Educação

Ricardo Vélez Rodríguez, um soldado da batalha ideológica de Bolsonaro

 

07/03/2019 15:04

 

 

Há exatos 40 anos, Pink Floyd chocou o mundo da música com lançamento do clipe de “Another Brick In The Wall”. A canção questionou um modelo educacional opressor que ao invés de impulsionar as capacidades infantis, poda o desenvolvimento humano ao censurar o senso crítico. Passadas quatro décadas, o ministro da Educação parece ter decidido produzir um remake ruim da cena bizarra onde os atores mirins da Inglaterra dos anos 1970 são jogados, através de uma esteira, numa máquina trituradora. Isso porque, nesta semana, as escolas brasileiras receberam um comunicado oficial onde o MEC pede que no primeiro dia de aula os alunos cantem o hino nacional seguido do slogan de campanha do presidente Jair Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Ainda não se sabe se Ricardo Vélez Rodríguez saiu de um passado distante ou de um futuro distópico.

Diferente do que Bolsonaro prometeu para seu gabinete, o ministro da Educação não parece ter sido escolhido por suas capacidades técnicas. Trata-se de um intelectual de extrema-direita com pouquíssima experiência em gestão e nada especializado em administração pública. Apesar disso, ele está à frente do ministério cujo orçamento é um dos maiores entre todas as pastas.

Teólogo e professor emérito da escola de elite do Exército, o novo ministro tem um discurso alinhado com o presidente sobre o projeto Escola Sem Partido e questões relacionadas à ideologia de gênero e a suposta “doutrinação marxista” presente nas escolas brasileiras. Após ser anunciado por Bolsonaro, Vélez Rodríguez publicou um texto em seu blog pessoal – aberto apenas para leitores convidados – para expor o que chamou de “Um roteiro para o MEC”. Segundo ele, o sistema educacional do brasil tornou os alunos “reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista”. Portanto, é papel do ministério “combater o esquerdismo” e expressar valores "no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo".

Está claro que a Educação será um dos principais fronts da batalha ideológica do presidente eleito. Sua campanha vitoriosa se baseou na mobilização de forças conservadoras de extrema-direita com propostas reacionárias para a área educacional. Para colocar o discurso em prática, escolheu o ministro indicado pelo guru Olavo de Carvalho, que também “apadrinhou” o diplomata Ernesto Araújo, chefe do Ministério das Relações Exteriores.

Em menos de 3 meses de governo, Vélez Rodríguez já deixou claro à que veio. Na segunda-feira (25) diretores de escola de todo o país foram surpreendidos com uma ordem, no mínimo, absurda do MEC. Através de um e-mail, o ministro pediu para os profissionais das escolas filmarem – e enviarem o material – os alunos cantando o hino nacional, que deveria ser seguido do slogan de campanha de Bolsonaro. “Brasileiros! Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa escola pelos professores, em benefício de vocês, alunos, que constituem a nova geração. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”, dizia a mensagem.

Após uma repercussão negativa imediata, no dia seguinte a ordem foi “tirada de circulação”, sem mais esclarecimentos. Contudo, pelo menos dez secretarias estaduais de Educação anunciaram que não cumpririam o pedido, entre os principais motivos estava a preservação da imagem dos estudantes. O governo do Maranhão emitiu a seguinte mensagem: “A Secretaria ressalta que o foco é discutir a qualidade da educação a partir de um ambiente escolar do livre pensar e agir, ou seja, democrático, participativo e que incentiva o protagonismo juvenil para a formação de cidadãs e cidadãos conscientes, responsáveis e críticos”.

A secretaria estadual de Pernambuco publicou um comunicado onde afirma que a ação do ministro “fere a autonomia da gestão” nas escolas. “O que o Brasil precisa, ao contrário de estimular disputas na Educação, e que a União, os Estados e os Municípios priorizem um verdadeiro pacto na busca pela aprendizagem das crianças e jovens brasileiros. Neste contexto, informamos a todos que esta medida proposta pelo MEC não terá aplicabilidade nas escolas da rede pública estadual”, diz o documento.

O caçador de marxistas

Orgulhoso de ser “conservador” e “anti-marxista”, o novo ministro da Educação acredita que, no Brasil, “houve uma polarização muito feia e a intelectualidade acabou no barco do socialismo”, disse em entrevista ao jornal colombiano El Espectador.

A escolha de Vélez Rodríguez foi uma surpresa para a comunidade acadêmica, uma vez que outros nomes mais conhecidos e com mais experiência na área foram cogitados para o cargo. Porém, assim que começou emitir sua opinião política sobre o projeto educacional que defende para o Brasil, tudo ficou mais claro. Assim como Bolsonaro, o ministro - professor de elite do Exército e da Universidade de Juiz de Fora – fomenta a ideia do “fantasma do comunismo” no Brasil e acredita que a Educação é um dos principais fronts desta batalha dos conservadores contra o “mal do esquerdismo”.

Vélez Rodríguez é colombiano. Chegou ao Brasil nos anos 1970 para cursar seu mestrado na área de pensamento brasileiro, na Universidade Católica do Rio de Janeiro. Depois de um breve retorno à Colômbia, decidiu fixar residência por aqui com sua esposa brasileira e se naturalizou em 1997.

Entre os muitos títulos publicados pelo ministro ao longo de sua carreira acadêmica, destaca-se um cujo objetivo parecer ser apenas atacar o PT e o governo Lula, trata-se da obra “A Grande Mentira. Lula e Patrimonialismo Petista” lançada em 2015. Neste livro o professor explica “como o PT conseguiu potencializar as raízes da violência” no país. Esse tipo de conspiração tem raízes profundas na gestão bolsonarista. O Projeto Fênix, plataforma de governo do presidente, relaciona aumento da violência no Brasil com a instalação do Foro de São Paulo em 1990.

Quando o assunto é a ditadura militar, o ministro chama o golpe de Estado de 1964 de “Revolução” que “nos livrou do comunismo”. “As forças armadas foram chamadas pela sociedade civil, a fim de que corrigissem o rumo enviesado pelo que o populismo janguista tinha feito enveredar a nau do Estado. Um populismo irresponsável que ameaçou com esgarçar o tecido social, nos conduzindo perigosamente para o confronto civil. Era tudo o que os comunas queriam a fim de fazer o que sempre fizeram: pescar em águas turvas”, diz em seu artigo intitulado “31 de março de 1964: é patriótico e necessário recordar esta data”.

Professor, o alvo móvel da batalha ideológica

Conversamos com a geógrafa e professora Cecília sobre o impacto que este posicionamento intolerante do ministro pode ter na vida prática dentro das salas de aula. Este nome é fictício, escolhemos ocultar sua identidade a fim de preservar sua imagem junto à comunidade acadêmica, uma vez que o relato a seguir traz denúncias de perseguição de alunos contra educadores.

Para a geógrafa, o ministro da educação afirmar que “a ideia de uma universidade para todos não existe” é a consequência de um movimento que entrou em ebulição há pouco mais de dois anos, com a Reforma do Ensino Médio proposta em 2017. Na visão dela, “a reforma abriria um abismo ainda maior entre ricos e pobres”, de forma a excluir alunos de escolas públicas das instituições de ensino superior mais conceituadas. O projeto da vez para sucatear a educação e minar o ambiente escolar é o Escola Sem Partido, que encontrou em Vélez Rodríguez a dose necessária de autoritarismo para defendê-lo.

O fim da sala de aula como um ambiente de livre pensar traz consequências graves para os alunos, afirma a geógrafa. Um projeto educacional pavimentado apenas em princípios de competitividade e não de promoção do senso crítico poderia gerar novas gerações intolerantes e incapazes de conviver com as contradições.

Quando a sala de aula passou a ser sinônimo de intolerância, Cecília abandonou o barco. Ela conta que, na escola onde lecionava, os alunos – influenciados por um discurso de ódio e às vezes impulsionados pelos pais – passaram a ter posturas violentas ao questionar o conteúdo trabalhado em aula. “Essa proposta de filmar professores, por exemplo, está deturpando as ferramentas que poderiam ser úteis. Existem formas pedagógicas saudáveis de incorporar os dispositivos eletrônicos e as redes sociais na educação, mas não dessa forma que está sendo proposto de se gerar uma onda de perseguição à pluralidade do pensar. Eu vi casos de alunos que invadiram as contas pessoais de professores para monitorar conversas por discordar de posicionamentos políticos, perdeu-se a fronteira entre o ambiente escolar e a vida privada do professor”, denuncia.

“Agora com este atual ministro da Educação, que já se mostrou extremamente autoritário, o ato de questionar o professor deixa de ser saudável. A sala de aula já não é mais o lugar da democracia e da pluralidade de conhecimento, pelo contrário, só se permite uma forma de pensar e isso tem um impacto direto da formação humana destes alunos que se tornarão cidadãos limitados, incapazes de enfrentar debates e questionamentos”, afirma a geógrafa.

Este “vigiar e punir” dentro da sala de aula ganha cada vez mais adeptos na extrema-direita. Vale destacar que no ano passado, logo que foi eleita deputada estadual pelo PSL de Santa Catarina, a professora Ana Caroline Campagnolo chegou a criar um canal para denúncias contra os educadores. Com smartphones em punho, alunos passam a ver o professor como o inimigo, quando a escola deveria representar exatamente o oposto, um ambiente para formar e impulsionar o senso crítico.

Ainda no ano passado, o professor de história Jam Silva Santos foi um dos alvos. Após exibir o filme Batismo de Sangue, baseado na obra de Frei Betto sobre a ditadura militar, foi acusado de “doutrinação” por um aluno e sofreu linchamento virtual. Jam usava este material em suas aulas há cinco anos e nunca tinha tido algum tipo de problema. “A escola, que poderia ser um local potente para formar cidadãos críticos está cada vez mais sendo neutralizada e isso pode gerar consequências graves para as próximas gerações”, constata Cecília.

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