Educação

A nomeação pelo Brasil de um criacionista para liderar sua agência de ensino superior choca cientistas

 

30/01/2020 14:10

(CSS/CAPES)

Créditos da foto: (CSS/CAPES)

 

SÃO PAULO - A nomeação de um defensor do criacionismo para liderar a agência que supervisiona os programas de pós-graduação no Brasil preocupa os cientistas aqui - mais uma vez - com a invasão da religião nas políticas de ciência e educação.

No sábado (25), o governo do presidente Jair Bolsonaro nomeou Benedito Guimarães Aguiar Neto para chefiar a agência, conhecida como CAPES. Aguiar Neto, um engenheiro elétrico por treinamento, atuou anteriormente como reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), uma escola religiosa particular aqui.

Ele defende o ensino e o estudo do ‘design inteligente’ (DI), uma consequência do criacionismo bíblico que argumenta que a vida é complexa demais para ter evoluído pela evolução darwiniana e, portanto, exigiu um projetista (designer) inteligente.

Pesquisadores têm expressado forte desaprovação com a nomeação. "É completamente ilógico colocar alguém, que tenha promovido ações contrárias ao consenso científico, em uma posição de gerenciar programas que são essencialmente de treinamento científico", disse o biólogo evolucionista Antônio Carlos Marques, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

A nomeação cria "insegurança" sobre como a CAPES moldará os programas educacionais, diz Carlos Joly, pesquisador de biodiversidade da Universidade de Campinas.

A CAPES é uma agência federal importante do Ministério da Educação do Brasil. É responsável por regular, supervisionar e avaliar todos os programas de pós-graduação nas universidades brasileiras e financiar milhares de bolsas de estudos para mestrandos e doutorandos. Também emite pedidos de financiamento para pesquisa e fornece treinamento para professores no ensino fundamental e médio.

Aguiar Neto foi recentemente citado em um comunicado de imprensa da UPM afirmando que o DI deveria ser introduzido nos currículos da educação básica do Brasil como "um contraponto à teoria da evolução" e para que o criacionismo pudesse ser apoiado por "argumentos científicos".

Ele fez esses comentários antes do segundo Congresso de Design Inteligente, realizado no Mackenzie em outubro de 2019. O evento foi organizado pelo Discovery Mackenzie, um centro de pesquisa criado pela UPM em 2017 para espelhar o Discovery Institute em Seattle, que também promove o DI.

Aguiar Neto tinha sido reitor da Mackenzie desde 2011. Na CAPES, ele substitui Anderson Correia, que agora é reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, uma escola de elite de engenharia ligada à força aérea brasileira.

Esta é a segunda vez sob Bolsonaro que as visões de um candidato sobre o criacionismo se tornam um problema. Em janeiro de 2019, Damares Alves, recém-nomeada ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos de Bolsonaro, recebeu críticas por dizer, em um vídeo de 2013, que as igrejas evangélicas do Brasil perderam influência na sociedade, permitindo que os cientistas "controlassem" o ensino. da evolução nas escolas. Os cristãos evangélicos do Brasil estão entre os mais fortes apoiadores de Bolsonaro.

*Publicado originalmente em ScienceMag.org | Tradução de César Locatelli

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