Economia Política

Yanis Varoufakis: 'Não queremos mais o regime colonial representado pela Troika'

'O capitalismo se baseia na ideia de que uma dívida que não pode ser paga deve ser reestruturada. Por que impedem a Grécia de reestruturar a sua?'

21/03/2015 00:00

EU Council Eurozone / Flickr

Créditos da foto: EU Council Eurozone / Flickr

Ao querer impedir o governo grego de romper com a política de austeridade, razão pela qual foi eleito, as instituições europeias desafiam o próprio princípio da democracia, diz Ministro da Economia grego Yanis Varoufakis.
 
Você pode explicar a diferença entre a Troika e o que vocês chamam agora de "Grupo de Bruxelas", que inclui, além de representantes da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), também membros do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF)? A Grécia não estará sujeita às mesmas formas de controle político?
 
A principal diferença é que, nos últimos cinco anos, os sucessivos governos da Grécia eram completamente dependentes da vontade dos credores. Eles capitularam diante da lógica dos credores e da União Europeia. Esta última funcionou como um déspota muito severo, que impôs a uma nação falida empréstimos cujo objetivo era simples: permitir que a Europa oficial fizesse de conta que a Grécia tinha sido salva, negando-se a lidar com as falhas estruturais da zona do Euro. A Troika era um grupo de tecnocratas enviados à Grécia por nossos credores para impor um programa inviável, que só agravaria a crise. Por que fizeram isso? Primeiro, porque, na primeira fase da crise, depois de 2010, houve uma tentativa cínica de transferir as perdas dos bancos franceses e alemães para os contribuintes. A operação foi bem sucedida, e a crise grega havia sido pretensamente resolvida. O custo, e é aí que a Troika é sinônimo, na Grécia, de regime colonial, foi uma enorme crise humanitária. Foi para isto que serviu a Troika. Fomos eleitos porque o povo grego decidiu levar ao poder um partido que condena este processo. O tratamento dado à Grécia não deu certo. Fomos eleitos para contestar a filosofia e a lógica política do programa de austeridade. É claro que pertencemos à zona do euro. Não temos nosso próprio banco central. Nosso ponto de vista, enquanto governo de esquerda, é que não devemos abandonar a zona do euro. Não deveríamos ter entrado nela. Mas sair, nas circunstâncias atuais, causaria uma enorme queda dos salários e faria outros milhões de pessoas mergulharem na pobreza. Sair da zona do euro não traria nenhum benefício ao povo grego. Quando você pertence a um grupo, você tem que consertá-lo, não desmantelá-la. Isto implica uma negociação. Ao contrário da Troika, o Grupo de Bruxelas é o resultado do acordo que conseguimos arrancar duramente em 20 de janeiro no Eurogrupo. Começamos um novo processo. Para dar uma ideia do caminho percorrido: no dia seguinte às eleições, as autoridades europeias nos intimaram a aceitar suas condições, sob pena de cortar o financiamento para os bancos gregos. Conseguimos chegar a um acordo que cria uma situação híbrida. Vamos implementar o nosso programa de reformas, e seremos avaliados nessa base. Ainda resta alguma ambiguidade, pois nossos interlocutores pretendem nos avaliar também a partir de uma parte do programa anterior. O Grupo de Bruxelas mostra nosso compromisso de problematizar a situação em pleno centro da Europa. Não em um posto avançado colonial. Não estamos em um regime colonial que envia seus tecnocratas, seus funcionários, à periferia. Fazemos parte de um processo europeu. Esta é nossa tentativa de recuperar a democracia. Não só para a Grécia, mas para toda a Europa.
 
Quinta-feira passada, na sede da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Alexis Tsipras afirmou claramente que a dívida grega era insustentável. Como esta dívida insustentável pode ser reestruturada?
 
Os capitalistas conhecem perfeitamente a resposta para essa pergunta. Quando a empresa norte-americana General Motors passou, nos anos 2000, por uma grave crise de endividamento, 90% da dívida foi suprimida. A GM não existiria mais hoje se a dívida não tivesse sido reestruturada. Os advogados especialistas em falência lidam com este tipo de problema todos os dias em Wall Street, na City de Londres, em Paris, em Frankfurt. Eles renegociam dívidas contraídas por empresas que perdem a capacidade de pagá-las. Admito que haja certa ironia no fato de adotarmos, à esquerda, a mentalidade de advogados empresariais especializados em falência! Não nos esqueçamos das razões do sucesso do capitalismo, no século XIX. Entre elas está a criação das sociedades anônimas. O que significa esta inovação? Que a dívida não é dívida! Se uma sociedade anônima vai à falência, ninguém pode tomar sua casa. Na realidade, toda a lógica do capitalismo se baseia na ideia de que uma dívida que não pode ser paga deve ser reestruturada. Todo mundo sabe disso! Exceto na zona do euro... Mas, na verdade, até a dívida grega já foi objeto de uma grande reestruturação em 2012. O processo não foi chamado de "reestruturação" ou "haircut", mas de "PSI" para "Private Sector Involvement". Esta é a ironia da situação, um governo de esquerda radical ter que lembrar à Europa a própria lógica do capitalismo. É difícil de acreditar.
 
O que você quer dizer quando diz concordar com as "reformas estruturais"? O termo "reformas estruturais" não soa muito bem, pois o termo costuma ser sinônimo de ajuste neoliberal...
 
Quando eu era mais jovem, o termo "reforma" era muito mais associado a uma lógica de esquerda! Mais tarde, com a crise da dívida dos países do Terceiro Mundo e os planos de ajustamento estrutural, o FMI se apropriou deste termo. Tornou-se sinônimo do preço que os países pobres deveriam pagar em troca de empréstimos do FMI: fechamento de escolas e hospitais públicos, privatização de serviços e empresas públicas etc. Hoje, na Europa, quando as pessoas das classes mais baixas ouvem a palavra "reforma", imaginam imediatamente que sua aposentadoria vai ser reduzida, seu acesso aos serviços de saúde será prejudicado, que seus filhos podem esquecer uma educação de qualidade. O destino da palavra "reforma" é comparável ao de "democracia" no Iraque. Hoje, se um iraquiano ouvir a palavra "democracia" em Bagdá, especialmente se pronunciada com sotaque americano, ele vai morrer de medo e sair correndo! As palavras ficam impregnadas do significado que damos a elas. Há uma tradição reformista da esquerda democrática à qual nos associamos. São necessárias mudanças profundas. Nos últimos cinco anos, tanto na Grécia como na França, as reformas significaram um encolhimento do Estado de bem-estar social, mais liberdade para o capital, menos liberdade para o trabalhador. Na Grécia, o resultado desta grande depressão é que não temos mais nem capital nem trabalho. O capital fugiu para Paris, Frankfurt, Lausanne, Genebra, Nova York. O pequeno capital grego está hoje em uma posição bastante miserável, sem acesso a crédito bancário, sem demanda interna para absorver a produção. Quanto ao trabalho... Não há mais trabalho. Mesmo quando as pessoas trabalham, não são pagas. Seiscentas mil pessoas no setor privado não recebem há meses. Continuam a trabalhar porque não têm outra coisa para fazer, e, sobretudo, porque temem nunca receber se abandonarem os empregos. É pior do que a escravidão, já que não têm sequer comida e moradia garantidas. Até agora, as reformas foram sinônimo de ataques contra os mais fracos e indulgência com cartéis e oligarquias. Acreditamos que a crise, além da arquitetura falha da zona do euro, se deve também ao peso desses cartéis, dessas oligarquias, a essa estrutura de poder que sufoca a vitalidade e a energia da sociedade grega. Nossas "reformas" vão enfrentar a oligarquia, o rentismo, práticas que dificultam a inovação e o progresso e impedem o jovem de se unir e expressar sua criatividade.
 
Como explica a intransigência e a agressividade da chanceler alemã Angela Merkel e de seu Ministro da Economia, Wolfgang Schäuble, em relação a você?
 
Não é uma questão pessoal! É um problema ideológico. É também a natureza humana. Nada se reproduz tão facilmente quanto a estrutura de poder, como aprendemos com os grandes filósofos, de David Hume a Karl Marx. Eles explicam muito bem como nossas crenças nas convenções – que, em um sentido, decorrem da ideologia – estão enraizadas na cabeça das pessoas e são fonte de expectativas e de um falso senso do direito. "Eu possuo algo, então tenho direitos”. As famílias ricas que viajam de primeira classe acham que é um direito. É claro que isto não é um direito. Hume fala em "virtude artificial". Ele descreve de forma muito bonita em seu Tratado da natureza humana a maneira como as pessoas que não estão em conformidade com as expectativas daqueles que pensam ter poder sobre elas geram uma espécie de raiva. É isto que acontece. Por cinco anos, todos os ministros da Economia dos países atingidos pela crise da dívida entraram no Eurogrupo perguntando onde deviam assinar. Nós, ao contrário, fomos eleitos pelo povo grego para examinar o que nos pressionam a assinar. Não chegamos com a intenção de impor nossa vontade. Sabemos que somos um país pequeno e enfraquecido. Estamos altamente endividados, não podemos pagar essa dívida, mas temos o direito de fazer perguntas antes de pedir mais dinheiro, assim como qualquer outra instituição endividada! De repente, o fato de que um ministro fazer perguntas e expressar uma opinião sobre o que querem que ele assine contraria o que se esperava dele! Esperavam de nós um consentimento dócil, como o de nossos antecessores. Como não nos curvamos a essa expectativa, houve dissonância e tensão. O resultado desse embate é que alguns dirigentes dos mais poderosos estados-membros da União Europeia podem ter a tentação de nos esmagar. Isso seria terrível para a Europa. Significaria que a democracia não tem mais sentido. Estou confiante de que encontraremos um terreno comum. Digo isso com otimismo: é assim que a Europa pode avançar, superando suas contradições.
 
Você realmente disse a Wolfgang Schäuble que se ele se recusasse a negociar com você, poderia ter que negociar, no futuro, com os carecas do Aurora Dourada (partido de extrema-direita grego)?
 
Eu disse isso a todos do Eurogrupo. Antes da eleição, a mídia nos retratava como populistas. Fomos comparados com Marine Le Pen, na França, com Nigel Farage, no Reino Unido. Somos, no entanto, sinceramente pró-europeus, a antítese do nacionalismo! Contestar as escolhas políticas da Europa oficial não é ser antieuropeu. É nosso dever criticar o que não funciona, como ensina a história deste continente. Impuseram à Grécia um programa guiado pela ideologia, um programa que gerou humilhação, fome, privação e desespero. Sabemos, desde 1930, como este coquetel, combinado com o desemprego em massa, produz... o nazismo. Este fenômeno existe na Grécia hoje. O partido que ficou em terceiro lugar nas eleições parlamentares se reivindica abertamente nazista. Assim como na República de Weimar, o centro falhou. O Pasok se desmantelou. A Nova Democracia está desacreditada. Eu disse claramente aos meus colegas do Eurogrupo que nossa derrota beneficiaria a extrema direita. Se formos impedidos de conduzir uma política alternativa, Le Pen chegará ao poder na França e a Aurora Dourada vai tomar as rédeas da Grécia. Isso representaria um avanço para a Europa?
 
Vocês vão respirar melhor se o Podemos ganhar as eleições espanholas no fim do ano?
 
Minha mensagem para o governo espanhol atual, como para todos os governos, é que se eles cometerem o erro de tratar o governo Syriza como um inimigo, estarão perdendo uma oportunidade. Há duas abordagens possíveis. Uma consiste em estimular o confronto. As consequências seriam dramáticas para todos. A outra abordagem seria enxergar em nós uma oportunidade. Se chegarmos a um acordo mutuamente benéfico, eles poderão reivindicar este benefício. Eles têm que escolher. De nosso lado, escolhemos cooperar.
 
 
Tradução de Clarisse Meireles





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