Educação

A guerra cultural bolsonarista, as universidades e as redes

 

19/06/2020 15:17

 

 
As universidades e o mundo acadêmico-científico ocupam lugar importante no projeto de poder do bolsonarismo. Como alvo a ser abatido! Por isso a escolha para conduzir o MEC de uma figura como Abraham Weintraub, cujo único atributo intelectual é a fidelidade ao chefe e à sua sanha destrutiva. O objetivo de combater e enfraquecer o mundo acadêmico deve-se às visões disseminadas pelo guru de Virgínia. Segundo ele (e outros), inspirada pelas reflexões teóricas de Antonio Gramsci a esquerda conquistou hegemonia a partir de posições dominantes no mundo da cultura, na academia e na imprensa.

De acordo com tal visão, para derrotar definitivamente as esquerdas seria necessário golpear fundo as instituições em que são mais fortes, principalmente as universidades. Elas são consideradas (pela direita radical) o centro formador e irradiador das ideias esquerdistas que impactam o cenário público. Além dessa motivação ideológica, interessa ao projeto bolsonarista enfraquecer os meios acadêmico-científicos para que não criem obstáculo a seus projetos econômicos, especialmente os que implicam a intensificação da destruição ambiental e o desrespeito a direitos e terras indígenas.

 Para enfrentar e derrotar a esquerda no campo das ideias, os intelectuais do bolsonarismo criaram uma espécie de gramscismo de direita, rústico e virulento, mas, eficiente sob certo ponto de vista. Porém, teria o projeto bolsonarista chances de dar certo, ou seja, de consolidar-se e permanecer? Os ideólogos da direita radical, embora rudemente agressivos e afeitos a palavrões, não ignoram que apenas a repressão é insuficiente, por isso mesmo falam tanto em guerra cultural. Sabem que é preciso vence-la para construir um projeto de poder sólido e duradouro, que implique realmente mudanças culturais e nos valores sociais. Então, essa espécie de gramscismo de direita pode dar certo?

Primeiro, suas lideranças podem ser muito toscas tendo em vista as exigências da luta por hegemonia. Se é certo que a vitória na guerra cultural implica sempre a ocupação de posições de poder, a simples eliminação dos adversários da esfera pública não basta. A direita tem cursos de formação e intelectuais jovens, mas o grosso do seu ativismo é inspirado no estilo olavista, que funciona mais à base de pontapés do que pela sedução das ideias. Além disso, é um tipo de guerra cultural travado mais nas mídias sociais, geralmente comunicando ideias de forma superficial e ligeira. Será possível uma hegemonia efetiva e duradoura à base apenas de memes e palavrões?

Em uma sociedade pluralista haverá sempre disputa de ideias, podendo-se imaginar no máximo uma situação em que um conjunto de valores alcança posição predominante, porém, sempre com a presença de concorrentes disputando o lugar. Mas, como se alcança hegemonia? Seguramente o processo implica uma dimensão agressiva, em que os valores culturais dos oponentes são atacados e desqualificados. Aqui se destacou a direita radical nos últimos anos, seguindo a pregação e o exemplo do seu guru que vive nos Estados Unidos. Para esse tipo de combate, as novas mídias digitais e as redes sociais mostraram-se meios excelentes, pois suas características favorecem circulação de mensagens curtas e superficiais, frequentemente caricaturais. O ataque com imagens simples facilita a estratégia de ridicularizar o inimigo, bem como representá-lo em tons negativos ou repulsivos.

Porém, a construção de hegemonia de ideias e valores implica também uma construção positiva. Não basta apontar o que se recusa e o que seria negativo a partir do próprio ponto de vista. Há que mostrar um caminho construtivo, afirmando os valores e objetivos que fundamentariam um projeto para o futuro. Os grupos ligados ao bolsonarismo têm feito mais a parte destrutiva do que a construtiva. Considerando valores que poderiam fundamentar um projeto hegemônico, na nebulosa bolsonarista destacam-se o liberalismo (econômico) e o conservadorismo (moral e religioso). Há também o nacionalismo ‘verde e amarelo’, que se conecta à nostalgia da ditadura militar. Mas esse é o elemento mais frágil, até porque trata-se de nacionalismo cosmético, de pouca substância efetiva em quadro de submissão a uma potência externa (EUA) e aos valores neoliberais, que propõem abrir a economia à concorrência internacional. Aliás, nesse ponto as hostes bolsonaristas entram em contradição, pois a extrema direita rejeita o que chama de globalismo (que ela associa à ameaça comunista), enquanto a ala liberal deseja oferecer o país às forças globais. Na verdade, o nacionalismo verde e amarelo resume-se ao antiesquerdismo, ou seja, ser patriota para tais figuras significa essencialmente rejeitar o vermelho e os ‘vermelhos’.

Assim, os valores mais sólidos da nebulosa bolsonarista são o (neo)liberalismo e o conservadorismo. Eles têm suas próprias agências de divulgação anteriores ao bolsonarismo, é claro, e seguirão no cenário após o desaparecimento do ‘mito’. Tais valores são divulgados principalmente pela grande imprensa, lideranças políticas e os think tanks liberais, no primeiro caso, e pelas igrejas, no segundo. É possível que a guerra cultural de extrema direita, ou seja, a busca por hegemonia com métodos trogloditas acabe mal, enterrando o sonho de um domínio liberal (na economia) e conservador (nos costumes e na política) duradouro. Os defensores de tais valores têm razões para temer, pois sua coabitação ou adesão ao bolsonarismo pode trazer grande desprestígio a suas ideias.

Como não temos bola de cristal para ter certezas sobre o futuro, melhor atuar de maneira eficaz nessa disputa. Em primeiro lugar, para evitar o sucesso do bolsonarismo, pois ele sintetiza e potencializa tudo o que há de mais negativo no campo da direita. A providência básica é defender as universidades e instituições culturais tanto dos ataques destrutivos, que passam por cortes de verbas e ameaças de censura, como das iniciativas para dominá-las por dentro através da nomeação de dirigentes afinados com a pauta bolsonarista. Para que não fiquem dúvidas, não se trata de impedir o pluralismo de ideias nas universidades, pois ele é o seu oxigênio. Refiro-me à resistência contra um projeto que, no limite, poderá levar à destruição das universidades como centros de produção de conhecimento.

Pensando agora a guerra cultural do ponto de vista do campo da esquerda, em sentido amplo, ou seja, os que se opõem tanto ao liberalismo como ao conservadorismo, quais seriam as estratégias possíveis? Obviamente, entrar na disputa de valores travada tanto nas redes sociais como na tradicional esfera pública, se é que as duas ainda se distinguem. Pois os discursos e mensagens provenientes da mídia tradicional e das universidades circulam igualmente pela web. Mas, eles têm o mesmo valor e a mesma recepção alcançados pelos produtores de conteúdo ‘independentes’ na web? Creio que não, até porque essas instituições têm que obedecer a protocolos de produção de conhecimento mais exigentes (especialmente as instituições acadêmicas) quanto a qualidade e veracidade, o que nem sempre é o caso das redes sociais.

Seja como for, a disputa nas redes sociais também já vem sendo feita. A questão é refletir sobre as melhores estratégias, considerando que as disputas devem transcender o bolsonarismo, embora ele seja agora o foco mais importante. Tanto como a direita, a esquerda deve ter ações de ataque contra os oponentes, para enfraquecer o apelo de suas ideias. E o bolsonarismo tem oferecido muitas oportunidades e argumentos para ser atacado por seus adversários. Além disso, há ações judiciais e legislativas para reduzir a rede de fake News ligada à extrema direita, assim como grupos progressistas na internet têm atuado de maneira eficaz na mesma linha.

Mas, também há que pensar na disputa por hegemonia pelo viés construtivo, ou seja, a produção e divulgação de valores e ideias progressistas capazes de seduzir a população. A tese dos intelectuais de direita de que a esquerda construiu hegemonia cultural no Brasil é bastante questionável. Se assim fosse, as eleições de 2018 teriam resultado diferente. Por outro lado, os setores populares não são atavicamente progressistas ou inexoravelmente inclinados à esquerda, eles precisam ser convencidos de que esse é o melhor caminho. E esforço semelhante deve ser feito em direção às classes médias, pois elas têm enorme peso no jogo político, especialmente quando unidas contra ou favor de algo.

As esquerdas têm suas agências de produção e divulgação de valores e ideias, em especial partidos políticos, portais e sites progressistas. Mas valeria a pena pensar em think tanks de esquerda, de perfil não partidário (ou suprapartidário), para organizar debates e a elaboração de projetos. Pois as universidades não são, como parece acreditar a direita radical, agências orientadas à produção de projetos para a esquerda.

Finalmente, faz-se necessário uma estratégia para alcançar além das bolhas progressistas, o que significa pensar não apenas o conteúdo das mensagens, mas também as formas e os veículos mais adequados para uma divulgação que atinja público mais amplo.



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