Educação

Sobre o 30 de maio

A manifestação não foi maior que a do dia 15 em termos nacionais, mas mostrou que a oposição ao governo conta com uma base social sólida e mobilizada

31/05/2019 12:40

Manifestação em Belo Horizonte (Maxwell Vilela)

Créditos da foto: Manifestação em Belo Horizonte (Maxwell Vilela)

 

Em 26 de maio, a base social orgânica do bolsonarismo se manifestou em defesa do governo. Quatro dias depois, as ruas voltaram a ser ocupadas, agora pela oposição. Do ponto de vista numérico, os atos de 30 de maio foram maiores do que os realizados no dia 26 de maio. Porém, foram menores que os de 15 de maio, quando aconteceu o maior protesto de rua contra Bolsonaro desde o “Ele não”, ainda no segundo turno das eleições.

De forma alguma, o 30 de maio não foi inexpressivo, bem longe disso. Mas também não chegou a se aproximar da força do 15 de maio. É perfeitamente possível entender o que aconteceu, o que está acontecendo.

Para isso, porém, é necessário ter a clareza de que as movimentações da sociedade civil não devem ser avaliadas apenas na base daquilo que costumo chamar de “matemática de rebanho”, quando nos limitamos a contar as cabeças das pessoas que efetivamente foram às ruas. Há muito mais aspectos envolvidos, especialmente em momentos de crise aguda, como esse em que vivemos. As ruas não são independentes dos alinhamentos palacianos, das idas e vindas da política institucional. Não existe “mobilização espontânea”, de nenhum dos lados.

Sobre o 30 de maio, a primeira coisa que precisa ser dita é que sua inserção no calendário de mobilizações foi tardia. No princípio, havia dois atos agendados: 15 de maio e 14 de junho, que tinham como pauta central o protesto contra a Reforma da Previdência.

Mas como o mês de maio começou sob os ataques do governo ao sistema de ensino federal, a programação foi mudando de perfil, passando a ter a “defesa da educação” como agenda prioritária, que demonstrou ser uma pauta mais agregadora do que a crítica à reforma da previdência. Tão agregadora que contou, inclusive, com o apoio da mídia corporativa, que ajudou a catapultar o 15 de maio, transformando-o num dos maiores atos de rua da história recente brasileira. A mídia corporativa, rompida com Jair Bolsonaro desde o início do ano, utilizou os atos em defesa da educação para tentar desestabilizar o presidente.

Que fique claro: seria equivocado dizer que a mídia corporativa rompeu com a totalidade do governo. A ruptura é com o presidente, acusado de ser incapaz, inclusive, de aprovar as reformas estruturais tão desejadas pelo mercado, de quem a mídia corporativa é porta-voz.

Ao mesmo tempo em que apresenta Bolsonaro como inepto e despreparado, a imprensa hegemônica louva Paulo Guedes, o Chicago-Boy que teria na manga todas as soluções para os problemas brasileiros. É como se Bolsonaro fosse o preço a ser pago para ter Guedes na pasta da Fazenda.

Animados, então, com o sucesso do 15 de maio, a representação dos estudantes (UNE, Ubes e ANPG) convocou o 30 de maio, numa clara tentativa assumir protagonismo, de imprimir a digital do movimento estudantil na mobilização social que naquela altura parecia ter potencial para derrubar o governo. A memória do “Fora Collor” foi atualizada.

Acuado e surpreendido pela força do 15 de maio, o governo respondeu, combinando a velha estratégia do “morde e assopra”.

Mordendo, o governo estimulou os atos populares promovidos em 26 de maio. Num primeiro momento, o apoio foi explícito, com Bolsonaro querendo participar pessoalmente das manifestações. Algum assessor de bom senso o dissuadiu da ideia. Incitar a sociedade contra outras instituições da República poderia ser considerado crime de responsabilidade.

O apoio passou a ser velado e o dia 26 de maio mostrou que Bolsonaro tem uma base social orgânica sólida. Trata-se, é claro, de uma base muito menor que os 57.7 milhões de eleitores. Político não tem voto. Político teve voto.

Mas ainda assim, essa base social é relevante, engajada e está disposta a ir com o presidente até o fim. Bolsonaro não saiu derrotado do 26 de maio.

A mídia hegemônica, por sua vez, se apropriou do 26 de maio, transformando as manifestações autoritárias da base social bolsonarista em apoio popular à reforma da previdência.

Assoprando, o governo recuou, sinalizando para uma tentativa de pacificação institucional. Depois de atacar os estudantes, Bolsonaro moderou o discurso. A narrativa dos cortes que no início era exclusivamente ideológica (acusação de balbúrdia) foi reorientada e transformada em argumentos técnicos: o corte passou a ser “contingenciamento”, o que se explicaria pelo baixo crescimento econômico. O dinheiro seria devolvido caso a reforma da previdência seja aprovada.

Em 22 de maio, o governo usou o orçamento de reserva para devolver R$ 1,58 bilhão para o Ministério da Educação, o que reduziu o tamanho do bloqueio de 7,43 bilhões para 5,85 bilhões.

Bolsonaro convidou os presidentes da Câmara dos Deputados, do Senado e do STF para um café da manhã, propondo um pacto de colaboração entre os poderes, o que é uma redundância, já que essa colaboração é a essência do constitucionalismo moderno. Se os presidentes dos poderes da República precisaram firmar um pacto é porque o sistema institucional não está funcionando.

Na base do pacto está ela, a menina dos olhos, o objeto de desejo do mercado: a reforma da previdência. Bolsonaro prometeu deixar de agir como um insano e começar, finalmente, a governar com alguma responsabilidade institucional. Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia se comprometeram a tramitar no prazo curto o projeto, interferindo o mínimo possível no texto original do governo. Dias Toffoli garantiu que o STF vai reconhecer a constitucionalidade da reforma, ainda que ele não conheça o texto definitivo. A principal autoridade do poder Judiciário reconheceu a constitucionalidade de um texto que ainda não existe. A crise é muito grave.

A mídia corporativa recebeu o acordo com algum ceticismo. Bolsonaro não inspira confiança, mas mesmo assim os barões da comunicação decidiram tentar uma trégua. Nos últimos dias, o tom do noticiário político do Grupo Globo foi mais ameno. A cobertura do 30 de maio foi pálida, com algumas chamadas pontuais ao longo do dia. Algo bem diferente da cobertura entusiasmada que monopolizou a grade da emissora durante todo o dia 15 de maio.

Fato é que muita coisa aconteceu em 15 dias. Nas crises, o tempo parece passar mais rápido.

A tentativa de realinhamento entre os poderes, a trégua da mídia corporativa, indícios de que a paciência do mercado com Bolsonaro ainda não terminou, a tomada do protagonismo por parte dos estudantes.

A realidade desmentiu a propaganda: 30 de maio não foi maior, mas mostrou que a oposição ao governo também conta com uma base social sólida e mobilizada.

Para 14 de junho está agendada uma greve geral convocada, exclusivamente, para protestar contra a reforma da previdência. Saberemos se, por si só, essa pauta é capaz de mobilizar os trabalhadores brasileiros.

Será um teste importante para o governo e para a oposição.


Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História da Universidade Federal da Bahia

*Publicado originalmente no Jornalistas Livres

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