Educação

Um relato uruguaio

 

18/09/2020 11:55

Cena de 'Laranja Mecânica', filme de Stankey Kubrick, de 1971 (Reprodução)

Créditos da foto: Cena de 'Laranja Mecânica', filme de Stankey Kubrick, de 1971 (Reprodução)

 

O jornalista e acadêmico uruguaio Leonardo Haberkorn pediu demissão e não continuará lecionando na carreira de Comunicação na Universidade ORT de Montevidéu. Sua saída foi anunciada por meio desta carta que tem movido o mundo da educação em seu país:

“Depois de muitos, muitos anos, hoje lecionei na universidade pela última vez. Cansei de lutar contra o celular, contra o WhatsApp e o Facebook. Eles me venceram. Desisto. Joguei a toalha. Cansei de falar sobre assuntos dos que sou apaixonado, para pessoas que não conseguem tirar os olhos de um telefone que não para de receber selfies.

Claro, é verdade, nem todos são assim. Mas há cada vez mais. Até três ou quatro anos atrás, o pedido para deixar o telefone de lado por 90 minutos – pelo menos para evitar ser grosseiro – ainda tinha algum efeito.

Já não. Pode ser que eu tenha me desgastado muito em combate, ou que acabei fazendo algo errado.

Mas há uma coisa certa: muitas dessas crianças não sabem o quão ofensivo e nocivo é isso que elas fazem. Além disso, é cada vez mais difícil explicar como funciona o jornalismo para pessoas que não o consomem ou veem sentido em ser informadas.

Nesta semana, o assunto Venezuela surgiu na aula. Apenas um aluno em 20 poderia dizer o básico do conflito. O básico. O resto não tinha a menor ideia. Perguntei se sabiam qual uruguaio estava no meio daquela tempestade. Obviamente, ninguém sabia.

Perguntei a eles se sabiam quem é Luis Almagro. Silêncio. Após um intervalo constrangedor, do fundo da sala, uma garota gaguejou: ‘não era o chanceler?’. Então segui, e perguntei o que está acontecendo na Síria. Silêncio.

Qual partido é mais liberal ou mais de esquerda nos Estados Unidos: os democratas ou os republicanos? Silêncio. Vocês sabem quem é Vargas Llosa? Adivinhem…

Sim! Alguém leu algum de seus livros? Não, nenhum. Lamento que os jovens não possam deixar seus celulares, nem mesmo na aula. Conectar essas pessoas desinformadas ao jornalismo é complicado.

É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que tiveram que sair para procurar notícias na rua, uma estudante voltou com a notícia de que jornais e revistas ainda estão sendo vendidos na rua.

Chega um momento em que ser jornalista se torna uma realidade que joga contra você. Quando se é treinado para se colocar no lugar do outro, se cultiva a empatia como ferramenta básica de trabalho.

Então, podemos ver que esses meninos – que ainda têm a inteligência, a simpatia e o calor de sempre – foram enganados, que a culpa não é só deles. Essa ignorância, esse desinteresse e alienação não nasceram do nada.

Que mataram a curiosidade que tinham, que cada professor que deixou de corrigir seus erros ortográficos lhes ajudou a ensinar que tudo dava mais ou menos no mesmo.

Então, quando se entende que eles também são vítimas, quase sem perceber, eles baixam a guarda.

E o mau acaba sendo aprovado como medíocre; o medíocre passa a ser bom; o bom, nas poucas vezes que chega, é festejado como se fosse brilhante. Não quero fazer parte desse círculo perverso. Nunca fui assim, e nunca serei.

O que eu faço, sempre gostei de fazer bem. O melhor que posso. E não suporto o desinteresse em cada pergunta que faço, sempre respondida com silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula acabasse.

Eu também”.

*Publicado originalmente no blog do autor | Tradução de Victor Farinelli

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