de agrotóxicos. É um instrumento chave para facilitara maior concentração corporativa da história da alimentação e da agricultura. Seis empresas transnacionais controlam a totalidade dos transgênicos semeados comercialmente. Como resultado do avanço da industrialização da cadeia alimentar nas mãos das corporações do agronegócio, aumentou o número de desnutridos e obesos, fenômeno que agora é sinônimo de pobreza e não de riqueza. O sistema agroindustrial produz 30% dos alimentos do mundo e usa 80% das terras e consome 70% da água. A tecnologia transgênica é uma técnica inexata sobre a qual não se tem controle de suas consequências”.

Fiz um resumo, porque além da carta os pesquisadores anexaram um documento técnico que é um resumo sobre os acontecimentos nesta área nos últimos 20 anos. Principalmente, pelo fato de tamanha mudança na produção de alimentos seja cercada de todo tipo de barreira, para discutir as fórmulas que as corporações usam para obter seus resultados. E o que é pior: quando um pesquisador inicia uma pesquisa que desmente tais resultados é logo execrado. Os pesquisadores também relataram o caso da soja na Argentina, de onde saíram os grãos contrabandeados para o Rio Grande do Sul, na implantação da transgenia no Brasil. São quatro mil fundos especulativos que arrendaram terras e hoje participam na produção de 55 milhões de toneladas de soja, o terceiro maior produtor mundial – o primeiro é o Brasil com 81 milhões, o segundo Estados Unidos com mais de 80 milhões. Ou seja, dos 267milhões de toneladas de soja produzidas no mundo, os três países contribuem com 216 milhões.

“Admirável Mundo Novo” é um livro escrito pelo inglês Aldous Huxley, neto do biólogo Thomas Huxley, parceiro de Charles Darwin, no lançamento da Teoria da Evolução. Foi escrito em 1932, trata do avanço da industrialização, é uma metáfora, e constrói um mundo futurístico, onde as pessoas são divididas em castas desde o nascimento, andam de helicóptero, tomam um comprimido para alcançar a felicidade, tratam do corpo como um espetáculo e são cercados por uma tela metálica elétrica – 60 mil volts -, que os separam dos “selvagens”.

Pesquisando nos últimos dias sobre o tema da transgenia encontrei um artigo numa revista do interior paulista onde falava do “Admirável Mundo Transgênico”. Daí o título. Este é o primeiro fato. No início dos debates, antes da liberação da transgenia no Brasil, no início dos anos 2000, era comum professores de universidades, pesquisadores das mais variadas instituições defenderam a transgenia, como algo que mudaria a vida dos habitantes do planeta. Sempre citando a segunda e, mais recentemente, a terceira geração. Então tudo era possível: de frutas com mais vitamina C, de grãos enriquecidos com diferentes vitaminas, até os alimentos vacinas – “imagina uma criança comer uma banana e ficar vacinada contra a poliomielite?”.

Qual é a realidade em 2014? A lagarta do cartucho comendo o milho transgênico. E mais: a APROSOJA e seus associados ganharam da Monsanto uma cobrança de royalties que eles pagaram a mais pela primeira semente, porque a patente estava vencida. O Supremo Tribunal de Justiça julgou a questão e mandou a Monsanto pagar R$215 milhões aos plantadores. Resultado: a entidade fez um acordo com a corporação para descontar R$18,50 durante quatro anos dos próximos royalties que eles pagarão pela semente Intacta RR PRO, recém- lançada. Resumindo: eles pagavam R$26,00 por hectare pela primeira semente, e agora vão pagar R$96,50 – com o desconto – pela segunda semente. Não é uma beleza?

Entretanto, a questão dos transgênicos na realidade é somente mais um componente da atual situação da produção de alimentos industriais no mundo. O domínio das corporações é total. Na comercialização e exportação dos grãos apenas quatro empresas dominam 75% dos negócios – Cargill, Louis Dreyfus, Bunge e ADM. O faturamento das quatro em 2013 passou de US$230 bilhões. A maior delas, a Cargill, alcançou US$136,7 bilhões, seguida pela Louis Dreyfus – a única da Europa – com US$66 bilhões, as outras duas, Bunge e ADM, na casa dos US$15 bilhões. A questão não é somente soja, farelo e óleo, elas dominam os principais grãos, mais cacau – caso da francesa Louis Dreyfus-, açúcar e todos os derivados possíveis.

Proteína na salsicha

A Cargill tem a marca Innovatti e a Bunge, uma associação com a Dupont, com a marca The Solae Company. Em resumo, elas produzem proteína isolada de soja, que é utilizada na produção de suplementos alimentares, alimentos funcionais, bebidas líquidas e em pó e barras de cereais. A proteína concentrada é empregada na fabricação de salsichas, mortadelas ou itens que levam carne moída. A lecitina de soja, outro derivado, e encontrada em qualquer produto do mercado, de sorvete a biscoitos, chocolates. Em 2013, a indústria de alimentação no Brasil teve um faturamento de R$487 bilhões, sendo que 85% desses alimentos são processados.

Sobre a Cargill, tem um adendo: há 14 anos, ela mantém no Brasil o Banco Cargill S/A, com ativos de quase R$2 bilhões, e carteira em vários segmentos: financiamento rural, câmbio, gerenciamento de riscos. É corrente a história no Mato Grosso, que a maioria dos plantadores de soja e milho está nas mãos das “tradings”, que financiam as lavouras, adiantam dinheiro e insumo, em troca da safra futura. A pesquisadora Emilia Jomalinis de Medeiros Silva, da UFRJ tem um trabalho sobre o funcionamento das tradings no MT e o avanço da soja na BR-163. Ela cita a safra 2005/2006 quando o financiamento chegou a R$30 bilhões.

Parceiras na dominação

O fato é que as corporações dominam o planeta de cabo a rabo. Na área de sementes e agrotóxicos começaram a realizar pesquisas conjuntas, para reduzir custos. Em 2013,

Monsanto e Basf lançaram um milho transgênico que eles dizem ser “tolerante à seca”. É assim que é divulgado, como se fosse possível. A boca pequena os executivos dizem que é “resistente a uma seca moderada”. Lembrando que o lançamento sempre ocorre primeiro nos Estados Unidos, onde o Meio-Oeste sofreu a maior seca dos últimos 50 anos. Bayer e Syngenta se preparam para lançar uma semente de soja transgênica para a América Latina em 2015. A Bayer só tem 0,5% desse mercado e quer chegar a 2%. A Pionner (Dupont) pagou quase dois bilhões de dólares para ter acesso às sementes de segunda geração transgênica.

Integrados de luxo

Claro, todo esse movimento envolvendo a soja para vender aos chineses, que em 2013 compraram 62 milhões de toneladas, para transformar em ração para aves e suínos. Eles compram grãos, porque Cargill, Bunge e ADM estão expandindo o esmagamento de soja na China, construindo fábricas ou se associando com empresas locais, inclusive estatais. A industrialização da soja na China saltou de 4% para 27%, na Argentina foi de 9 para 16%, porque existem facilidades e menores custos na exportação. No Brasil, o maior produtor, se manteve em 16%, e nos Estados Unidos caiu de 37% para 21%. As corporações calculam que o mercado de rações na China continue crescendo 5% ao ano.

Luiz Carlos Oliveira Lima, também da UFRJ, é o autor da pesquisa “Sistema de Produção de Soja um Oligopólio Mundial”. Ele registra:

“- As empresas aumentam a escala de operações, aprofundando a concentração e a centralização do capital na indústria da soja e derivados, visando aumentar sua liderança no mundo global. O cluster de empresas globais é caracterizado pela sua inserção no oligopólio mundial de soja, integrando a atividade industrial com bancos corporativos e, pelo investimento estratégico em aquisições e fusões, em produção, em logística integrada e gestão do conhecimento. O cluster de empresas globais adotou como mecanismo de coordenação a organização multidivisional e em rede, integrando produtores de grãos de soja, que foram incorporados como fornecedores de matérias-primas necessárias na produção de óleo e farelo”.

Alimento de péssima qualidade

Ou seja, não são produtores, são tarefeiros de luxo, executam pacotes tecnológicos que as corporações vendem. Não decidem nada, a não ser o avanço na fronteira agrícola, porque o “mundo” precisa de soja. Nessa estratégia avançaram na Amazônia, desde que a Cargill montou um terminal em Santarém no início dos anos 2000. E o avanço vai aumentar, com a transformação do distrito de Mirituba, no município de Itaituba (PA), em estação de transbordo – os caminhões trazem a soja e o milho em caminhões pela BR-163 e descarregam nos comboios de balsas, que entregarão no terminal de Barcarena (PA). A Bunge investiu R$700 milhões nessa operação, que já está funcionando. E ainda se associou com o grupo do senador Blairo Maggi, criando a Navegação Unidas Tapajós Ltda., com aporte inicial de R$300 milhões.

Tudo isso para aumentar a oferta de carnes de aves, suínos, patos, perus no mundo. Que são criados de uma forma “homogênea”, como definem os manuais técnicos. São galpões de 126 metros de comprimento por 16 metros de largura e capacidade para 31.500 frangos. Para o bem-estar dos frangos a União Avícola Brasileira preconiza 39 kg por metro quadrado. Um frango é abatido aos 42 dias em média, com 2,3 kg. Significa que, ao atingir dois quilos convivem 20 frangos por metro quadrado. Mais: eles não são criados com hormônios, como se divulga popularmente. Não, as corporações químicas descobriram que os antibióticos – vários de uso para humanos – funcionam como “promotores de crescimento”, dando um impulso de 10% e mais 10% na conversão alimentar, que é a medida de quanto o frango come em ração e converte em carne.

Por sinal, recentemente a Comissão Técnica de Avicultura da Federação da Agricultura do Paraná, estado maior produtor de frangos – 3,8 milhões de toneladas-, promoveu um debate entre os integrados, termo que define os criadores de frangos, que são funcionários das empresas, sem a estabilidade e os direitos trabalhistas. Eles reclamam dos contratos “leoninos”, que são obrigados a cumprir. Eles ganham conforme a eficiência na conversão alimentar dos frangos.
 
Tudo definido pela empresa, que traz todo o pacote até a propriedade do integrado. Se o frango não converte o que está no contrato, ou se os componentes da ração – fabricada pela empresa – mudarem, e for impossível ter tal ganho de peso, azar do integrado.

Este é o panorama do agronegócio mundial, que mais uma vez no Brasil, se prepara para reforçar sua bancada no Congresso e implantar sua plataforma política, e como bons integrados, tarefeiros das corporações, cumprir as metas globais. O custo, o restante da população continuará pagando: na saúde, pela destruição dos ecossistemas, pela contaminação das águas, pela destruição de margens e nascentes de rios. Por comer um alimento de péssima qualidade.



Conteúdo Relacionado