Economia Política

Economista contesta mito da era de ouro da Argentina

Economista questiona mito da era de ouro da economia argentina usado para criticar experiências políticas e econômicas alternativas na América Latina.

06/03/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Buenos Aires - As dificuldades econômicas que o governo de Cristina Kirchner enfrentou nos últimos meses foram aproveitadas pela imprensa internacional e pelos meios de comunicação opositores argentinos para reviver um velho mito: o da riqueza argentina do início do século XX e sua posterior decadência devido à irrupção do peronismo em 1943-1945. O New York Times, o semanário britânico The Economist, o El País e o The Wall Street Journal assinalaram que entre 1900 e 1914 o Produto Interno Bruto se situava entre os dez maiores do planeta. “Em 1914 a Argentina era o país do futuro. Seu PIB per capita era mais alto que o da Alemanha, França ou Itália. Para um homem jovem e ambicioso, a escolha entre Argentina e Califórnia era muito difícil”, disse a The Economist em sua matéria de capa intitulada “A tragédia da Argentina. 100 anos de decadência”.

Na página do Economitor, dirigido pelo célebre economista Nouriel Roubini, o economista argentino Eugenio Díaz Bonilla, do International Food Policy Institute (IFPRI), de Washington, usou os dados do projeto Maddison – a melhor fonte para a comparação global histórica de distintas nações – para contestar esse mito usado hoje para questionar experiências econômicas alternativas como as de Argentina, Brasil, Bolívia, Equador e Venezuela. A Carta Maior conversou com Díaz Bonilla sobre esse tema.

Carta Maior : Segundo a The Economist, nos 43 anos precederam a Primeira Guerra Mundial, a Argentina cresceu cerca de 6%/ano, um recorde mundial. São dados supostamente fortes, mas você diz que eles também fazem parte de um “mito”. Por quê?

Díaz Bonilla: As comparações que costumam ser feitas para sustentar esse mito são com os Estados Unidos, Austrália e Europa. Se tomarmos como ponto de referência a renda per capita dos Estados Unidos em 1900, a Argentina, assim como Alemanha e França, tinha aproximadamente 70% do PIB per capita dos Estados Unidos, enquanto que a Austrália estava com 98%, em paridade quase absoluta com os EUA. Com este ponto de partida, pode-se chegar a uma conclusão como a da The Economist porque hoje o PIB per capita argentino em relação ao estadunidense é de 33,6%. Agora, se seguirmos os dados do projeto Madison e compararmos a Argentina com a Austrália,  veremos que ambos os países evoluíram de maneira muito similar em relação à renda per capita estadunidense até 1975, ainda que sempre com uma vantagem para a Austrália que tem menos população e mais recursos minerais per capita.

O que ocorre entre 1938 e 1944 é que os Estados Unidos duplicam a renda per capita durante a Segunda Guerra Mundial. De modo que não é a Argentina, e a Austrália, que deixam de crescer porque adotaram uma política distinta, mas sim que os Estados Unidos, entre 1938 e 1944, crescem a uma média de 12% ao ano e aprofundam, pelo desenvolvimento vinculado à guerra, a distância com ambos os países. O outro ponto de comparação que se faz com a Argentina – os países europeus – não leva em conta que, no período pós-guerra, com o Plano Marshall estadunidense, a Europa obtém um crescimento do PIB per capita de 3% ao ano, entre 1945 e 1975, muito acima da tendência anterior.

Tanto a Argentina como a Austrália, que não contaram com esse plano Marshall, perderam terreno em relação a Europa. O que está claro é que a real diferença entre Argentina e Austrália ocorre entre 1975 e 1989. Se tivéssemos seguido crescendo como o fizemos até 1975, hoje teríamos um crescimento per capita próximo ao da Nova Zelândia ou da Espanha. O golpe militar de 1976 foi crucial nesta decadência. Este é um elemento que o mito não leva em conta.

Carta Maior: Outro elemento que o mito raras vezes menciona é que a Argentina participava, no início do século XX, de um modelo de comércio internacional no qual exportava matérias primas e importava produtos manufaturados. Se é possível fazer comparações entre Argentina e Europa do ponto de vista da renda per capita nesta época, em nível de estrutura econômica havia uma distância sideral. Exagerando um pouco as coisas se poderia dizer que a Argentina era a Arábia Saudita do início do século passado.

Díaz Bonilla: Sobre isso é muito útil o trabalho de Barrington Moore, “The Social Origins of Dictatorschip and Democracy”, onde ele analisa a importância da estrutura agrária. Nos Estados Unidos houve uma grande ocupação territorial na base da colonização familiar que provocou uma distribuição da terra muito mais equitativa. Isso favoreceu o desenvolvimento do mercado interno, da indústria e da democracia. No caso argentino, o território foi ocupado por muito menos gente, muito mais rapidamente e de modo mais concentrado depois da conquista do deserto. Diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos, a Argentina ficou muito fixada na exportação.

Além disso, os Estados Unidos receberam muito mais imigração. Há um livro de Alan Bettie, “False economy: A surprising economic history of the world”, que diz que as maiores nações estavam mais ou menos iguais no século XIX, mas os Estados Unidos adotaram as políticas corretas e a Argentina não. Esta versão não leva em conta em anda a diferença demográfica e de recursos entre os dois países. Em 1870, os Estados Unidos tinham a mesma população que a Argentina tem hoje, cerca de 40 milhões de habitantes. Além disso, ele se tornou independente da principal potência mundial da época, a Inglaterra, bem antes da revolução de maio. Não há ponto de comparação, desde o ponto de vista histórico ou de desenvolvimento agrário, produtivo ou demográfico.

Outro exemplo histórico nos ajuda a ver a importância destas condições objetivas de território, população e história: o caso da Espanha e dos mouros. A Espanha tem hoje uma estrutura agrária de minifúndios na zona leste e nordeste e de latifúndios na zona sudoeste. Por quê? Porque a reconquista levou muitos séculos na parte nordeste e leste. Em troca, no sul, a liberação foi mais rápida e essa terra foi dividida entre um menor número de pessoas, o que gerou uma estrutura mais latifundiária.

Carta Maior: A novela de Mario Vargas Llosa, “Conversa na Catedral” começa com um personagem se perguntando “quando o Peru se fodeu?”. Poderíamos perguntar o mesmo para toda a América Latina, começando pela Argentina. “Quando a Argentina se fodeu?”

Díaz Bonilla: A história, a geografia e a demografia condicionam o padrão de desenvolvimento de uma economia. A Austrália tem um território muito maior que a Argentina, recebeu menos gente e, além disso, tinha metais preciosos. Com isso, sempre teve um nível de receitas superior a Argentina. A Argentina, durante muito tempo, vendeu um único produto, a carne salgada. Só com o frigorífico e a consolidação do mercado internacional de grãos se produziu uma mudança que permitiu ao país dar um grande salto, mas aí a estrutura agrária já estava muito consolidada. Com esta estrutura tem que se adaptar à democracia e à necessidade de uma indústria. Aqui é interessante a comparação com os Estados Unidos. Os EUA decidiram o dilema do país agrário versus país industrial no século XIX com a guerra civil que, além do tema da escravidão, era um enfrentamento entre o sul agroexportador e o norte industrial, mais centrado no mercado interno.

Depois, no início do século XX, os EUA fizeram o debate sobre o voto da mulher. E, em 1960, cem anos depois da guerra civil, teve a discussão sobre a incorporação política das minorias. Desde esta perspectiva, pode-se dizer que o peronismo foi uma tentativa de fazer essas três coisas juntas: o modelo industrializador, o voto feminino e a incorporação de grupos sociais que estavam marginalizados do sistema político, ainda que certamente não fossem minorias. Essa tentativa chocou-se com a estrutura prévia agroexportadora, pouco democrática, um choque que demoramos desde 1955 até 1983 para processar.

O golpe militar de 1976 foi uma tentativa de solução final do peronismo que era um processo de modernização e inclusão social do país. Com o retorno da democracia, o radicalismo teve a má sorte de governar com a forte dívida externa gerada pelo governo militar, uma queda dos preços dos produtos primários e um setor sindical que queria, compreensivelmente, recuperar o que havia sido perdido durante a ditadura militar, ao que se somaram algumas tentativas de golpe. A partir de 89-90 a Argentina volta a crescer, não obstante a grande desilusão que termina sendo a conversibilidade e, a partir de 2002-2003, a Argentina cresce até 2011 em um ritmo que é o mais alto desde o fim do século XIX.

Carta Maior: A Argentina não é um caso único no contexto da América Latina. Se comparamos a América Latina com a Ásia, vemos que há países asiáticos que se tornaram desenvolvidos, como Japão ou Coreia do Sul, algo que não aconteceu na América Latina. Por quê?

Díaz Bonilla: A Ásia nunca teve os recursos naturais da América Latina. De modo que, se querem crescer, não tem outra opção do que criar Toyota ou Hyundai ou fazer grandes avanços neste terreno para se desenvolver. Se comparamos os países asiáticos com a Austrália, se vê o mesmo. Não há grandes marcas industriais australianas. O que há são grandes empresas mineradoras. A estrutura de recursos e de produção de um país influi no tipo de desenvolvimento. A América Latina tem recursos naturais: agricultura, energia e metais. Isso marcou a direção de seu desenvolvimento.

É necessário um esforço deliberado como sociedade para gerar uma visão estratégica que permita ir além de produzir produtos primários. Mas também é certo que Japão e Coreia tiveram grande apoio dos EUA para sua recuperação e retomada depois da Segunda Guerra Mundial, nos marcos da Guerra Fria.
 
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



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