Educação

Que tsunami é esse?

 

15/08/2019 11:08

(Fernando Frazão/Agência Brasil)

Créditos da foto: (Fernando Frazão/Agência Brasil)

 
Treze de agosto de 2019 seria apenas mais um dia de manifestações, não fosse pelo foco dos protestos. Contudo, em uma República efervescente, quase nada passa despercebido. Tampouco uma crescente onda de levantes, que, desde 13 de maio deste ano, convoca a sociedade brasileira para pensar acerca dos rumos daquele que é o bem mais precioso de um povo: o conhecimento.

O Tsunami da Educação, agora em versão atualizada, chama à atenção da Nação para o retrocesso que ronda o Ensino Superior: o Future-se, proposta lançada pelo Ministério da Educação (MEC), pretende submeter o financiamento dos cursos superiores de instituições públicas às vicissitudes do mercado financeiro. Na prática, esse projeto, sob o pretexto de instituir a autonomia das universidades, progressivamente desobriga o Governo Federal de cumprir sua obrigação maior com o saber: a promoção de educação pública, gratuita e de qualidade.

As medidas adotadas pelo Governo Federal, especialmente no que diz respeito à educação, ferem as liberdades democráticas e ameaçam os próprios marcos civilizatórios. Analisando o caráter dos caminhos propostos pela atual gestão, fica evidenciado o propósito de, paulatinamente, submergir o Ensino Superior, colocando em seu lugar o ensino técnico. Caso contrário, a cartilha seguida pelo MEC seria reformular a Educação Básica, ponto nevrálgico do ensino brasileiro.

Quando olhamos para a Educação Básica, seja pública ou privada, percebemos uma conjuntura caótica. Se por um lado, o ensino básico público possui lacunas estruturais, a exemplo da falta de professores, dos salários baixos e do sucateamento das salas de aula, a rede privada ostenta estrutura, porém, opera na lógica clientelista: a família do estudante paga as mensalidades escolares em troca da sua aprovação. Nesse cenário, o conhecimento, em lugar de ser produzido, reproduz uma lógica social perversa, a qual resulta na chegada de contingentes significativos de analfabetos funcionais ao Ensino Superior: pessoas que não pensam por si próprias, apenas repetem aquilo que leram sem qualquer senso crítico.

Protestando contra esse pavoroso estado de coisas, o 13 de agosto reafirma a necessidade de pensar a educação como um patrimônio da sociedade brasileira, ante o cotidiano de sala de aula, marcado pela mortandade do pensamento livre. Com efeito, todos somos responsáveis pela perda daquilo que nos diferencia das demais espécies: o pensar. Estamos produzindo ignorância. E em larga escala.

Além de reivindicar Ensino Superior de excelência, as várias manifestações que levaram milhares às ruas, levaram também nossas mentes a pensar na frase de George Orwell (1903-1950): “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”.

Armando Januário dos Santos. Sexólogo. Pós-graduando em psicanálise. Concluinte da graduação em Psicologia. Graduado em Letras com Inglês. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 

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