Educação

Reforma Universitária e neoliberalismo marcarão a CRES 2018

Em cada universidade da região e todos os dias do ano, devemos discutir qual visão de educação superior finalmente se construirá para nossas sociedades

10/06/2018 12:59

 

 
Por Matías Caciabue
 
Em poucos dias estaremos comemorando o centenário da Reforma Universitária, um movimento político que articulou as juventudes políticas da região numa “nova hora americana”. Esse movimento soube golpear com força o obscurantismo religioso e o positivismo mecanicista que reinavam nas universidades do começo do século.

Em sua luta, os jovens da época tiveram a coragem de denunciar o naufrágio do ideário da independência americana do Século XIX e o mar de interesses oligárquicos e imperialistas então vigentes.

A lembrança desta conquista não é só mera efeméride da nossa história. Os 100 anos do surgimento daquele movimento reformista é o ponto mais importante da 3ª Conferência Regional de Educação Superior (CRES), do Instituto de Educação Superior para a América Latina e o Caribe (IESALC), da Unesco, que reunirá mais de cinco mil universitários da região, para refletir e debater sobre o futuro da educação superior no continente e no mundo.

Assim como há 100 anos atrás, nosso tempo volta a nos mostrar em meio a uma convulsão, e a educação universitária também é afetada por ela. “Crise educativa” diz o pleno de reitores do Conselho Interuniversitário Nacional (CIN) da Argentina. “Crise educativa” gritam as organizações sindicais e estudantis. “Crise educativa” desenha a grande imprensa e as redes sociais. “Crise educativa”, ironizam o presidente neoliberal e seus papagaios de pirata.

Em todos os lugares se observa um enorme consenso sobre a “crise”. A disputa é por impor o rumo que se deve tomar para alcançar uma solução à mesma.

Nesse sentido, pode-se afirmar que a crise aparece como contrapartida à consolidação de uma nova fase do capitalismo, que promove, com muita força, ao menos seis “novos” fenômenos educativos:

Crescimento exponencial da aposta econômica corporativa na educação: em 2013, as 500 corporações mais poderosas do mundo investiram 2,6 bilhões de dólares nesse mercado. O banco anglo-espanhol Santander (dono do influente portal Universia), a empresa tecnológica norte-americana IBM e a espanhola Telefónica são as que mais investem, com mais de 100 milhões de cada uma. Imaginemos os níveis de penetração que isso significa no sistema universitário dos países do terceiro mundo, que têm orçamentos públicos sempre limitados.

Fortalecimento de fundos financeiros de investimento global, especializados em “serviços” educativos, que são ligados diretamente à rede do capitalismo financeiro transnacional: Pearson Global e Sylvan Learning Systems são dois dos casos mais conhecidos.

Consolidação de uma rede educativa global que monopoliza o conhecimento estratégico nas “conexões centrais”: a alta qualificação profissional necessária para a condução do capitalismo contemporâneo, enquanto sistema social, se encontra centralizado em um punhado de universidades, principalmente do “Atlântico Norte”: Harvard, Columbia, Chicago, MIT e Califórnia, nos Estados Unidos; Cambridge, Oxford e Londres na Inglaterra.

Este circuito se complementa com outro ponto referencial, na região da Ásia-Pacífico, com um eixo nas universidades da região administrativa especial de Hong Kong na China, e as principais instituições educativas de Cingapura, Malásia, Coreia do Sul e Japão.

A medição da centralidade na rede de tais universidades se realiza através de rankings globais, com base em critérios tecnocráticos, onde se destacam as listas elaboradas pela ARWU-Shangai, o World University Rankings e o QS-Top Universities.

Promoção de universidades de mercado: pertencentes a grupos das elites econômicas e políticas de cada um dos países do terceiro mundo, regidas pelo lucro e promotoras de uma duvidosa qualidade educativa. O modelo educativo chileno é o mais atravessado por esse paradigma, com universidades vinculadas à direita política e à oligarquia empresarial, num sistema implementado pelo ditador Augusto Pinochet (1973-1990) e desenhado por seus Chicago Boys.

O surgimento de “universidades globais”, como a Universidade de Minerva, onde os estudantes viajam por sete cidades diferentes ao largo do seu curso (San Francisco, Seul, Hyderabad, Berlim, Londres, Taipei e Buenos Aires) com uma educação tutoreada, que busca desenvolver profissionais com conhecimentos dissimilares e transdisciplinares.

Impulso a um processo de desescolarização e desinsitucionalização educativa: promove-se uma formação acadêmica voltada a acostumar os jovens a conviver com as incertezas de um mercado de trabalho que gera uma progressiva desocupação. Também se estimula a formação para o emprego por conta própria (free lancer), mesmo que trabalhando para empresas amplamente publicitadas na televisão e nas redes sociais (como os casos de Open English, NextU, etc), e/ou dentro de suas próprias empresas, como faz o Facebook para estudar a programação em sua Digital House Tech Hub.

Nesta nova fase do capitalismo, o conhecimento estratégico – esses saberes com capacidade de vertebrar a acumulação das riquezas e a dominação política – dá um salto duplo, da graduação à pós-graduação, e logo dessa à pós-graduação no exterior. Isso é o que explica porque o refluxo político popular na Argentina e em toda a região está tentando deixar na obsolescência as universidades e os sistemas científico-tecnológicos públicos.

Estes governos, articulados aos interesses da aristocracia financeira global, que vem apagando do mapa as bandeiras dos Estados-nação (mesmo dos países centrais) são deliberadamente gestores de uma política de ajuste orçamentário e de redesenho institucional.

Na proposta destes governos neoliberais só algumas partes do atual sistema de educação superior sobreviverão. Essas tais “partes” estão sendo enlaçadas às necessidades educativas-científicas do que foi batizado como capitalismo “cognitivo”, como conexões “secundários” dessa difusa (porém existente) rede educativa global. Pode-se ler essa direção política na criação, na Argentina, do “Consórcio UBA-UNC, na Sociedade do Conhecimento” assinado pela Universidade de Buenos Aires e a Universidade Nacional de Córdoba.

Tudo o que não sirva não será conectado. Sobreviverá abandonado à sua própria sorte. No caso argentino, uma implosão estrategicamente controlada atravessa o sistema público de educação superior, para que o enxugamento institucional não permita uma articulação e um posterior conflito social cada vez maior e generalizado.

As universidades da Grande Buenos Aires, as universidades de tamanho médio das províncias argentinas, a maior parte das instituições ligadas ao Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), do Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (INTI), da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) e provavelmente parte do Instituto Nacional de Tecnologia Agrícola (INTA) – já que a Argentina é relevante no desenvolvimento agrobiotecnológico mundial – serão protagonistas de uma demolição que, embora se manifeste anárquica, se encontra fortemente orquestrada na desarticulação política do projeto estratégico do governo da Argentina e, estimamos, de vários dos países da região, articulados agora no “Grupo de Lima”, o novo escritório que atende aos interesses norte-americanos no continente.

Alguns dos principais envolvidos no sistema universitário assiste a este processo sem poder sequer visualizá-lo. O mesmo acontece com a velha casta professoral, diante dos avatares de um nascente movimento estudantil que recuperava, em seus ideais, o caminho revolucionário das independências americanas.

Embora possa soar contraditório, não são épocas para plantear somente a “defesa” do sistema público de educação superior. São tempos para que, desde o interior do sistema universitário, apareça um projeto de universidade e de ciência que se articule às problemáticas concretas, ao conflito social cada vez mais agudo, à produção e à aplicação do conhecimento estratégico em benefício dos nossos povos, e desligados das “lógicas do paper” e do mérito.

Assim, no centenário da Reforma Universitária, e rodeados por uma avançada neoliberal que não tem sido capaz de desmontar todo o “ciclo progressista” latino-americano da primeira década do Século XXI, nos vemos diante de três visões sobre a educação e a universidade em nossas sociedades: a conservadora, que significa a defesa de algo que não resistirá ao peso de um mundo hiperconectado, virtualizado e automatizado; a neoliberal, que semeia a maximização dos lucros da plutocracia financeira a partir da pauperização dos nossos povos; e a popular ou revolucionária, que está nas mãos daqueles que não só defendem a universidade  a ciência públicas, como também buscam construí-las como ferramentas de transformação positiva de nossas sociedades.

A terceira CRES, que se realizará em Córdoba dentro de poucos dias, servirá como cenário deste debate. Será um megaevento, mas também, em cada universidade da região, e todos os dias do ano, devemos discutir qual visão de educação superior finalmente se construirá para nossas sociedades. Os reformistas de 1918 souberam dar uma resposta coletiva e transformadora à convulsionada realidade educativa e política da sua época, articulando suas demandas universitárias à luta geral dos povos.

Em tempos como os que vivemos, a 100 anos de suas ações, seu exemplo tem um valor incalculável.
 
Matías Caciabue é licenciado em Ciência Política (UNRC), estudante de Especialização em Pensamento Nacional e Latino-Americano (UNLA) e redator-investigador argentino do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



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