Idades da Vida

Conferência com Mészáros abre Fórum Mundial de Educação

26/07/2004 00:00

Porto Alegre - Um dos mais importantes estudiosos do pensamento marxista na atualidade, o filósofo húngaro István Mészáros participará da conferência de abertura do III Fórum Mundial de Educação, dia 28 de julho, em Porto Alegre. Mészáros falará sobre o tema "A educação para além do capital", ao lado de Pablo Gentili, doutor em Educação pela Universidade de Buenos Aires e professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. A conferência está marcada para iniciar às 19h30min, no Ginásio Gigantinho, e terá ainda a presença, como debatedor, do sociólogo Ricardo Antunes.

Mais de 14 mil pessoas de 34 países já se inscreveram para o III FME, que, além das conferências e dos debates temáticos, terá a apresentação de mais de 1.500 trabalhos elaborados por educadores de vários países. As maiores delegações são as do Brasil, Uruguai, Argentina, República Democrática do Congo, Canadá, Espanha e Colômbia. Os organizadores aguardam a presença de pelo menos 20 mil pessoas na capital gaúcha.

A obra de Mészáros
Mészáros é autor de um dos principais estudos sobre o pensamento político e econômico de Marx. Seu livro "Para além do capital", publicado no Brasil pela Boitempo Editorial e pela Editora da Unicamp, é considerado o primeiro trabalho crítico de peso ao capitalismo após a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética. Rejeitando as leituras dogmáticas da obra de Marx e seus desdobramentos práticos nas experiências socialistas do século XX, Mészáros apresenta o trabalho do autor de "O Capital" como uma reflexão atual e rica para todos aqueles que não se curvaram às teses deterministas da inevitabilidade da história e da ausência de qualquer alternativa ao capitalismo.

Em "Para além do capital", ele procura construir uma crítica radical do capitalismo, das formas de vida alienadas engendradas pelo mesmo e da sua lógica que estaria levando o planeta à beira da destruição. Essa ameaça de destruição não seria apenas física, através do risco crescente à paz mundial provocada pela militarização da agenda política das nações, mas também simbólica, atingindo, entre outras coisas, a qualidade da educação. A onda de privatizações que se abateu sobre o mundo nas últimas décadas afetou também a educação, provocando uma desvalorização do ensino de ciências humanas e literatura em proveito das disciplinas consideradas mais técnicas e voltadas para as exigências do mercado. O resultado desse processo, segundo os organizadores do Fórum Mundial de Educação, é a perda progressiva da consciência crítica nas salas de aula.

Desafios teóricos para a esquerda
Embora não aborde diretamente esse tema, a obra de Mészáros lança uma série de desafios teóricos para a esquerda que tenta superar esse quadro de mercantilização. Entre outras coisas, faz uma crítica à atuação dos sindicatos e partidos políticos de esquerda que, tanto nas suas variantes social-democratas quanto naquelas herdeiras do comunismo soviético, teriam fracassado em suas tentativas de controlar e superar o capital. Segundo ele, o desafio maior do mundo do trabalho, cada vez mais precarizado, e de seus agentes é criar novas formas de atuação, capazes de articular as novas lutas sociais na direção de um novo modelo político e econômico.

Uma das condições para chegar a isso, propõe Mészáros, é eliminar a separação, introduzida e alimentada pelo capital, entre ação econômica (ênfase da vida sindical hoje) e ação político-parlamentar (concentrada na ação dos partidos políticos). Esta divisão, defende, só favorece o capital e sua ordem hegemônica internacional, fragmentando a luta dos trabalhadores e dos novos movimentos sociais que surgiram nas últimas décadas. O movimento em favor da construção de um novo sistema educacional não estaria livre desses riscos, especialmente o da fragmentação, ou seja, a visão da luta por uma educação não mercantilizada como algo separado da disputa política mais abrangente.

Educação é um tema para a OMC?
A abrangência dessa disputa fica evidente quando se considera a proposta de incluir a educação na lista de serviços regulados pela agenda da Organização Mundial do Comércio (OMC). O crescimento progressivo da rede de ensino privado no sistema universitário brasileiro é um claro sinal de que a educação é vista como um ótimo negócio pelos grandes investidores nacionais e internacionais. Estados Unidos, Japão, Austrália e Nova Zelândia já pediram ao Brasil que colocasse na mesa de negociações a liberalização do setor, ou seja, a institucionalização da educação como um serviço e não como um bem público. Hoje, no Brasil, não há nenhuma restrição legal a que empresas estrangeiras ofereçam serviços educacionais para brasileiros, desde que cumpram as leis nacionais.

A diferença entre essa situação e o que está sendo proposto pelos países citados reside justamente na liberdade de alteração das regras a qualquer momento, dependendo dos interesses dos investidores. Estes consideram a legislação nacional como um potencial entrave para a expansão de seus negócios no Brasil. Até agora, o governo brasileiro e a comunidade acadêmica vêm resistindo a essa ofensiva, que cresce a cada ano. Esse será um dos debates em debate na terceira edição do Fórum Mundial de Educação e um dos fatores fundamentais para se pensar o que seria uma “educação para além do capital”, tema da conferência inaugural do evento. Na atual correlação de forças entre educadores e mercado, o capital vem ganhando com folga.


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