Educação

Sociedade civil se mobiliza contra cortes na Educação de governo Bolsonaro

 

23/08/2019 15:30

'Tsunami da Educação', o protesto contra o corte no orçamento da educação, em São Paulo (Mídia Ninja)

Créditos da foto: 'Tsunami da Educação', o protesto contra o corte no orçamento da educação, em São Paulo (Mídia Ninja)

 
Recentemente o governo Bolsonaro apresentou uma proposta para estimular a captação de recursos privados nas universidades públicas. O projeto Future-se, na prática, abre espaço para a privatização do ensino público superior no Brasil. Diante de tamanho ataque ao futuro do país, reitores, professores, profissionais técnicos, estudantes e movimentos sociais se uniram para defender a Educação pública e propor soluções capazes de garantir financiamento a médio e longo prazo. “O Future-se é uma questão ideológica, dá a impressão que eles estão falando pra gente: ‘dane-se’”, acusou o pró-reitor da Universidade Federal de São Paulo, Pedro Arantes.

Um encontro realizado na última terça-feira (20) na Câmara Municipal de São Paulo, convocado pela Frente Parlamentar em Defesa da Educação, apresentou a proposta “Por um outro futuro pela educação”, elaborada de forma coletiva com a sociedade civil organizada. Os profissionais da educação alertam que o sucateamento do sistema público de ensino vai afetar de forma irreversível o futuro das próximas gerações, uma vez que, o país não vai formar profissionais qualificados o suficiente para ocupar as melhores vagas no mundo do trabalho.

Para o reitor do Instituto Federal São Paulo, Eduardo Modena, a proposta do governo federal é deslocada das necessidades reais da nação, tendo em vista que o Plano Nacional de Educação – criado a partir de um amplo debate com a comunidade acadêmica e a sociedade civil – estabelecia formas de financiamento para as próximas décadas e contava, inclusive, com parte dos royalties do pré-sal. “Nos causou espanto a retomada desta agenda que já havia sido superada pelos governos anteriores, porque quando falamos de Educação, não se trata de um projeto de um partido ou outro, mas de um projeto de Estado”, explicou.

“Durante os últimos governos tivemos avanços importantes, no caso dos Institutos Federais, no Estado de São Paulo existiam apenas 3 unidades, agora são 37. No Brasil eram 149 e hoje são 653, é uma expansão que ainda não acabou, ainda há necessidade de abertura de vagas, mas foi um avanço significativo”. Ao destacar estes números, Modena não titubeou em afirmar que o Future-se é um projeto contrário à soberania nacional. “Não me parece projeto de um governo minimante nacionalista. Nós estranhamos que as forças nacionalistas tradicionais, muitas das quais estão no setor das Forças Armadas, não pensem estrategicamente num país com soberania”.

Para o reitor, a única forma de barrar o desmonte promovido por Bolsonaro é uma ampla mobilização popular consciente de que um projeto sólido de Educação é voltado para o futuro das próximas gerações, e não uma questão partidária. “Que país nós vamos deixar paras os nossos filhos, para os nossos netos? Vamos criar uma legião de semi-escravos? De pessoas sem consciência, que não tiveram acesso às leituras mínimas, não aprenderam nenhum esporte, não tiveram noções de cultura, ciência… é isso que precisamos pensar”.

Durante o ato político, o professor da Universidade Federal do ABC, Vitor Marchetti, destacou as políticas públicas aplicadas nos últimos anos que mudaram “o rosto” da universidade pública brasileira. “Hoje 70% dos alunos matriculados nas federais tem renda de até um salário e meio na família, estamos falando de um extrato social que mudou muito nos últimos anos, 51% são declarados pretos ou pardos, 63% são o primeiro membro da família a chegar ao nível superior. Ainda é um cenário distinto do que de fato é a sociedade brasileira, mas já é muito significativo, então defender a universidade pública é defender questões fundamentais”, garantiu.

Após um amplo debate entre os profissionais da educação e os representantes de movimentos sociais, a professora reitora da Unifesp, Soraya Smaili, apresentou uma carta de intenções cujo objetivo é ser apenas o começo de um longo caminho em defesa do ensino público. Entre as propostas da carta estão “organizar a atuação em defesa da educação”; “atuar junto aos parlamentares pela recomposição dos orçamentos da educação púbica” e “trabalhar para formular uma proposta de futuro para as instituições federais de ensino superior como alternativa ao projeto Future-se”.

“Nosso objetivo não é fazer uma alternativa ao Future-se decidida nos gabinetes, mas sim uma proposta amplamente debatida entre a comunidade acadêmica e os movimentos sociais. O que o governo apresentou é um projeto unilateral e sem diálogo. Este encontro é uma forma de a sociedade civil mostrar que existe sim uma alternativa, estamos fazendo de tudo para reverter essa proposta orçamentária e propor também medidas positivas”, explicou o pró-reitor da Unifesp.



Conteúdo Relacionado