Economia Política

Einstein e a crise da economia brasileira

Einstein não só entendeu o funcionamento do universo pelas dimensões relativas do espaço-tempo como também desvendou a engrenagem do capitalismo

18/12/2015 00:00

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O período de retração pelo qual passa a economia brasileira se caracteriza basicamente por uma crise de realização. Os investimentos produtivos recuaram tanto de agentes internos quanto externos, exceto num ou noutro nicho cuja perspectiva de retorno ainda seja positiva e rentável. 
 
Daí que, em sequência, a cadeia produtiva igualmente se estanca, a distribuição reduz compras e estoques e o comércio não repõe suas prateleiras no mesmo ritmo anterior porque as vendas recuaram também
 
É simplificar demais porque há outras variáveis em jogo, mas correr esse risco ajuda o entendimento ao tempo em que facilita destrinchar o enredamento de causa e efeito do motor da crise.
 
No fundo, no fundo, a parada técnica na economia, a que se nomeia como crise, ocorre porque o capital não encontra possibilidades de ser aplicado a taxas de retorno consideradas acima do razoável.
 
Os capitalistas, ao não verem luz no fim do túnel, ainda que no médio prazo, o que significa que suas expectativas para o próximo ano e seguinte não são promissoras, em termos de novos projetos ou expansão dos existentes, preferem eles se resguardar e deixar seus recursos aplicados no mercado financeiro. 
 
Essas aplicações servem para garantir, no mínimo, seus valores reais referenciados pelas demais transações financeiras, ou pela média delas. Mas, ao fazerem assim, o mercado todo se retrai por escassez de movimento produtivo, o desemprego aparece e a renda familiar encolhe.
 
A desigualdade, que veio reduzindo substancialmente desde 2003, volta a se manifestar pelo aumento dos trabalhadores desocupados, os ocupados com eventuais reduções salariais, a rotatividade e os trabalhos sem carteira assinada.
 
No lado oposto, os capitalistas, banqueiros, gente da classe rica e da classe média alta ou quase, tem condições de manter seus níveis de renda pelo mesmo recurso das aplicações financeiras. Que é a outra cara do aumento da desigualdade.
 
De fato, as duas caras, dos mal empregados ou fora do mercado e dos bem empregados e dentro do mercado, se contrabalançam na conformação do perfil da desigualdade. 
 
Quanto mais gente no primeiro grupo ou menos gente no segundo, maior a desigualdade; ao inverso, quanto menos gente nos primeiros degraus da escada e mais gente nos degraus acima, menor a desigualdade.
 
Mas há o governo que pode influenciar esse quadro de maneira direta e consistente. Se sua ação é neoliberal, persiste ou aumenta a desigualdade; caso contrário melhora a desigualdade. Há outras forças políticas em ação, no entanto, que podem alterar essa equação, fazendo com que o governo não consiga reduzir a desigualdade por meio de expedientes que mantém a ferrenha lógica do capital.
 
Nosso velho conhecido, físico famoso, Albert Einstein, sabia muito bem disso. Ele não só entendeu o funcionamento do universo pelas dimensões relativas do espaço-tempo, revolucionando o estudo da física, como também captou a mensagem do capitalismo ao desvendar sua engrenagem e identificar seu movimento.
 
Sob o capitalismo “o capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte por causa da concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores à custa de outras mais pequenas. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado mesmo por uma sociedade política democraticamente organizada”. 
 
“Isto é verdade uma vez que os membros dos órgãos legislativos são escolhidos pelos partidos políticos, largamente financiados ou influenciados pelos capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura”. 
 
“A consequência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses das seções sub-privilegiadas da população. Além disso, nas condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil e mesmo, na maior parte dos casos, completamente impossível, para o cidadão individual, chegar a conclusões objetivas e utilizar inteligentemente os seus direitos políticos”.
 
Os três parágrafos anteriores pertencem ao texto escrito por Einstein no periódico Monthly Review em maio de 1949, Por que o socialismo?, reproduzido em outubro deste ano pelo portal Metrópole.
 
Para entender a atual crise brasileira, a luz de Einstein, um recuo no tempo faz-se necessário. Dilma, em seu primeiro governo, para defender a economia brasileira dos efeitos da crise externa, reduziu a taxa Selic além dos juros dos dois maiores bancos públicos, a Caixa e o Banco do Brasil.
 
Esse movimento fez com que se ampliasse o crédito ao consumo nesses dois bancos, aumentando a participação deles no mercado financeiro em detrimento dos bancos privados.
 
A partir daí começou a haver uma queda de braço entre o governo e o sistema financeiro. Por que? Porque mais de 2/3 da dívida pública está comprada pelo sistema financeiro (bancos, fundos de investimento e de previdência). Logo, se a Selic baixa, cai a remuneração desse enorme estoque de dívida. O que, obviamente, o sistema financeiro não quer porque ganham menos do que antes.
 
De outro lado, a maioria dos congressistas, mais os deputados federais, tiveram suas campanhas financiadas por grandes empresas nacionais. Todos de rabos presos com esses empresários, seus interesses e pautas legislativas.
 
Somando a pressão do sistema financeiro com a de seus ajudantes no Senado e Câmara Federal, nesta capitaneados pelo seu presidente, igualmente financiado pelas mesmas empresas, mais a pressão adicional diária da mídia, pois todos farinha do mesmo saco, acaba que o governo sozinho não aguenta e paralisa.
 
Paralisou ainda mais pela política contracionista adotada pelo ministro da Fazenda, proveniente do sistema financeiro. Uma mão lava a outra. Ele foi ungido no começo do ano exatamente pela pressão política nas costas da presidenta, que julgou por bem ficar em paz com o sistema financeiro. Mesmo tendo por perto, mas sob suas vistas, um adversário, em lugar de companheiros traíras, como vários que acabaram se mostrando ao longo do ano.
 
Qualquer saída da crise estará circunscrita aos limites dados pelo capital, afinal a economia brasileira está sob a égide dele. Mesmo assim, o governo tentou e conseguiu achar meandros onde se pode socializar um pouco, nadou muito e não morreu na praia. 
 
A empreitada é lutar e torcer para que a visão de Einstein, nas mesmas trilhas de Marx, consiga chegar aos ouvidos e práticas das novas gerações de cientistas sociais, políticos, empresários e banqueiros. A sociedade humana vai agradecer.
 
*colaborador da Carta Maior





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