Educação

Não jogar a criança junto com a água suja

Se ficarmos na inércia, escravizados pelas dificuldades de mobilização, podemos sem querer, manter a categoria paralisada. Sem induzir e provocar a insatisfação, sem colocar em movimento não se sai da inércia

16/10/2019 13:13

 

 
Um dos episódios mais marcantes do primeiro semestre foi a mobilização do dia 15 de maio contra os cortes na educação. De lá para cá foram realizadas outras manifestações, algumas da educação, como o dia 30 de maio e a recente greve de dois dias (2 e 3 de outubro), mas as mesmas foram menos massivas.

Li recentemente no portal Carta Maior, um artigo do professor Josué Medeiros, da ADUFRJ (clique aqui), expressando sua avaliação e elencando hipóteses explicativas para o fato de que as mobilizações dos dias 2 e 3 de outubro terem sido menores. A primeira hipótese de Medeiros é de que as “pessoas estão cansadas das paralisações-atos” e de que “existe um sentimento de que não adianta nada muito profundo”. A segunda é de que as “pessoas estão com medo” por não saber “o alcance do autoritarismo bolsonarista”, posto que mobilizar “tem um risco a mais e ninguém tem culpa de não querer pagar para ver”.

Após a vitória de Bolsonaro foi muito corrente um sentimento de impotência, medo do que poderia ocorrer e até de adoecimento de muitos ativistas e militantes dos movimentos sociais. Mas isso nunca foi um sentimento presente de forma massiva no seio de uma categoria ou grandes parcelas da população. As mobilizações realizadas este ano, desde o 8 de março, passando pelo 15 de maio e demais atos, mostraram que a parcela mais militante superou a paralisia inicial e voltou a ocupar as ruas, reivindicar seus direitos e confrontar o governo.

Já o sentimento de que não adianta nada, esse é mais presente na parcela menos consciente das classes trabalhadoras. A existência de um governo reacionário implica numa maior dificuldade de lutar. Foi assim em todos os períodos autoritários. Mas, em todos os períodos citados, estivemos nas ruas e promovemos maciças manifestações, fomos perdendo o medo e estimulando que outros assim o fizesse. Por isso é muito alvissareiro ter visto a presença maciça de jovens no dia 15 e 30 de maio e sentir a vitalidade dos atos das mulheres no início do ano.

É óbvio que erros existem, mas devemos ter cuidado para não jogar a criança junto com a água do banho. Explico melhor.

Muitas vezes as direções tomam decisões desconectadas do sentimento geral da categoria. Na verdade, o que faz uma greve ser bem-sucedida não é exclusivamente o número de participantes numa assembleia, mesmo que esse seja um indicador de mobilização. Mesmo massiva, uma assembleia sempre reúne o setor mais consciente e mais decidido a lutar. A greve ou um ato dá certo se sua reivindicação estiver conectada com o desejo da maioria da categoria.

É lógico que diante de um ataque evidente ou de um pronunciamento ultrajante sempre fica mais fácil mobilizar, mas isso não pode ser o único definidor de mobilizações, caso contrário, seremos reféns dos acontecimentos. A tarefa das direções sindicais e dos movimentos sociais é sensibilizar as classes trabalhadoras para as condições em que vivem. Muitas mobilizações bem-sucedidas não tiveram fato gerador que provocasse indignação. Podemos ter um duro ataque sendo aprovado na Câmara dos Deputados e o grau de conhecimento dele ser muito pequeno, cabe as direções sindicais tornar o assunto parte do cotidiano da categoria, muitas vezes não temos uma fagulha para assoprar, temos que criar a fagulha primeiro.

Uma paralisação nacional pode, nos tempos atuais, ocorrer de forma difusa, via uma convocação que vai crescendo e angariando apoio de grupos organizados ou não, ou pode ser orgânica, construída por entidades nacionais e por dentro de suas instâncias de decisão. Na história do Andes, após consulta e aprovação de assembleias de base, já fizemos greves vigorosas e também movimentos fracos. Ter uma orientação nacional para que se faça uma greve nacional, numa categoria que precisa ser consultada de forma descentralizada, é uma necessidade. Assim ocorrem as greves dos bancários, dos funcionários dos correios, assim os trabalhadores da educação paralisaram também.

A indução de um fórum ou conselho representativo das direções locais é necessário, não é autoritarismo. Agora, devemos avaliar se, ao decidir pela indicação, as direções avaliaram as condições e sensibilidades da categoria corretamente ou se fatos posteriores (como repressão preventiva do governo, por exemplo) mudaram as condições anteriormente existentes. Analisar as condições para que a paralisação ocorra, isto sim é mais relevante. Muitas vezes existe a necessidade, mas as condições para uma paralisação nacional vigorosa não estão dadas.

Agora, se ficarmos na inércia, escravizados pelas dificuldades de mobilização, podemos sem querer, manter a categoria paralisada. Sem induzir e provocar a insatisfação, sem colocar em movimento não se sai da inércia.

É verdade que para o dia 15 de maio, apesar dos cortes terem sido feitos em meses anteriores, as declarações absurdas do ministro serviram como forte sopro na fagulha. Mas os cortes continuam e a situação de penúria não foi revertida quando convocada a paralisação de dois dias. Fato novo que tivemos foi feito pelo governo nas vésperas, desbloqueando parte dos recursos, justamente para desmobilizar.

Para furar a bolha, como se diz hoje em dia, ou seja, para alcançar os colegas que pouco participam das assembleias, que parte foram eleitores inclusive do atual presidente, ter um fato gerador concreto, sensível, é fundamental. Realmente ter uma pauta que se distancie ou exclua parte da categoria para sua adesão, mesmo que justa, pode enfraquecer mobilizações neste momento delicado da conjuntura. Mas, não podemos ir para o outro extremo, que na prática nega o debate político do que fundamenta os cortes nas universidades, abdicando de disputar corações e mentes dos docentes.

Existem diferenças reais entre os atos do dia 15 de maio e a greve de 48 horas de outubro. Não podemos comparar fenômenos distintos. A primeira é coisa rara, foi uma manifestação espontânea e que as entidades se engajaram no processo. A segunda, que é regra nas nossas vidas, foi um movimento construído, via ferramentas criadas pelo próprio movimento sindical.

Nosso sindicato nacional tem virtudes e problemas.

Dentre suas virtudes está, certamente, sua independência na relação com governos de plantão, o que nos garante posição firme na defesa dos interesses mais legítimos da categoria e muita combatividade e desejo de lutar contra qualquer ataque.

E possui problemas, dentre eles, uma dificuldade de interagir com uma categoria que mudou seu perfil, com seus anseios imediatos. E uma filiação a uma central sindical sectária e que deu as costas a luta democrática contra o golpe e segue na mesma toada.

Não se supera as deficiências existentes no movimento sindical nem com a inércia (não convocando assembleias, esperando fatos novos acontecerem), nem divinizando “novos métodos”. Novas formas de alcançar as pessoas são bem-vindas, mas como diz o poeta, além de navegar é preciso saber o porto de destino, quer dizer, é preciso manter a forte determinação de que queremos transformar este mundo e para isso parto do concreto, alargo os horizontes e disputo corações e mentes para uma nova visão de mundo.

A cada dia que passa aumenta a insatisfação da comunidade educacional com os desmandos do Governo Bolsonaro, sabemos que o enfrentamento às medidas antidemocráticas que atacam a autonomia das instituições (como o desrespeito às listas triplíces), o asfixiamento financeiro, o projeto Future-se e outros ataques merecem decidida atuação para contê-los. Também sabemos que a resistência precisa ser a mais ampla possível e requer disposição e generosidade para enfrentar o inimigo comum.

Se por um lado não é oportuno a reafirmação de diferenças que beiram ao sectarismo, por outro, não nos serve o apassivamento da categoria. Enfrentar o momento atual nos exige a unidade necessária para defender aquilo que acredito ser o mais caro para todos, a Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade com condições adequadas de ensino, pesquisa e extensão que, por óbvio, pressupõe uma carreira docente justa, bem estruturada e que garanta ganhos reais aos docentes.

Luiz Araújo é doutor em Educação, Professor da Universidade de Brasília e Dirigente licenciado da ADUNB



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