Economia Política

Os fundos abutres são um perigo

Embaixador passou pela Argentina depois de ser convidado para um seminário sobre as Malvinas organizado pelo ex-ministro da Educação Daniel Filmus.

30/07/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


Buenos Aires - Ele passou pela Argentina depois de ser convidado para um seminário sobre as Malvinas organizado pelo ex-ministro da Educação Daniel Filmus, secretário encarregado da área especial na Chancelaria. Sacha Llorenti, dirigente de confiança de Evo Morales e embaixador da Bolívia nas Nações Unidas, havia dialogado com este jornal antes da cúpula do Grupo dos 77 mais a China, realizada na Bolívia, e voltou a conversar após a cúpula.

 
O documento emitido pelo G-77 é um detalhado texto de 242 pontos. Ele pode ser acessado neste link: http://bit.ly/1ouDIW5.

“Buscamos a construção de um mundo multipolar, disse Llorenti, que na Bolívia era um dos articuladores dos movimentos sociais. “E essa construção significa, é claro, a possibilidade de uma transformação global. Não falo apenas de intercâmbio comercial. Falo também do sistema financeiro internacional e da mudança da estrutura das próprias Nações Unidas. Seria a consolidação de um novo paradigma de desenvolvimento”.


Como seria esse novo paradigma?

Esta é uma tarefa pendente. Não tanto em termos econômicos, mas no modo como o mundo e o sistema financeiro estão organizados. Minha perspectiva como presidente do G-77 é global. Esse bloco, o maior da ONU, discute a fundo, e às suas discussões se soma a China, o que implica uma série de coincidências em termos de posicionamento diante do cenário das Nações Unidas. Permite contar com uma posição muito importante em questões de contrapeso. Peço desculpas se não avanço nesta resposta, pois minha condição de presidente do G-77 me impede de expressar algumas opiniões.

Mas a cúpula do G-77 em Santa Cruz de La Sierra já aconteceu. Não é um segredo.

Aconteceu, é claro, e o bloco se fortaleceu justamente no ano em que a Bolívia exerce a presidência. Essa era a nossa função. Saíram pontos importantes.
 
Primeiro, foi a reunião mais importante em uma década. Segundo, para a Bolívia, foi a reunião internacional mais importante que já organizou. Terceiro, a Declaração de Santa Cruz é um documento vivo, o mais progressista já firmado consensualmente pelo grupo. Em pouco tempo, esse texto já se materializou em fatos mais concretos do que meramente declarativos. O grupo se posicionou de maneira muito forte, a ponto de fazer um pronunciamento específico dirigido ao juiz norte-americano pelos fundos abutres. Nós dissemos na Bolívia, e insistimos nisso, que os fundos abutres são um perigo para todos os processos futuros de reestruturação da dívida e que não se deve permitir que esses fundos paralisem as atividades de reestruturação da dívida dos países em desenvolvimento, nem privem os Estados Unidos do direito de proteger seus povos. Ter falado diretamente ao juiz é uma ação concreta e inédita. O segundo caso é o assunto das Malvinas. Pela primeira vez, o G-77 fez um discurso em nome dos 13 países. Isso nunca aconteceu antes. Dou ainda outro dado. Saiu um informe dos Estados Unidos que qualifica alguns países bem e outros mal. Pois bem: a declaração diz que rechaça os pronunciamentos unilaterais. Questiona critérios. Não fica jogada em um gabinete. O presidente Evo queria fazer um relançamento do G-77. Creio que ele tenha conseguido. A vitalidade deu mais relevância ao grupo. Não se limita a esses corredores cinzentos das Nações Unidas, mas se coloca em relação às pessoas que nós representamos. Transforma-se em uma série de fatos políticos e sociais que se seguirão.

Se seguirão mesmo?

Em poucos dias. Teremos na Bolívia uma reunião do G-77 com ministros de industrialização nos dias 25 e 26 de agosto para tratar do tema da governança de recursos naturais e industrialização. Os países membros da América Latina, África e Ásia consideram isso fundamental. Nós na Bolívia nacionalizamos, o que implicou uma transformação revolucionária no país. Com o gás, incrementamos nossa renda de 300 milhões de dólares anuais para 6 bilhões. Incrementamos as reservas de 1,7 bilhão de dólares para mais de 15 bilhões. A Bolívia é um dos países que mais tem reservas internacionais per capita. Isso permitiu investimentos em infrasetrutura, em educação, em tudo... Em setembro, faremos uma reunião de chanceleres do G-77. Logo, em outubro, emitiremos um posicionamento contra o bloqueio de Cuba. Participaremos dos debates da ONU sobre a agenda de desenvolvimento pós-2015, incluindo o desenvolvimento sustentável e a mudança climática. O G-77 também mostra repúdio à espionagem norte-americana. Enfim, uma série de temas que queremos ressaltar e trabalhar conjuntamente para que a Declaração de Santa Cruz não seja apenas um fato diplomático e político, mas, no melhor dos casos, um fato social. O mesmo acontece quanto às Malvinas. Ao falar em Ushuaia com os ex-combatentes e com os habitantes da Terra do Fogo, sentimos que a declaração teve repercussão na vida cotidiana.

Em outubro, a Bolívia realizará eleições presidenciais.

A meta é superar os 70% dos votos.

É uma meta realista?

É otimista porque os frutos da revolução boliviana são palpáveis. Estão chegando a cada canto do país. Além dessas conquistas, existe uma consciência coletiva do povo boliviano de que não podemos voltar ao passado. Estamos convencidos de que a consciência do povo boliviano acompanha o presidente Evo e o processo revolucionário. É claro que a melhor forma de fazer campanha é mostrar tudo o que foi feito, e isso não se pode esconder. Ninguém, nem o opositor mais obcecado, pode negar as transformações da Bolívia. Já existe um projeto de país, uma agenda de país, e isso gira em torno das propostas do meu partido, o Movimento al Socialismo.

Que tipo de partido o MAS é hoje? Clássico, semelhante ao que os partidos europeus eram nos 1960 ou 1970?

O MAS é um partido que não tem um ponto de comparação na região. Na realidade, é uma confederação de movimentos sociais. Na área urbana, tem uma estrutura mais clássica, partidária, mas está cheia de vida porque vai se regenerando através dos sindicatos e das federações de camponeses e trabalhadores. Agora, a Central Obrera Boliviana faz parte da aliança do governo, assim como a Confederação de Mulheres e a Federação de Mineiros. É realmente um momento histórico com o qual a esquerda dos anos 1970 nem sequer sonhou.
 
Os dirigentes e seus quadros vão se revezando de acordo com as decisões das organizações sociais. Muitos estão na estrutura do poder. Não é que haja uma aliança do governo com os movimentos sociais. Os movimentos sociais são o governo.

 
Quando esse fenômeno começou?

O momento chave é quando Evo assume a presidência dos sindicatos do trópico de Cochabamba, no final dos anos 1980. Evo lê os momentos políticos do país como dirigente político e sindical, e como articulador de movimentos sociais. Na reunião de Trinidad da Federação de Campesinos, em 1996, surgiu esse instrumento político pela soberania dos povos. É um salto qualitativo muito importante na história sindical. Antes, falava-se muito da independência e do pluralismo ideológico existente no seio dos sindicatos. Mas se o pluralismo se entende dessa maneira, um pró-imperialista pode estar ao lado de um revolucionário ou de um nacionalista. Foi uma lógica aplicada para levar aos sindicatos qualquer proposta ideológica. Nos anos 1990, o MAS se constrói em torno de Evo. Evo encarna o processo revolucionário. Isso ocorre poucas vezes na história. Bem, estamos diante de um dos casos mais raros. Nem sequer a mesquinhez do cotidiano pode negar que Evo Morales é a grande figura dos últimos 500 anos, e nas pesquisas ele sai como o melhor presidente da história boliviana.

Por que a relação com o Chile está tão mal, em função da saída para o mar?

Quando entramos para o governo, em 2006, confiamos em um diálogo sincero, franco e construtivo com o Chile.

Eram os últimos meses de Ricardo Lagos como presidente.

 
Sim. Tínhamos uma agenda de 13 pontos. Mas depois de Lagos, de Michelle Bachelet, de Sebastián Piñera e agora novamente de Bachelet, assistimos a uma política no mínimo diversionista por parte do Chile. Prorroga e adia decisões sobre a saída ao mar da Bolívia, tema central das relações bilaterais com Chile e principal tema da diplomacia boliviana, classificado pela OEA como interesse regional. A Bolívia tomou a decisão de apresentar uma demanda internacional na Corte Interamericana de Justiça sobre a base dos compromissos chilenos de outorgar à Bolívia uma saída para o Oceano Pacífico. Não é uma mudança abrupta. É por uma resolução necessária desse tema. Falamos durante décadas e décadas. Até Augusto Pinochet fez uma proposta de corredor em direção ao Pacífico. E como é que os atuais governos democráticos não podem fazer uma proposta? Se existe algum povo que pode entender nossa demanda é o povo argentino. Assim como para eles as Malvinas são um tema da alma (vejo que eles falam sobre as ilhas e seus olhos brilham), a saída para o mar é a mesma coisa para os bolivianos. Levo da argentina uma tatuagem na alma. Reitero: as declarações, as palavras, os debates nos quais se luta até a morte por uma vírgula cobram algo de racional quando têm relação com a realidade. Em Ushuaia, vi como muitas das brigas na ONU valem a pena. No nosso caso, tínhamos 400 quilômetros de costa, arrebatados pelos interesses britânicos acompanhados pela oligarquia chilena. É um dos temas que permitirá alcançar o anseio da construção da integração latino-americana. Se tenho que nomear três pontos pendentes necessários para a integração plena: um é o bloqueio a cuba; outro é o das Malvinas, que é uma causa latino-americana; e um terceiro é a saída para o mar da Bolívia. Se não resolvemos esses temas juntos, a integração avançará, mas terá insuficiências.


A Bolívia continua interessada em ser membro pleno do Mercosul?

Sim. E, além disso, seria um fato natural. A Bolívia é caminho obrigatório na rota do sul ao norte e do corretor transoceânico.

Vocês esperam alguma coisa depois que o avião presidencial foi obrigado a pousar em Viena porque outros aeroportos negaram o direito de aterrissagem?

O que aconteceu foi um sequestro. O sequestro é desviar o curso de um avião previamente autorizado, quando esse avião tem imunidades diplomáticas, ou seja, é inviolável, e leva dentro dele um presidente. O avião teve que fazer uma aterrissagem na Áustria porque foi obrigado. Apresentamos uma nota para que o alto comissário dos Direitos Humanos investigue, pois a manobra pôs em risco a vida do presidente. Ainda estamos esperando que avaliem o tema. Está claro que quem esteve por trás foram os Estados Unidos. O caso, assim como outros, revela como o mundo está organizado. Para a soberba dos Estados Unidos, o multilateralismo, o direito internacional, as imunidades ou a inviolabilidade dos chefes de Estado são estória.
 
Vivemos em um mundo no qual existem alguns nos submetemos ao direito internacional e outros estão acima dele. Há pouco tempo, Barack Obama, em um discurso em Weast Point não muito repercutido, disse que existe uma nação indispensável: os Estados Unidos. O resto somos, portanto, dispensáveis? Ele reafirma a lógica do excepcionalismo. Se eles são excepcionais, o resto somos inferiores. O discurso de Obama foi pronunciado em uma academia militar. Desnuda a forma como o mundo está organizado.  Se vamos falar da integração latino-americana, é preciso se basear na identidade. Reconhecer a si mesmo em relação com os demais. Isto é, temos que nos opor a essa lógica imperial que domina o mundo. A palavra “imperial” talvez esteja desgastada, mas devemos prestar muita atenção porque ela revela a forma de organização do mundo.
 
Original: http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-251672-2014-07-28.html
 
Tradução: Daniella Cambaúva





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